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 ÓTICA LACANIANA DA LINGÜÍSTICA

Livro - "JACQUES LACAN - UMA INTRODUÇÃO"

Autora: ANIKA LEMAIRE

     Nas atas do Congresso de Roma, realizado em 1953 (32), J. Lacan definiu o significante como o conjunto dos elementos materiais da linguagem, ligados por uma estrutura. O significante é o suporte material do discurso: "a letra" ou os "sons". Não é nem o sinal nem signo da coisa, menos ainda o significado. O significado é o sentido, comum a todos, de uma experiência relatada no discurso. Exterioriza-se na globalidade dos significantes sucessivos e não se situa em parte algum precisamente no significante da frase.

    A originalidade de J. Lacan é ter querido fornecer a prova de que o significante age separadamente de sua significação e à revelia do sujeito. A figura, o caráter literal do significante, como elemento constitutivo do inconsciente, faz sentir seus efeitos na consciência, sem que o espírito tenha a menor possibilidade de aí se imiscuir.

    "Isso" (ça, id) pensa num lugar onde é impossível dizer "eu sou". Por exemplo, se um ato copulatório se efetua na presença de uma criança, sem que esta tenha maturidade biológica suficiente para o prover de sua exata significação, ele vai se inscrever no inconsciente, mas desprovido de sua significação. Inscrever-se-á em letras, em significantes puros.

    Eis aqui uma interpretação da lingüística que é impossível de desligar do contexto humano onde se inscreve, impossível, conseqüentemente, de ser renegada pelas vias clássicas da crítica científica.

    Em outro lugar de seus Ecrits: "La chose freudienne" (p. 414), J. Lacan destaca os termos significante e significado, respectivamente, a língua como sistema e a fala ou a cadeia falada. De fato, ele assimila significante e significado aos termos opostos das séries seleção e combinação. Mais, faz alusão à noção de valor.
Ele dirá conseqüentemente que significante e significado são duas redes de relações que não se recobrem.

    A primeira rede, a do significante, é estrutura sincrônica do material da linguagem, onde cada elemento tem seu emprego exato por ser diferente dos outros, e isso a cada nível que a análise lingüística destaca, desde o fonema até as locuções compostas.

    Por conseguinte, a rede do significante em J. Lacan se especifica pelas relações de oposição entre os elementos materiais, em todos os níveis de estruturação que a lingüística depreende.

    A segunda rede, a do significado, é o conjunto diacrônico dós discursos. Reage historicamente à primeira como a fala influencia a língua, mas, no sentido inverso, a rede significante comanda, por suas leis de estrutura, o advento da fala. Uma característica dominante da ordem da fala: a significação nasce da tomada do conjunto dos termos com jogos múltiplos de reenvios de significantes a significantes.

    Conceber desta maneira o significante e o significado, relacionando-os respectivamente ao paradigma e ao sintagma, permite, em suma, retomar a noção de valor tal qual a expunha Saussure, insistindo sobre o fato de que o significante, o significado e o próprio signo na sua globalidade são ao mesmo tempo termos e relações. 0 significante se define por suas oposições a outros significantes do código e isto num mesmo nível de possíveis comparações. O significado, por sua vez, tem sua importância apenas pelas correlações com os outros elementos da frase e com todos os elementos do código. A significação de um signo depende igualmente das outras palavras'da frase e do código.

    Pouco nos importa que J. Lacan tenha preferido a terminologia significante-significado à de sintagma-paradigma ou a qualquer outra notemos entretanto que ele fala também em sincronia e diacronia -, o essencial a nosso ver é que o autor dos Ecrits tenha retomado as noções lingüísticas de signo, de valor e de divisão da linguagem em dois eixos principais.

    Sua interpretação da teoria dos valores denota, entretanto, uma acentuação bastante clara das relações dos termos entre si, no seio das duas categorias, respectivamente a do significante e a do significado, em detrimento da unificação terminal do significante a seu significado.

    Pensamos ter denunciado suficientemente estes riscos nos capítulos consagrados à lingüística: Mesmo se o progresso da significação se valha do desvio de uma rede complexa de relações cruzadas entre significantes e significados, é sempre possível, tendo-se em conta o contexto global, circunscrever, ao nível local da palavra na frase, uma unidade de significação bem delimitada. Teremos, bem entendido, desembaraçado estas redes contextuais e, finalmente, graças a estas últimas, será determinada a significação de uma palavra.

    Mas não esqueçamos que o discurso de que J. Lacan, enquanto psicanalista, tem sobretudo a experiência, é bem diferente daquele do lingüista. Digamos que na psicanálise ele mostra sua outra face: a da "sobredeterminação", no sentido freudiano.

    Para o psicanalista, o discurso não se reduz a seu dizer explícito. Carreia com ele, como o próprio pensamento ou o comportamento, o peso do outro de nós mesmos. Aquele que ignoramos ou que recusamos.

    Também não é preciso se admirar de ver o Dr. J. Lacan fascinado pelo "estofo" do significante, pelos infinitos desvios simbólicos do sentido. Antes conviria tirar desta ocorrência um ensinamento que fosse proveitoso a todas as ciências humanas (pensamos na sociopsicanálise, na antropologia) e à própria lingüística. Lembremo-nos das perspectivas abertas pela análise ampliada do discurso, tal qual N. Chomsky a pratica.

    Mas sigamos J. Lacan mais de perto.

    Significante e significado, diz ele no artigo (20), são duas ordens distintas, separadas por uma barra resistente à significação, dois fluxos paralelos onde os pontilhados de correspondência são tênues.

    "É na cadeia do significante que o sentido insiste, sem que nenhum de seus elementos consista na significação" (J. Lacan).

    J. Lacan, entretanto, não quer dizer que não haja possibilidade de circunscrever de algum modo a significação das frases.

    A espiral recorrente, pela qual se apreende a significação da frase, é designada nos Ecrits pelo nome de "ponto de estofo" (point de capiton). Ponto de estofo de um divã bem psicanalítico, entretanto, como o veremos.

    "Este ponto de estofo, descobri-o na'função diacrônica da frase, porquanto ela não afivela sua significação senão com o último termo, cada termo sendo antecipado na construção dos outros e inversamente, selando o sentido por seu efeito retroativo" (Ecrits, p. 805).

    Além do conhecimento que tem do manejo do inconsciente, o que desvia um pouco J. Lacan de uma visão puramente científica da linguagem, como a da lingüística, ele apresenta uma concepção filosófica do fenômeno da "compreensão" inter-humana, da apreensão "impossível" da Verdade pelo homem, verdade de si, verdade científica.

    Como no seguimento da exposição seremos muitas vezes levada a empregar as idéias lacanianas relativas às relações do homem com a verdade, só diremos mui brevemente o de que se trata.

    Para J. Lacan, cuja obra procede de uma brilhante reflexão sobre a história da ciência e da filosofia, aparece claramente que a Verdade se furta à linguagem. A história da humanidade é escandida pelas descobertas de valor no domínio das "ciências conjecturais", segundo a própria expressão de J. Lacan, mas esses "pontos de estofo" em direção à verdade falham sempre no essencial, isto é, no impossível: a Verdade, o Real.

    A mais, essas descobertas válidas da "έπζοτημη" são veiculadas de. boca em boca, sob forma de "opinião" ( δοξα ). E esses trajetos forçados do discurso, a cada passagem, deterioram o saber um pouco mais. Disto resulta que a linguagem é um engodo a respeito da compreensão inter-humana e, principalmente, a respeito da Verdade.

    Esta filosofia geral da relação verdade-linguagem e da relação δοξα- έπζοτημη repercute evidentemente ao nível do discurso inter-humano em sua dimensão restrita. Efetivamente, a significação, circunscrita temporariamente ao nível da frase, repousa incessantemente num enigma. Engendra novas frases que, juntando-se umas às outras no curso do sentido-verdade mítica, dão a impressão de uma distorção irredutível entre o significante e o significado.

    Acrescentamos ainda que a evidenciação da função separadora da barra do algoritmo saussuriano atua igualmente para J. Lacan ao nível local da palavra. Certamente cada palavra na frase adquire um sentido para o jogo inter-relacional dos elementos proposicionais, mas, ao mesmo tempo, esse sentido não é jamais fixado de maneira estável. A palavra, somente implica uma série de referências às outras palavras do código, e tanto que, por sinônimos e antônimos, bem poderíamos refazer por inteiro o circuito do dicionário sem chegar a outra coisa que a uma tautologia.

    Pois aqui também; na estrutura sincrônica da linguagem, o ponto de estofo é mítico. O significante final buscado é radicalmente excluído do pensamento, pois resulta de uma dimensão incomensurável, isto é, do Real.

    A serviço de sua tese sobre a autonomia do significante em relação ao significado, J. Lacan cita um verso de P. Valéry. Demonstra que o significante não pode servir a nosso pensamento senão tomado no se conjunto e graças às conexões dos termos da frase entre si e aos contextos afirmados na vertical de cada ponto discreto da frase.

    "Não diz a árvore, ela diz não na centelha de sua cabeça soberba."

    A significação que se destaca deste verso é a de uma majestade personificada numa árvore. Ora, nenhuma parte da frase tem o privilégio de centrar apenas em si esta significação. Não é nem "árvore" e nem "centelha", por exemplo, que sustêm em si só a significação. De fato, ela se depreende, um pouco como por encantamento, de um arranjo judicioso de termos, que mantêm suspenso em sua vertical todo o contexto cultural e lingüístico de associação de significantes e de significados.

    Com efeito, se a associação de alguns destes termos dá à árvore uma majestade humana, é que "árvore", por associação, evoca o plátano e, por metáfora, evoca a força e a majestade. Assim também a palavra "cabeça" lembra os conceitos de autoridade e de reflexão, os quais, remetidos ao "não" inicial do verso, fazem da árvore uma pessoa.

    Portanto, a significação nasce progressivamente de um arranjo equilibrado e refletido dos termos que excluem outros inadequados e evoca certos outros comparáveis.

    Esse verso, prossegue J. Lacan, nos permite também tomar consciência do fato evidente de que a língua se utiliza bem de outra coisa para dizer aquilo que diz, se a tomarmos palavra por palavra. Um pouco à maneira do chiste, onde uma verdade se faz entender entre linhas, graças às possíveis acrobacias com as palavras. Estas, mercê do poder metafórico do homem, veiculam múltiplos sentidos e nós as utilizamos para significar bem outra coisa do que elas dizem concretamente. Assim a palavra braços, por exemplo, pode designar por metáfora os afluentes de um rio. Esta possibilidade que a língua tem de significar outra coisa do q diz determina sua autonomia em relação ao sentido.

    A metáfora é o principal agente desta autonomia relativa, mas outra figura de estilo, igualmente tão importante, exerce os mesmos efeitos. Trata-se da metonímia. Esta substitui um termo por outro na base de um laço de proximidade, de conexão de sentido entre dois termos. Assim, a expressão "eu bebo um copo" é uma metonímia e percebemos seu sentido correto independentemente da inexatidão dos significantes utilizados. É claro que eu não bebo um copo, mas seu conteúdo. Entretanto, a significação da fórmula é imediata, graças à conexão que une o copo a seu conteúdo.

    Poderíamos multiplicar infinitamente os exemplos destas figuras de estilo. Daremos apenas alguns exemplos com o fito de tomarmos consciência de sua freqüência na linguagem mais comum.

Trinta velas por trinta navios
(a parte pelo todo)
A cidade pelos habitantes a
(continente por conteúdo)
Ele vive de seu trabalho, por ele vive do fruto de seu trabalho
(a causa pelo efeito)

    De H. Wald (112) tomaremos alguns exemplos de metáforas. A palavra "boca", utilizada a propósito de caverna ou de rio, o termo anatômico "língua" para designar o veículo da palavra ou representado na expressão: língua de terra; o termo "coração", a propósito de floresta, da vida, do amor... O autor salienta, outrossim, que grande número de expressões, banais na aparência, são forjadas por metáfora. A expressão "no alto" vem do céu, "embaixo" vem da terra, "fenômeno" vem de visível e "essência" vem de invisível.

    Em nossos comentários sobre os métodos de análise lingüística, censurávamos aos lingüistas terem eles negligenciado o aspecto criador da língua e não usarem, em análise, senão de frases visando a simples comunicação. Sublinhávamos, falando de Noam Chomsky, o benefício para o progresso da ciência lingüística de um recurso às formas poéticas do discurso.

    É fácil ver que a insistente colocação de J. Lacan sobre os procedimentos de estilo mais do que sobre as leis que presidem à organização sintática da frase superficial lhe abriu mais rapidamente o acesso aos mecanismos do pensamento. As formações do inconsciente "sonhos, lapsos, chistes, sintomas..." estão repletas destes procedimentos de estilo. A análise psicanalítica, para descobrir seu sentido inconsciente, deve portanto - veja-se a insistência da barra resistente à significação proceder a uma verdadeira hermenêutica.

    A hermenêutica é a arte dos desvios, a arte de fazer aparecer os contextos subjacentes ao enunciado, à estrutura aparente das formações do inconsciente. É destes encadeamentos verticais inconscientes que a técnica analítica da "associação livre" tira todo o seu valor e sua razão de ser. A insistência lacaniana sobre a autonomia do significante, sobre a resistência da barra do algoritmo saussuriano, é, pois, bem influenciada por sua formação de analista. De uma maneira que achamos justificada, J. Lacan retira do ensinamento da lingüística aquilo que Ihe pode fornecer meios mais esclarecedores, concernentes aos fenômenos estritamente humanos que analisa.

    É assim que J. Lacan assimila os processos metafóricos e metonímicos da linguagem, respectivamente à condensação e ao deslocamento: estes dois mecanismos característicos do funcionamento do inconsciente em suas formações.

    As formações do inconsciente, na face em que se apresentam à consciência, são como a linguagem, incompreensíveis palavra por palavra. Elas são analisadas como rébus, com referência aos contextos subjacentes ao enunciado. Contextos que empregam metáforas e metonímias, ou seja, condensações e deslocamentos.
"O sintoma psicanalisável é sustentado por uma estrutura idêntica à estrutura da linguagem. Isto se refere ao fundamento desta estrutura, ou seja, à duplicidade que submete a leis distintas os dois registros que aí se consagram: o do significante e o do significado. A palavra registro designa aqui dois encadeamentos tomados na sua globalidade e a posição primeira de sua distinção, a priori suspendendo de exame toda eventualidade de fazer estes registros se equivalerem termo a termo" (J. Lacan, P. 444).

    Sublinhemos ainda uma vez que a linguagem consciente e mesmo a linguagem científica encobrem uma quantidade de metáforas e metonímias modeladas sobre a base de experiências da psicologia profunda, comuns a todos: as experiências sexuais são desta categoria e são elas muitas vezes que o humor coloca em jogo. As experiências artísticas igualmente fazem parte dessa categoria e a poesia se encarrega de relatá-las num simbolismo acessível a todos, mas pelo viés de desvios onde esta barra resistente à significação se faz sentir.

    O Dr. J. Lacan não teve que fazer um longo desvio para aplicar as descobertas da lingüística à psicanálise, foi-lhe suficiente "humanizá-la" um pouco. E podemos dizer com justiça que a doença atua com as palavras como o faz o poeta, mas com a peculiaridade de que as semelhanças, as aproximações ou as operações que opera entre os significantes são por vezes novas e estritamente privadas. Se já existem na língua, são ainda neste caso tintas de motivações psíquicas internas. Assim poderemos assemelhar uma mulher a um Citroën DS, porém o doente o fará em razão de uma experiência pessoal incomunicável e incompreensível a todos.

    Portanto, em Lacan as teorias lingüísticas são inevitavelmente contaminadas, enriquecidas pelo fato de seu contato com os recónditos da alma humana.
Na psicanálise, o algoritmo saussuriano, S/s, será compreendido mais na dimensão do símbolo, da metáfora inconsciente, que como signo restrito a seus confinantes racionais.

    Diremos simplesmente que J. Lacan abre para as teorias gerais da ciência da linguagem todas as perspectivas humanas que ela deve visualizar. E para fornecer um exemplo, indicamos sumariamente o modo de elaboração do sonho.

    O material latente do sonho determina quase que nos seus mínimos detalhes o conteúdo manifesto. Cada um destes detalhes não deriva de uma idéia latente isolada mas de várias, tiradas a um fundo comum.

    Ao lado destes fios divergentes que partem de cada detalhe do manifesto em direção a um fundo de pensamentos latentes, existem outros que, das idéias latentes, vão se divergindo em direção ao manifesto, de maneira que uma única idéia latente seja representada por muitos detalhes do manifesto. Finalmente, entre o manifesto e o latente forma-se uma rede complexa de fios entrecruzados.

    Aqui, da mesma maneira que no algoritmo saussuriano, a significação depende das articulações dos elementos da frase e das "atinências verticais" de cada termo elementar.

    Em termos analíticos, a significação do sonho se depreende de uma dialética entre o manifesto e o latente, cada estádio englobando os precedentes em uma síntese mais ampla.

    Uma mesma técnica de análise é aplicável a todas as formações do inconsciente. O analista aí chega graças às associações livres do analisando sobre cada elemento discreto do fenômeno aparente.

    Notemos, aliás, que esta mesma hermenêutica se aplica freqüentemente quando se trata de extrair a substância de um poema.
J. Lacan julga que as ligações existentes no seio destas redes de fios entrecruzados operam pelos processos metafóricos e metonímicos e à revelia do próprio sujeito.

    Notemos que o próprio artista freqüentemente tem a sensação de que outro age por ele em sua criação. A patologia, entretanto, acentua o caráter privado das associações em detrimento de sua universalidade, misturando aí "motivações" secretas.

    A interferência dos dados psicanalíticos nas interpretações lacanianas da lingüística tem, nós já o dissemos, outra conseqüência, que é fundamental lembrá-la. De maneira mais exaustiva, retornaremos a ela na seqüência quando serão colocadas as primeiras balizas da teoria global de J. Lacan.

    J. Lacan desenvolve abundantemente o que ele chama de "autonomia da cadeia significante em relação ao significado, deslizamento incessante da cadeia significante sobre o coleio do significado ".

    A noção de ponto de estofo criada para este fim não resolve -já o vimos - senão mui parcialmente o problema do engate terminal do significante ao significado e a ausência de qualquer traço de união definitivo concerne tanto às relações do real ao pensamento como aos laços do pensamento com o significante simbólico.

    Ora, o registro psicanalítico atesta estes fatos. Se, ao longo do trata- mento analítico, considerarmos os desvios do inconsciente no circuito do discurso consciente, encontramo-nos em presença de fenômenos paralelos àqueles que caracterizam o discurso consciente. Em psicanálise, o significante só é alcançado na saída do tratamento psicanalítico. Cada camada revelada do inconsciente, recolocada no circuito da consciência, da palavra, repousa num "mistério".

    Se remontarmos então ao longo do tempo analítico, de camada a camada, de cadeia a cadeia, encontraremos finalmente o texto originário do inconsciente. Este texto é um conjunto de artigos, sílabas opostas, imagens acústicas, letras elementares.

    Entretanto, assim como é impossível na linguagem consciente avessar o salto inicial que separa o real do pensamento, o real do símbolo, da mesma maneira, em psicanálise, fica excluído indicar com exatidão o laço que miticamente une o texto originário do inconsciente ao imaginário do sujeito.

    A fortiori, seria impensável operar "de verdade" a ligação entre o significante e a vivência corporal, fisiológica do sujeito.

    Notemos, por outro lado, que o sentido da barra separadora do algoritmo saussuriano que, para J. Lacan, atua em todos os níveis estruturais de ligação possível, desempenha ainda sua função, talvez a mais importante, na maneira de conceber o laço que une linguagem consciente a linguagem inconsciente, o sujeito do pensamento, do simbolismo social ao sujeito do discurso inconsciente. A separação aqui se revela em cada fase do tratamento analítico e permanece evidentemente aparente no movimento originário, onde os primeiros balbucios da linguagem da criança são clivados dos primeiros significantes elementares do inconsciente.

    Para melhor compreensão destes enunciados, reporte-se o leitor à quarta parte deste livro.

    Encontramos em E. Benveniste: Problèmes de linguistique générale (61) uma comparação crítica entre o simbolismo lingüístico e o psicanalítico. Empenhar-nos-emos no debate com este autor, numa tentativa de aprofundár.os pontos possíveis de aproximação.

    O simbolismo da linguagem, diz ele, é um simbolismo aprendido, coextensivo à aprendizagem do mundo; símbolo e sintaxe estão próximos da experiência das coisas.

    O simbolismo psicanalítico, em contrapartida, se caracteriza por sua universalidade: os símbolos que traduzem os desejos dos sonhos e os complexos das neuroses são comuns a todos os povos e, nesse sentido, não são aprendidos por quem os produz.

    Além disso, o simbolismo psicanalítico manifesta uma multiplicidade de significantes em relação à unidade do significado recalcado. Isto provém do fato de que o significado, sendo recalcado, não pode libertar-se senão sob a capa das imagens. E, ainda, significantes múltiplos estão unidos ao significado único pelos laços da motivação pessoal.

    Em conclusão, o autor dirá que o simbolismo inconsciente é ao mesmo tempo supra e infralingüístico.

    "Supra": porque utiliza signos muito condensados que na linguagem organizada corresponderiam a grandes unidades do discurso; porque entre estes signos existe uma dinâmica de intencionalidade, de motivação: o desejo recalcado que usa dos mais singulares desvios para se manifestar.

    É "infralingüístico", por outro lado, porque tem sua fonte numa região mais profunda do que aquela em que a educação instala a linguagem, porque recorre ao pessoal e ao cultural.

    Em razão dessas divergências, o autor adianta que seria mais razoável fazer a analogia entre a linguagem consciente e inconsciente recair antes sobre o estilo que sobre o próprio simbolismo. A retórica do inconsciente seria, com efeito, assimilável ao estilo da linguagem; ambas fazem uso de eufemismos, metáforas, elipses, alusões etc.

    A fim de encaminhar esta discussão sobre bases mais seguras que a de um pressuposto de conhecimentos da natureza exata do simbolismo lingüístico, recordemos brevemente a excelente classificação de signos de Peirce. Esse simples recurso já é suficiente para constatar quão restrita é a comparação do simbolismo proposta por E. Benveniste quando a limita a uma comparação arbitrária. Peirce distinguia três tendências nas relações que o significado pode manter com seu significante. Acrescentava que essas tendências podem se somar no interior de um mesmo signo.

    "O ícone", primeiramente, enquanto diagrama, reflete no significante as relações internas do significado; como imagem, reproduz no significante as qualidades de fato do significado.

    "O índice", segundo, infere a presença do significado por uma relação de conexão entre o significante e o significado.

    Enfim, "o símbolo" é mais uma regra imposta e aprendida, segundo a qual tal significante está ligado a tal significado. Um matiz, entretanto, permite assimilar os significantes aos símbolos que têm uma similitude metafórica com seu significado.

    É evidente que jamais haverá perfeita similitude entre o símbolo "neurótico" de um complexo ou de um desejo e o símbolo de um significado conceitual da linguagem clássica ou mesmo da linguagem poética. A incidência de uma "motivação demasiadamente pessoal", conseqüente da experiência humana universal, no limite da semelhança, representará sempre o ponto de clivagem entre os dois simbolismos.

    O primeiro nível do signo, descrito por Peirce, encontra-se freqüentemente em psicanálise, onde as imagens do sonho ou do fantasma, por exemplo, são a reprodução de imagens idênticas do inconsciente. Porém, são freqüentemente a manifestação das camadas mais superficiais do inconsciente as que se situam no limite do pré-consciente, e a "transposição" é aí muito fraca. Em geral essas imagens recobrem então outros significantes cuja relação com o significado é mais ambígua.

    A própria linguagem praticamente jamais funciona com simples imagens. As palavras onomatopéicas, onde o significante em sua substância fônica é quase a imagem auditiva do significado acompanhado de suas qualidades sonoras, dependem mais do símbolo que da imagem.

    O diagrama, ao contrário, é mais freqüente na língua e mesmo se encontra mais vezes em psicanálise.

    R. Jakobson cita como exemplo de diagrama na linguagem a ordem das proposições, refletindo a ordem de prioridade dos esquemas do pensamento. No manifesto dos sonhos, igualmente, o arranjo dos elementos não é de modo algum arbitrário e reflete o arranjo dos conteúdos inconscientes uns em relação com os outros.

    O índice em terceiro lugar é muito freqüente na linguagem poética e na linguagem cotidiana. O índice não é muito diferente da metonímia e J. Lacan dedicou-se a cotejar esta figura de estilo com o deslocamento, próprio das funções do inconsciente.

    Desde o sonho, passando pelo chiste e até o sintoma, todas as formações do inconsciente utilizam destes procedimentos para burlar a censura, embora todas marcadas por ela.

    Assim, a doente histérica de Freud, afligida por percepções olfativas recorrentes. Parecia-lhe ter outrora sentido um cheiro de queimado e o retorno destas sensações lhe pesava estranhamente. O cheiro de queimado foi identificado pela análise como o índice de um drama: um prato estragado, drama menor que substituía na lembrança a outro infinitamente mais doloroso, o de uma carta de ruptura que a paciente lia e relia na hora do desjejum.

    O cheiro de queimado, finalmente, é o índice de um drama amoroso ao qual se religa pela via metonímica.

    Certamente, o caso de deslocamento neste sintoma é mais que uma metonímia, se nos lembrarmos de que a metonímia opera freqüentemente pela substituição da causa pelo efeito. Aqui, a ligação do significante ao significado é motivada, como o demonstra Benveniste, determinada por .uma experiência pessoal. Em razão do caráter privado da experiência traumática vivida pela paciente, uma alusão pública a "certo cheiro de queimado" não seria acessível a pessoa alguma.

    É neste ponto de clivagem que o signo psicanalítico se afasta do signo lingüístico.

    Tomemos finalmente a categoria do "símbolo" propriamente dito.

    O símbolo na linguagem é ou um significante cuja natureza e caracteres não têm relação com o significado - neste caso é convencional e aprendido - ou é um significante cuja natureza é diferente da natureza do significado, então seus caracteres oferecem alguma semelhança: é o caso das metáforas.

    Nas línguas, a maior parte das palavras têm com o seu significado apenas uma relação convencional. A palavra "pereira" designa a árvore portadora deste fruto apenas porque o hábito assim decidiu. Da mesma maneira, não há outra razão senão aquela de um acordo fundado na necessidade de comunicar, para significar em alemão o ato de copular por vögeln.

    Em contrapartida, a linguagem deve seu movimento, sua poesia, tanto à criatividade pessoal do locutor e ao fato de que a experiência humana é em grande parte universal quanto às convenções dos acadêmicos. A estrela de cinema deve seu cognome a uma operação metafórica do pensamento, que transpõe as significações "cintilação", "brilho", do termo estrela à atriz de talento, em virtude de uma comparação subentendida entre os significados. O mesmo se dá com o símbolo da justiça: a balança. Mas nesses casos, como praticamente em todos, a linguagem apenas ratifica as obras do espírito humano em perpétua criação. E, aliás. cada indivíduo tem sua própria linguagem, suas expressões originais e inova sem cessar no campo da metáfora.

    A psicanálise, a nosso ver, encontra tanto uma como outra forma de símbolos precitada.

    A primeira forma de símbolo, entretanto, aquela em que a ligação do termo com seu significado é totalmente arbitrária, jamais se encontra em psicanálise desprovida do caráter subjacente de motivação pessoal.

    O inconsciente pode servir-se de frases ou palavras da linguagem comum, mas seu sentido será sempre desdobrado. Em psicanálise não há uso simples e natural da língua. Pelo contrário, o inconsciente faz uso do duplo sentido freqüente das palavras, do jogo associativo dos sons e dos radicais. Mas, neste casos, caímos na segunda categoria de símbolos.

    No sonho, a nudez significa a vergonha moral; a escada, a tarefa árdua e o esforço; perder o trem, fracasso ou o desejo de ficar no lugar. Esses símbolos de conteúdo psicológico entraram na tradição e todo o indivíduo pode aprendê-los.

    Outros símbolos na linguagem denotam o empréstimo direto da cultura nacional ou da experiência universal. A cruz é o símbolo do sacrifício, do sofrimento; vomitar qualquer coisa ou qualquer um é uma metáfora de não poder tolerar; ter um pé no túmulo significa a morte; descer aos infernos significa viver um pesadelo etc.

    É inútil sublinhar o quanto estes símbolos são encontradiços na psicanálise. As formações do inconsciente, principalmente o sonho e os chistes, estão repletas deles.

    Essas referências culturais entram na linguagem comum e aí se instalam a título de significantes como os outros. O dicionário leva sempre em conta o uso figurado dos termos. Isto é uma prova de sua pertinência à linguagem.

    Nestes casos de simbolismo psicanalítico como naqueles que tratamos acima, a única particularidade digna de ser sublinhada, no final das contas, é a incidência de uma motivação pessoal suplementar no uso do símbolo. O ser humano enriquece seu vocabulário de notas psicológicas pessoais, o doente faz o mesmo, mas primeiro o ignora e, depois, suas criações são por vezes indevidas, tendo em vista as distorções que imprime em sua experiência humana.

    O caso dos lapsos é típico. É uma palavra incongruente que surge subitamente a despeito do contexto global da frase que a rejeita, é uma palavra evocada em vão que se recusa de apresentar na memória, é outra que é deformada. Tantas falhas do discurso consciente que, sem uma análise profunda, permanecem incompreensíveis para todos e para seu autor.

    O doente perde a referência significada do símbolo, certos curtos-circuitos operam em seu discurso sem que lhe seja possível explicar a razão.

    Eis por que J. Lacan insistiu sempre sobre a barra resistente à significação no algoritmo saussuriano. Na língua, ela simboliza o desvio do espírito na busca do sentido; na psicanálise simboliza o recalque do significado, inacessível sem a ajuda dos procedimentos psicanalíticos, assim como o caráter privado do laço significante significado.

    Concluindo, só podemos reter das críticas de E. Benveniste aquelas que primeiramente sublinham o caráter de intencionalidade, de motivação do simbolismo psicanalítico, e aquelas em que sublinha sua fonte numa região mais profunda que aquela onde a educação instala a linguagem. É necessário ainda precisar que a educação e as experiências psicológicas instalam, ambas, a linguagem.

    Nossa linguagem é tecida por expressões tiradas das experiências físicas, psíquicas ou outras que pertencem à "condição humana".

    O ensinamento da lingüística revela-se fecundo na prática e na teoria psicanalítica. Consideramos estes empréstimos justificados e bem conduzidos. Certamente J. Lacan não dá provas de um purismo total mas, nós o dissemos no início do capítulo, uma ciência não é outra e integrar perfeitamente a lingüística na psicanálise não é mais realizável que desejável.

    J. Lacan não criou uma psicanálise nova peça por peça, ou seja, uma psicanálise lingüística. Ele usou de uma terminologia enriquecedora. É através desta terminologia que reencontramos a própria essência do freudismo.

    A teoria lacaniana se baseia, por outro lado, sobre uma filosofia da ontogênese humana, derivada diretamente dos conhecimentos atuais em matéria de linguagem.

    Tentaremos colocar as primeiras balizas desta teoria num capítulo mais filosófico, que nos ajudará a compreender as noções-chave do lacanismo expostas nos capítulos ulteriores.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

LEMAIRE, Anika. Jacques Lacan: uma intodução. Editora Campus-RJ, 1979.

 

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