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O que é o Nome-do-Pai

AUTOR: Charles Melman
LIVRO: Estrutura lacaniana das psicoses

     O que é o Nome-do-Pai? E extremamente simples. O Nome-do-Pai remete ao fato de que, para que um homem e uma mulher possam se encontrar, e descobrir alguns interesses recíprocos, eventualmente se desejar, até mesmo copular e engendrar, é necessário que haja nisso um mistério assim como um espírito, ou ainda, uma certa forma de encantamento, isso que a religião interpreta, por outro lado, como vontade inscrita no Outro; na falta dessa centelha, o corpo permanece um real de carne mais ou menos repugnante, e, na falta dessa centelha, não se esclarece a imago que o torna desejável. Pois bem, o Nome-do-Pai é, falando o mais simplesmente, o mais ingenuamente possível, isso que remete a esse fato, a essa intervenção terceira e necessária a que o dito encontro, mesmo que falho, possa acontecer. É por isso que podemos dizer que um casal constitui sempre um ménage-à-trois, ou seja, que é preciso contar nele sempre um a mais; e o que a psicanálise traz como contribuição essencial é que essa inspiração, esse maná, emana não mais de algum espírito, mas de um lugar; e aqui, é com o lugar da topologia que estamos implicados, com o fato de que esse lugar se acha instaurado, instalado pelo recalcamento originário Urverdrangung.
     Por que o significante "Pai" é que vem a representar esse lugar? Isso decorre do efeito de um mito historicamente datável, mito esse que é sempre celebrado na medida em que continuamos a vivê-lo {não se trata somente dos rituais que se celebra, mas do fato de que estamos imersos nele), a saber, o da religião monoteísta.
     Como teriam sido as coisas antes dela? Como sabemos, havia deuses, cultos mais ou menos esotéricos, divindades que podiam ser divindades-mães, divindades maternas. Pois bem, o que a religião hebraica vem inaugurar? Ela vem inaugurar o seguinte: antes de mais nada, uma relação de amor, de adoração do Um; é exatamente nisso que ela se distingue das outras. De adoração do Um, melhor dizendo, do "Ao-menos-um", ou seja, aquele capaz de tudo tramar, e escapar à castração. Como dizia Lacan, "há o Um", e na religião encontramos esse amor do Um nessa especificidade absolutamente singular que dirá respeito, por exemplo, ao isolamento da letra enquanto unidade e à celebração da letra; esse amor irá até o da adoração da Unidade literal; desenvolver-se-á mesmo toda uma hermenêutica a partir dessa unidade, desse Um literal. Dito de outra forma, o que vemos com a instalação da religião é o que poder-se-ia chamar de a invenção da transferência: há um sujeito suposto saber o que é preciso e o que rege o mundo, e afinal, estamos todos envolvidos nisso; basta testemunhar ou recordar-se de como, enfim, todos nós somos espontaneamente religiosos.
     Levantemos agora a seguinte questão: seria um grego analisável? A gente poderia se divertir respondendo a isso: um sofista ou um cínico certamente que não; por outro lado, com eles, não se vê como a análise teria podido funcionar... Mas um platônico, até mesmo um estóico, creio que não há dúvida, creio que teriam sido absolutamente bons analisantes. Para o aristotélico, a questão está em aberto, mas poder-se-ia imaginar que um gosto pela perversão, bem, talvez pudesse ter provocado o interesse pela psicanálise...
     Com referência ao que havia, então, o que o monoteísmo, a adoração do Pai vem mudar? É evidente que os gregos achavam tudo isso uma absoluta barbárie, algo de muito estranho. O que podemos afirmar de imediato é que a mudança que o monoteísmo traz, esse amor do Pai, não tem nenhuma importância. E mesmo que fosse historicamente valioso, não sabemos nada de nada sobre isso.
     O que podemos dizer é que, em todo caso, para nós, esse amor do Pai vem a corrigir o malogro da relação sexual pelo triunfo do rapport com o "eu'; porque o amor, como o sabemos pelo que nos foi ensinado e por experiência própria, não é um rapport de mim a você, mas um rapport de "eu" a "eu"( "C'est un rapport de moi a moi" no original, traduzido por "Trata-se de um "rapport" de "eu" a "eu", e que caracteriza a relação narcísica. Poderíamos ainda traduzir, talvez mais adequadamente, por "Trata-se de um 'rapport' de 'eu' a mim", considerando-se que na língua portuguesa, em termos gramaticais, a forma pronominal eu é usada na construção da frase no lugar da pessoa que fala, ficando a forma oblíqua mim reservada ao lugar de complemento, de objeto do verbo, o que sem dúvida nos parece corresponder ao fenômeno psíquico apontado pelo autor.), e que não é bem-sucedido.
     Ou seja, tal rapport começa a tornar-se insuportável quando a identidade assim visada torna-se perfeita; nesse momento, em geral, há chances de o rapport de eu a mim tornar-se o mais mortífero, a ponto de, por não fazer senão Um - e é exatamente aí que encontramos o Um implicado na clínica - realizar uma fusão que seria bem-sucedida; essa famosa fusão a que nos referimos dessa forma, evidentemente só pode ser obtida pelo Imaginário. Esse rapport de eu a mim que nos propõe o amor é exatamente o que o erotômano leva a cabo, e o amor é sempre mais ou menos erotômano. Está-se seguro dos sentimentos do outro, pois o outro é o "eu", então, não há razão para preocupar-se, nem em duvidar; a reciprocidade parece de algum modo inscrita - de onde esse trabalho inaugural de Lacan, sua tese sobre a paranóia de autopunição: quando inevitavelmente esse amor se descobre enganado, que se fira o outro para se atingir a si mesmo. E há, sem dúvida, tal fato clínico - um ou uma erotômana não se sub-trai jamais à justiça - não são pessoas que se ocultam uma vez dado o golpe, não são pessoas que dissimulam.
     Antes da religião, e para voltarmos justamente aos gregos, temos textos que falam de amor. Como sabemos, são quase sempre textos que falam do amor de meninos, da flor antes do fruto, o que é muito estranho numa civilização que se preocupava com a plena realização do ser. Quero dizer, o que existia a suportar o amor era a suspeita de ser... Bem! É assim que as coisas são, mas em todo caso fica claro que, nos textos de que dispomos, o amor não cria um caso em torno disso. Pelo contrário, há numerosos textos que trazem zombarias sobre as desventuras, não O mesmo, de algum velho já meio passado apaixonado por um jovem que o desprezasse, que 1he desse o fora; pois bem, isso só seria motivo de chacota.
     Os belos textos que nos restaram sobre o amor são, como que por acaso, os textos sáficos, ou seja, aqueles sobre a homossexualidade feminina, e onde há inflexões, eu diria a um contemporâneo, que poderiam parecer absolutamente modernas. Podemos pensar que esses textos sáficos tratam precisamente de um rapport de "eu" a "eu", e isso é, sem dúvida, o que permite a Lacan afirmar que os sentimentos são sempre recíprocos. Do mesmo modo na religião, por amar assim o Pai, supõe-se que eu me veja garantido com relação a Seu amor por Sua criatura, Seu semelhante; e é sem dúvida porque são sobretudo as moças que se interessam tanto pelo amor do pai, na medida em que elas tem problemas identificatórios em sua relação com ele.
     Assim, Freud fica embaraçado por essa espécie de comunicação existente entre o amor objetal e o amor narcísico, considerando que um se exerce às expensas do outro, e dizendo-nos, por exemplo, que a doença começa quando o amor é retirado dos objetos e reflui sobre o "eu'; o que clinicamente, aliás, não me parece absolutamente demonstrado.
     Todos nós conhecemos personalidades, como diríamos, narcísicas, muito narcísicas, que jamais chegaram a apreciar senão a si mesmas, às vezes, com justa razão, quando são absolutamente encantadoras; e elas absolutamente não se portam mal, Em todo caso, o próprio Lacan nos diz que amor objetal e amor narcísico são uma e a mesma coisa. Ocorre o mesmo quando se ama o objeto, esse não passa jamais de suporte de uma representação ideal de si; é assim que o amor do Um que se origina do outro indo em direção ao semelhante - quer dizer, afinal, a si mesmo - é defesa contra o desejo de que ele não se sustente senão a partir do Outro. Melhor dizendo, o amor é, de forma bastante explícita, defesa contra a castração - ele é muito precisamente o meio de se amar a si mesmo, lá onde a falta de objeto faz vacilar a certeza eóica.
     Essa é uma bela maneira de se reaprumar e safar-se desse enrosco, já que, no momento em que o objeto se revela quanto à sua falta, em termos de vir a satisfazer uma hipotética relação sexual, é que o amor permite de certa forma uma reparação mútua, no momento em que a revelação dessa falta no objeto vier fazer vacilar a certeza eóica. Observe-se como a economia do amor seria então sustentada e entretida como meio de proteção, de defesa.
     Uma vez que meu ponto de partida foi a religião, poderíamos reto-mar aqui essa formulação lacaniana que diz que os católicos são inanalisáveis, pois, justamente, na falta de rapport sexual - a que poderíamos bem chamar dessa imperfeição divina - eles respondem pelo amor; dito de outra forma, por uma transferência institucionalizada. A religião é a institucionalização da transferência. Pode-se imaginar que isso a que chamamos assim tão bravamente ou tão ingenuamente de resolução da transferência, liquidação da transferência, etc - como se se tratasse de coisa fácil, e observe-se bem como numa situação desse tipo a dita resolução pode parecer fora de normas, e-norma - ocorrerá na religião de forma contrária, já que o amor do Pai é igual-mente o amor da castração, pois afinal é daí que procede o Espírito.
     Há pouco, eu evocava a questão de que um casal é sempre um ménage-à-trois; não é absolutamente obsceno o que eu dizia, uma vez que esse terceiro é, de modo imediato, uma figura que conhecemos bem, ou seja, a criança. O primeiro terceiro é ela e, a propósito, Lacan diz que para chegar ao Um é preciso passar pelo três. Esse terceiro vai ser mesmo de tal modo marcado pelo fato de inaugurar a dimensão unária, a dimensão do Um, que não é raro que essa criança torne-se igualmente o primeiro na economia doméstica. A menor das coisas seria, por exemplo, que nos lembremos de que ela está em casa, o que é habitualmente a causa da censura - é por causa dela que os pais se censuram. E é exatamente porque o quarto de dormir é para a criança sempre um lugar bizarro, um lugar interessante. Aí é o lugar onde - ela se diz - passam-se coisas que não correspondem em nada ao que se diz nos outros lugares da casa, certo? É aí que a criança entra, se posso dizer, como agente da censura, e uma censura que ela comanda não através de qualquer imperativo, mas justamente pelo amor que devotam a ela.
     Aliás, é muito comum que haja textos em que Deus é tratado como criança. Permitir-me-ei lembrar, a esse propósito, que Lacan, com relação a esse terceiro presente no casal, a essa criança até mesmo virtual, a avaliava como uma presença essencial; e, como já tive ocasião de comentar, ele se insurgiu bastante contra os meios anticoncepcionais: quando foi publicada a Encíclica "HUMANAE VITAE", ele a achou muito boa, interessando-se muito por ela; e como a tradução francesa 1he parecesse suspeita, ele queria a qualquer custo o original em latim... Bem, de qualquer modo, ele considerava que os meios anticoncepcionais eram uma operação contra o espírito, assim como contra o desejo...
     Com relação a quem quer que seja, a religião tem um preço inesperado. Aliás, é digno de nota que, diante da emergência da religião, não tenhamos nenhum texto que mencione sintomas que evocassem uma neurose obsessiva, não obstante as pessoas serem observadores perspicazes; não é mencionado em nenhum lugar alguém que tivesse tido a mania de ir verificar se sua porta estava bem fechada, enfim, esse tipo de coisa. Não temos nenhum registro com relação a isso; ou seja, diante da constituição dessa religião em torno do Pai, melhor dizendo, do Pai morto, não temos nenhum traço de existência ou de expressão da neurose obsessiva.
     Digo "o Pai morto", e é claro que isso funcionava muito bem - mas, por que o Pai morto? Porque o verdadeiro Pai é o Pai morto; todavia, deixarei isso em suspenso por ora. Mas por que a religião tem esse preço? Novamente, por uma razão bastante simples: porque, afinal, isso ocorre de forma relativa. É porque, graças à religião, o famoso Urverdrangt, o originário recalcado, cessa de ser perfeitamente re-calcado. Quero dizer que o que estava destinado a permanecer como totalmente recalcado para sustentar sem ruído próprio a significância da cadeia, acha-se agora permanentemente celebrado. O morto encontra-se assim bizarramente reanimado, e a cesura que privilegiava seu lugar como Outro encontra-se suspensa.Ao mesmo tempo - oh paradoxo! - sua glória acha-se profanada; é esse o paradoxo da religião. A neurose obsessiva é então regrada por esse recalcamento originário que não chega mais a realizar-se perfeitamente; e acha-se ligado a es-se morto, que ver-se-á então exumado.
     Há essa formulação, permitam-me a irreverência, de Wittgenstein; que acho absolutamente falsa: "o que não pode ser dito, é preciso que o calemos". É uma formulação falsa, porque o que não pode ser dito, não cessamos de denunciá-lo, Então, se a religião contém o que estou resituando a propósito da questão do Nome-do-Pai; quer dizer, esse re-calcamento que, graças a ela, ou à sua falta, não pode mais ser perfeitamente realizado, o que ocorrerá?
     Ocorrerá um certo número de conseqüências clínicas às quais espero poder sensibilizá-los. Inicialmente, pelo próprio fato da suspensão dessa cesura e da colocação em continuidade desse significante recalcado na cadeia, ocorrerá a contaminação da cadeia por uma mácula; e uma mácula que nenhuma lavagem, como sabemos, poderia apagar.
     Mas surgirá também a dúvida referente à realização de toda e qualquer ação, na medida em que o ato primordial permanece inacabado. Porque o ato primordial, ou seja, o recalcamento originário - que deveríamos considerar mesmo como um ato, como o ato primeiro - encontra-se marcado por uma falta referente ao fato do retorno desse re-calcado, a operação não seria dada por terminada. Pois bem, essa dúvida irá estar relacionada com todas as ações empreendidas - e do modo o mais imajado - com todas as ações que comportam justamente o que se referiria a um fechamento garantido, definitivo, sempre com a preocupação quanto à pequena gota que continua, não é, a brotar da torneira; ou quem sabe com a porta, que talvez não se encontre absolutamente fechada; enfim, eis aqui a representação grosseira dessa vedação que permanece de algum modo incompleta e insatisfatória.
     Podemos, a partir desse elemento, avançar ainda mais e desenvolver essa clínica da obsessão, evocando, por exemplo, a certeza de uma morte cometida por inadvertência, e essa espécie de impulso em dever refazer seus passos para procurar o cadáver. É uma dessas coisas soberbas, se assim ouso me exprimir, pois testemunha de tal modo com relação a uma submissão aos efeitos, à mecânica do significante... Refiro-me a esse sentimento de que se pôde deixar atrás de si, cometer sem dar-se conta, ao volante, por exemplo, atropelar alguém; então, é preciso deter-se, voltar para trás, perguntar-se: onde está? e jamais, evidentemente, espantar-se por não encontrá-lo.
     Na medida em que essa cesura que funda a dimensão do Outro encontra-se abolida, surge também essa necessidade de restabelecer artificialmente uma distância com o objeto: essa distância, a partir de então, será necessariamente geométrica, de onde, nesse tipo de neurose, esse temor de tudo que é contato, essa preocupação em manter distância. Nesse processo, sabemos qual privilégio estará ligado à metonímia, na medida em que, agora, o objeto está na cadeia; daí o cuidado, a preocupação em não se deixar arrastar por alguns impulsos, impulsos ditos fóbicos na neurose obsessiva. Na verdade, eles não são absolutamente fóbicos, são impulsos de um tipo muito compreensível, se se dá conta de que o objeto não está protegido por qualquer corte, por qualquer cesura que o coloque num lugar Outro. É evidente que há sempre esse risco de ver-se arrebatado nisso que seria uma finalidade, e que por ter que reunir-se a Ele, isso seja vivido como um risco de morte.
     Há também na neurose obsessiva a organização subjetiva ao re-dor de um luto mantido permanentemente, pois essa morte não cessa de se lembrar à memória. Esse luto que não cessa de se prolongar, com tudo o que ele implica enquanto trabalho de luto, também não chega jamais a ser concluído.
     O ritual obsessivo é evidentemente a tentativa de valorizar uma mortificação do sujeito, pois trata-se de um ritual. Num ritual, enquanto sujeito, você desaparece, um ritual não demanda a opinião do sujeito. Quando se executa um ritual, seja lá qual for a religião em questão, ou a religião privada do obsessivo, o alívio trazido por ele jaz em que, enquanto sujeito, não se tem nada a dizer e nada a fazer. Está-se colocado entre parênteses, contenta-se em se executar um certo número de gestos e dizer um certo número de frases prescritas. O ritual é justamente uma tentativa de valorizar uma mortificação do sujeito suposto de alguma forma reparadora ou oferecida em oferenda à mortificação operada sobre o Pai.
     Além disso, podemos observar uma parasitagem do pensamento por idéias emanadas desse objeto abusivamente presente no Grande Outro, e que tem na neurose obsessiva esse aspecto notável, que consiste em que, apesar de seu caráter xenopático e imposto, o sujeito não as toma jamais por alucinações. Tais idéias tem todavia esse caráter, e, entretanto, não virá jamais ao espírito de um obsessivo, e com razão, por em dúvida os pensamentos que lhe são impostos, embora possam ser bizarros, arbitrários, loucos, incríveis, etc; jamais ele os considerará como alucinações.
     Os obsessivos reconhecem tais pensamentos sempre como seus, como pertencentes a eles, pois é do objeto mais próprio ao sujeito - melhor dizendo, seu objeto a - que eles emanam. E é na medida em que estes advém justamente do núcleo de seu ser, o qual acaba por ver-se abusivamente exumado, que podemos sustentar que o sujeito não considerará tais manifestações como sendo-lhes inflingidas por algum eventual personagem manipulando a situação.
     A propósito, encontramos certas características marcantes nessas idéias: primeiramente, há o fato de que o sujeito não pode se defender delas: elas se impõem, pois vêm no Outro; não há escolha, é nele que elas vem se inscrever - ele não está aí por nada - eis o que parece absurdo. Por outro lado, são grosseiras e inconvenientes no excesso mais extremo - não existe nada mais extremo que os pensamentos que podem ocorrer nesse instante. Pois bem, que elas tenham esse caráter nos informa precisamente sobre a natureza do objeto de onde emanam, da natureza do objeto que as fomenta, ou seja, precisamente esse objeto a.
     Na neurose obsessiva, a exumação na cadeia do significante interdito virá então suprimir o limite, a cesura. Relembro a vocês aliás que na clínica do obsessivo há uma fascinação por tudo que é limite e corte; os garotos que brincam nas calçadas, toda brincadeira que ocorre, digamos assim, relacionadas com tudo que limita... Mas enfim, passemos por cima disso. O que nos interessa é que, se essa exumação na cadeia do significante interdito vem suprimir o limite e a cesura, a partir daí essa exumação restitui ao Grande Outro sua dimensão não-finita e aberta; ela 1he restitui uma organização que poderíamos chamar de feminina.
     Ou seja, bizarramente partido do culto do Pai, o obsessivo encontra-se com um Grande Outro cujas características topológicas são as de uma organização feminina. Como sabemos, portanto, uma figura surgirá em sua economia, uma figura essencial, que é a da Dama com um D maiúsculo. Ela será para ele a representante, dessa vez purificada, do falo, na medida em que o obsessivo tem por tarefa preservá-la de toda mácula, ou melhor, de todo contato; mas que será evidente-mente um suporte maravilhoso do amor para ele.
     Se se leva em conta o que eu assinalei há pouco sobre o caráter eóico do amor - quero me referir a essa espécie de reciprocidade imaginária sobre a qual ele se funda - pode-se conceber o que seria esse bizarro caráter ligeiramente feminizante da neurose obsessiva, ao nível da aparência. Se o amor é assim reservado à Dama, então o desejo sexual obviamente não poderá se realizar senão com uma criatura que não tenha nenhum rapport de comunidade com a dita Dama, que não pertença ao mesmo conjunto.
     O desejo sexual só poderia realizar-se então com a representante desse objeto desprezível; ou seja, com alguém que estivesse em postura de ser porca para representar a porcaria; e é porque a perversão, que nos surpreende no caso da neurose obsessiva, é contudo possível, malgrados as defesas. Justamente ela é possível, mas tem essa particularidade: ela é muito facilmente anulável, em geral; e não se presta em geral a maiores conseqüências, pois, afinal, o que não se pode anular...
     Por que a anulação é um dos mecanismos mais freqüentes na neurose obsessiva? Porque o que não se pode anular é aquilo que, de certo modo, se apóia sobre um ato; se houve ato, não se pode mais anular o que resulta do mesmo. Todavia, se o conjunto da cadeia está construído sobre um ato que parece revelar-se interminado, então sempre poder-se-á dizer: "isso não ocorreu"; e é evidente que essa faculdade contribui para com a possibilidade da dúvida na neurose obsessiva - será que isso teve lugar? será que verdadeiramente ocorreu?
     Essa é exatamente a questão, e creio que a frase é excelente, pois é à topologia, referência imediata, grosseira e bem sensível que me refiro: será que teve lugar, será que há lugar, será que tal lugar se sustenta a partir do momento em que me engajo numa tal celebração?
     O interessante é que, em certos casos, malgrado o caráter invasor das idéias obsessivas, melhor dizendo, seu aspecto incapacitante, não podemos absolutamente nos referir à psicose, e por uma razão que aparece aqui de imediato: porque o Nome-do-Pai na neurose obsessiva está perfeitamente simbolizado - e até mesmo excessivamente . Trata-se, se assim ouso me exprimir, de um excesso do qual ele sofre, a ponto de tornar-se um pouco real demais. Em todo caso, a partir do momento em que uma neurose obsessiva é construída como efeito, como conseqüência de um recalcamento originário que, pelas razões que tentei alinhar, encontra-se maltratado, então já não é mais possível falar-se de psicose. Mesmo que, por vezes, a facilidade se preste a isso.
     Sem dúvida que em nossos dias alguém como o Homem dos Lobos seria imediatamente rotulado, sem maiores problemas, como psicótico. Ah, dir-se-á, sim, ele teve, como sabemos, um episódio, etc... Será que esse episódio estava incluído nas premissas, ou teria sido um dos avatares de sua cura? Bem, eis aí uma questão. Mas, poderíamos prosseguir, e o episódio, esse episódio alucinatório do dedo cortado, será que não teria ocorrido? - essa é, aliás, se não me engano, a análise que Lacan fez disso, ou seja, de que haveria um núcleo psicótico, como se exprime ele de modo ainda bastante metafórico. Mas, deixemos de lado o Homem dos Lobos; creio que o Homem dos Ratos em nossos dias, considerando-se todas as compulsões que tinha, seria facilmente considerado como psicótico; e, como sabemos, foi Freud que, em clínica, introduziu a sintomatologia e especificação da, neurose obsessiva.
     Qualquer que seja ela, entretanto, o jogo das metáforas só é possível por ter havido esse recalcamento primordial; ou seja, cada significante metafórico, cada metáfora, fala de quê? Ela fala Dele. É Ele o referente, graças a Ele há metáfora; e assim, qualquer que seja a metáfora da qual possamos nos utilizar, é infalivelmente Ele que esta não cessa de celebrar.
     Com respeito a algo que ouvi recentemente sobre a questão de saber a quem se endereça o poeta, poderíamos dizer, seguindo esse raciocínio: aquele a quem se endereça o poeta é, sem dúvida, exatamente aquele de quem ele recebe sua própria mensagem, ou seja, o Pai morto, Aquele graças a quem a metáfora é possível. A partir do fato de que metáforas são possíveis graças a esse recalcamento originário, podemos ir um pouco mais adiante, dizendo que, a partir daí, todas as metáforas de certa forma são Nomes-do-Pai, se o que exponho é exato.
     Há pouco, evoquei o fato de que a criança, o significante criança, era certamente um dos Nomes-do-Pai, mas, na verdade, ele pode ser não-importa-quê. Se digo "Mas que diabo!" ("Nom d'une pipe" no original. Esconjuro familiar que traduzimos por um equivalente em português. (N. da T.)), está claro que isso deve ser ouvido de outra forma. Aliás, não apenas é um modo de esconjuro para não nomear o nome de Deus, isso todo mundo sabe, mas se digo "Mas que diabo!", todo mundo entende bem a que lugar me refiro, que lugar evoco nesse momento, em que lugar esse "Mas que diabo!" se apóia. Assim, Lacan, no final de seu percurso, nos dizia que Real, Simbólico e Imaginário eram os Nomes-do-Pai.
     Para concluir, enfatizarei que esta é uma subversão absolutamente essencial, porque os nomes aos quais nos referimos são os efeitos de uma nominação que atribuímos ao Pai, o Pai é o nomeante, o que faz com que nos movamos num mundo absolutamente balizado. Quero dizer que, quando encontramos um pássaro cujo nome genérico não sabemos, pois já não se aprende mais esse tipo de coisa, nós o batizamos, nos o chamamos de pássaro-qualquer-coisa; ele não pertence a nenhuma espécie mas sabemos que tem um nome, que é nomeado, que não é uma besta inquietante. Suponhamos por outro lado que vocês encontrem algum animal que não consigam nomear pelo fato não conseguirem aproximá-lo de qualquer outro já existente: é nesse momento preciso que começará a angústia; caso contrário, estaremos tranqüilos, pois tudo está nomeado pelo Pai.
     Na medida em que Real, Simbólico e Imaginário são os Nomes-do-Pai, uma subversão aqui se opera; pois, a partir de então, o Nome-do-Pai torna-se um efeito de seu próprio exercício com relação ao Real, Simbólico e Imaginário.
     Não se vá todavia dizer que são eles que o nomeiam, pois não possuem o dom da palavra, contrariamente ao que se supõe, à voz que se 1hes atribui. Não se vá atribuir voz ao Real, Simbólico e Imaginário; não podemos fazer deles sujeitos, felizmente. Entretanto, podemos conceber como o significante paterno é um efeito produzido por esses nomes, Real, Simbólico e Imaginário, que justamente nos permitem ressituar a função. Afinal de contas, nós nos endereçamos em alguma súplica ao próprio Pai, mas Ele não terá nada a dizer quanto a isso; Ele se contenta em nos prescrever o que temos a fazer: o dever de gozo, que nos é recomendado; quanto ao resto, nós que nos viremos.
     Assim, encerro, reafirmando o caráter essencial da subversão que opera com essa possibilidade concernente ao Real, ao Simbólico e ao Imaginário, segundo a qual eles, por darem seu nome ao Pai, permitem situar aí a função, nos infligindo então a questão de saber, igualmente, se sim ou não, se é possível se abster.


MELMAN, Charles. Estrutura lacaniana das psicoses. Ed. Porto Alegre-RS: Artes Médicas, 1991.

 

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