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O Gozo, a Lei e as Versões do Pai
Psicanálise e Direito

AUTOR: Antônio Quinet


    Psicanálise e direito têm como denominador comum a questão da relação entre lei e gozo.
    O conceito de gozo, como proposto por Lacan, engloba a satisfação pulsional e seu paradoxo de prazer no desprazer, implicando a ausência de barreira entre o princípio do prazer e seu para-além. Há, entre os dois, um continuum, isto é, não existe entre eles solução de continuidade. Se existissem apenas pulsões sexuais, não haveria paradoxo. Há paradoxo porque a pulsão de morte aí se mistura e exige satisfação. A pulsão de morte está de tal forma intricada com as demais pulsões que Freud, em “Para-além do princípio do prazer”, chega a afirmar que o “princípio do prazer parece, na realidade, servir às pulsões de morte”.
    Pulsão de vida (Eros) e pulsão de morte (ou de destruição), eis o que Freud considera o verdadeiro dualismo pulsional, cujo “núcleo de verdade” revela ter encontrado nos dois princípios fundamentais de Empédocles: filia e neikos (amor e discórdia). Ao barulho de Eros, em que pulula a vida, opõe-se o silêncio da pulsão de morte, que age, como a pulsão sexual, de forma constante. A pulsão de morte impulsiona o homem em direção ao inanimado ou, como diz Lacan, “é o que faz com que o homem falhe diante do imperativo da vida”. Ela leva o sujeito à sua própria destruição, ao caminho da busca do gozo pulsional. “O gozo é o tonel das Danaides, e que uma vez que ali se entra não se sabe onde isso vai dar. Começa com as cócegas, e termina com a labareda de gasolina”.[1]
    Embora afirme em “O mal-estar na civilização” que a inclinação agressiva é uma disposição autônoma, originária do ser humano, Freud não cessa de insistir, em toda a sua obra, que as pulsões sexuais e a pulsão de morte permanecem intrincadas, como ilustram o sadismo e o masoquismo. “Nenhuma dessas duas pulsões é menos essencial que a outra; os fenômenos da vida surgem da ação confluente ou mutuamente contrária de ambas. Ora, é como se uma pulsão de um tipo dificilmente pudesse operar isolada; está sempre acompanhada – ou, como dizemos, amalgamada – por determinada quantidade do outro lado, que modifica seu objetivo ou, em determinados casos, possibilita a consecução desse objetivo.”[2]
    Onde os homens buscam satisfazer suas pulsões? No outro, em seu próximo, em seu semelhante tomado como um objeto que certamente é sexual, mas não só: “o seu próximo é, para eles, não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém em quem tentam satisfazer a agressividade, explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo”.[3]
    O homem, portanto, faz do outro um objeto, visando assim a saciar o gozo, a despeito da lei. Para realizar a pulsão, o sujeito pode ir ao encontro não só da destruição do outro, como também de seu próprio aniquilamento. O trabalho da pulsão de morte se efetua no sujeito sob o comando do supereu, que o constrange a transgredir suas próprias interdições e lhe exige o impossível de um gozo pulsional sem entraves – o sentimento de culpa é a expressão dessa divisão.
    O Direito, com suas leis, representa uma forma de barrar ou enquadrar a tendência do homem a fazer do outro o objeto de suas pulsões destrutivas. O Direito, portanto, também lida com o gozo. É nisso que está sua essência, diz Lacan, “repartir, distribuir, retribuir o que diz respeito ao gozo”.[4] Segundo Pierre Legendre, a sociedade inteira encena no teatro da Justiça as catástrofe de cada um. Pois “a cada crime, a cada assassinato somos tocados no mais íntimo, no mais secreto, no mais obscuro de nós mesmos: um breve instante sabemos que poderíamos ser aquele, o náufrago, um assassino.”[5] A Justiça tem a função de nos lembrar e até mesmo nos fazer reaprender a interdição de usar o outro para saciar nossas pulsões agressivas que podem ir até o assassinato. E assim , como diz Legendre, cada processo contra o assassino é “um ritual de separação do assassinato”. Eis o que o processo civilizatório do Direito deve promover em relação ao gozo.

A Lei simbólica

    Há Lei e leis. A Lei simbólica, que rege os homens na condição de seres que habitam a linguagem, e as leis que os homens fazem para regular as relações entre si.
    A Lei simbólica é estrutural, ou seja, independe do lugar, do momento histórico e da constituição social. Ainda que não dependa do tempo e do espaço, estrutura ambos, pois estes têm sua base na linguagem. Com sua estrutura de linguagem, a Lei simbólica comparece na cultura por intermédio de suas manifestações e no inconsciente por meio de suas formações – sonho, sintoma, chistes. A Constituição, carta magna de um Estado, as leis, os estatutos e os regimentos institucionais são modalidades de expressão da Lei simbólica na cultura e visam ao enquadramento e à limitação do gozo de um em relação aos demais.
    Em psicanálise, a Lei simbólica equivale ao que Freud nomeou como a lei de interdição do incesto, cujo representante é o pai que impede o menino de se deitar com a mãe. O pai apresenta a proibição (da mãe) e restaura uma sanção (a castração) à sua desobediência. O incesto mãe-filho figura o gozo a que o sujeito aspira, o gozo imaginado, desejado, sonhado a que o sujeito não tem acesso em razão da intervenção da instância paterna, representada pelo Pai simbólico. Este é menos o personagem do genitor que uma instância legal, um puro significante, designado por Lacan como Nome-do-Pai, que barra o acesso ao incesto tanto da mãe quanto do filho. O Nome-do-Pai é um “Não!” que impede o filho de gozar sexualmente de sua mãe, e esta de utilizar seu rebento como objeto de gozo. É, em outras palavras, o significante da Lei simbólica presentificado no complexo de Édipo.
    A estrutura da Lei que barra o gozo foi abordada por Freud em dois mitos nos quais encontramos duas versões do pai: o de “Totem e tabu” e o de Édipo. Esses dois mitos indicam duas versões relativas à Lei: o Pai-gozo que está fora da lei e o Pai-desejo que instaura a lei, os quais correspondem, respectivamente, ao pai da horda primitiva e ao pai edípico.

Os mitos

    Entendendo o mito como “tentativa de dar uma forma épica ao que se opera na estrutura”[6], vemos que o mito de Édipo não só se refere à proibição do incesto e à articulação entre o desejo e a Lei, como também mostra que o gozo está perdido e que gozar da mãe levará o sujeito ao pior, tal como ensina o personagem da peça de Sófocles. Entendendo o mito como tentativa de enunciar o real como impossível de ser suportado e como forma de semidizer a verdade, apreendemos no mito de Édipo a verdade do desejo, e no mito de “Totem e tabu”, a verdade do gozo.
    Ambos são mitos de renúncia ao gozo – da renúncia pulsional que a civilização impõe ao sujeito (Freud, “O mal-estar na civilização”)[7] – e, portanto, mitos sobre o engajamento simbólico do sujeito e a constituição da Lei. Neles – em que Freud vê ilustrada a lei universal de proibição do incesto com a mãe – encontramos, na realidade, o assassinato do pai. Este, contudo, não ocupa o mesmo lugar nas duas situações. No mito de Édipo, o assassinato do pai permite o incesto do filho com a mãe, ao passo que no mito de “Totem e tabu” o pai primitivo, que impedia o gozo de todos os seus filhos ao reservar para si o direito de possuir todas as mulheres (inclusive mãe e irmãs), é morto por eles. São esses mesmos membros da horda que irão restaurar a interdição da endogamia ao erigir um totem que simboliza o pai morto.
    No mito de “Totem e tabu”, não se goza da mãe em momento algum, e nele surgem o gozo do Pai e seu poder de coação. No mito de Édipo, por sua vez, o parricídio permite o gozo da mãe, ao preço da castração (os olhos furados) no real do corpo. A castração indica, a posteriori, que o gozo da mãe deve ser barrado. O parricídio do pai primitivo e o totem que o representa confirmam que esse gozo está barrado para o sujeito. O totem, como representação do pai morto, é o símbolo da Lei que tem função de Nome-do-Pai. Tanto um quanto o outro mito, portanto, demonstram que o gozo da mãe está barrado e que essa barreira está ligada ao parricídio, o que leva Lacan a formular que o pai só entra em função se morto, ou seja, como função simbólica, conforme ilustra o totem.
    O mito do Urvater, contudo, alude a um momento de anterioridade lógica em relação ao assassinato do pai, vale dizer, o gozo primitivo desse pai vivo – que enuncia a interdição e ameaça castrar todos os homens – é o único que se exclui da lei imposta a todos. Esse momento de gozo do pai, ausente da peça de Sófocles Édipo Rei, é explicado na mitologia e era bem conhecido pelos espectadores gregos da tragédia: a maldição dos labdacídios, cuja responsabilidade é atribuída a Laio, filho de Labdacos e pai de Édipo.
    Laio, após a morte do tutor que substituíra seu falecido pai, refugia-se nas terras de Pelops, onde se apaixona pelo filho deste, o jovem Crisipo. Rapta Crisipo e, ao gozar do filho daquele que o acolhera, desrespeita as leis da hospitalidade, sendo então amaldiçoado por Pelops.[8] Se é verdade que herdamos do pai seu pecado, a herança de Édipo, seus crimes e a maldição de sua descendência estão relacionados com o gozo de Laio, o pai, que retorna na maldição de Édipo em seu duplo crime e na peste de Tebas.
    Passemos, assim, ao modo como Freud trata diretamente desse gozo do pai. Ele o faz valendo-se não no mito de Édipo, mas sim do mito inventado do Urvater, o Pai primitivo.

O Paiurrandotango

    O Urvater, além de ser “um pai violento, ciumento, que guarda para si todas as fêmeas e expulsa seus filhos à medida que crescem”[9], não tinha nenhum laço libidinal, não amava ninguém além de si mesmo e só se interessava pelos outros porque serviam a suas necessidades. Diante dele, o sujeito só poderia se submeter, pois tratava-se de “uma personalidade predominante e perigosa, para com quem só é possível ter uma atitude passivo-masoquista, a quem se tem de entregar a própria vontade, ao passo que estar com ele, ‘olhá-lo no rosto’, parece um empreendimento arriscado”.[10]
    Para Freud, essa atitude faz parte da “herança arcaica” do indivíduo. Manifesta-se na atitude da criança em relação aos pais e sobretudo na idéia que a criança tem do pai. O herdeiro desse pai arcaico é o supereu, a instância que encarna os imperativos de um pai identificado ao gozo; um pai que não está submetido à castração, mas que exige a castração do filho.
    O Urvater é aquele que impõe a lei sem estar submetido a ela. Ao ditar a lei para os outros, iguala-se a ela: ele é a lei fora-da-lei. Para os outros a castração, para si o gozo.[11] Encarnado por alguém, contudo, o pai da horda primitiva se transforma no tirano que se acredita dono dos membros de seu bando e se recusa a se enquadrar na lei, pois está identificado com ela; é a lei que só serve para os demais. Esse Pai-Urango, paiurrandotango [Père-Orang, pérorant Outang], como o chama Lacan[12], dá consistência imaginária a um gozo que pelo-menos-um poderia ter e guardar somente para si, sem dividi-lo com mais ninguém.
    É verdade que o assassinato do pai nada altera em relação à proibição do gozo, pois os filhos erigem um totem, escolhem um animal que o represente e um tabu que o preserve, instaurando a proibição de comê-lo. Mas se o totem representa o pai da lei, representa também o gozo do pai porque traz em si a transgressão da lei. “Não comer o totem”, definido como “ato proibido”, torna-se em determinadas ocasiões – quando é um dever matar e comer o totem até então proibido – um “ato comandado”. É o que se verifica na “refeição totêmica”, cerimônia solene da qual todos os membros do clã, e somente eles, podem e devem participar e na qual o animal totêmico é sacrificado e comido. O que era proibido se torna obrigatório, e a esse sacrifício que simboliza o assassinato do pai segue-se uma grande festa, cujo gozo vai muito além de uma orgia gastronômica. Essa festa, descreve Freud, é a “mais barulhenta e a mais feliz, em que todos as pulsões são desenfreadas e todas as satisfações são aceitas”. Trata-se de um “excesso permitido, e mesmo ordenado, uma violação solene de uma interdição”.
    Em termos freudianos, esse comando do supereu equivale ao imperativo categórico de Kant, “com a diferença de que quer agir pela imposição, afastando qualquer motivação consciente”[13], ou, como diz Lacan, “ninguém força ninguém a gozar a não ser o supereu”. Daí a ordem impossível de seguir que resume o comando do supereu: “Goza!”.[14] O gozo, mesmo quando barrado, retorna como imperativo do supereu.
    Além disso, o supereu, como o tabu, exige de uma só vez o respeito à lei do “para todo homem” e o gozo que a contradiz: ordena, a um só tempo, “faça isso” e “não faça isso”. O supereu é a instância que não só impele o sujeito à impossível conjunção entre o universal “para-todo-homem” e o particular de seu gozo, como também o força ao impossível do gozo. Essa instância interna a cada um se torna externa todas as vezes em que o sujeito a projeta em um personagem que encarna para ele o Pai da horda primitiva, com suas características de tirania e gozo.

O Pai ideal

    Para Freud, a primeira identificação do sujeito está relacionada com o pai. Podemos considerá-la equivalente à incorporação do Nome-do-Pai que barra o gozo da mãe para o sujeito e constitui a matriz do ideal do eu. O ideal do eu é sempre um ideal do Outro, em geral o pai. É o produto da identificação simbólica na condição de puro significante que, ao barrar a mãe, institui o desejo. É com base no ideal do Outro, internalizado como ideal do eu, que as coordenadas simbólicas do desejo do sujeito se constituem.
    O ideal do eu dá, para o sujeito, consistência imaginária ao pai feito de amor, o pai cujo laço amoroso abriu espaço para a identificação. É desse lugar que o sujeito aguarda um olhar de amor, o reconhecimento de seu valor, a admiração, os aplausos. Além disso, o ideal do eu corresponde ao pai benevolente e protetor que, com seu olhar, aprova os atos do sujeito e assim responde à sua demanda, que é sempre demanda de amor. Ainda que se diga que o amor é cego, é o ideal do eu o ponto de vista do amor, pois é ele que está no lugar de comando.
    Como vimos, esse ponto no Outro é imaginarizado pelo sujeito toda vez que um personagem o ocupa. Pai, analista, amado, amada, é sempre no Outro que o sujeito busca sua imagem ideal. O sujeito tenta fazer do Outro um espelho que reflita a maravilha que pensa ser, a fim de encontrar seu lugar de majestade no desejo do Outro. Dito de outro modo, o sujeito, com sua demanda de ser visto pelo Outro para ser reconhecido e amado em sua particularidade, busca um pai ideal que encarne o ideal do eu para admirá-lo e, se necessário, acudi-lo. O sujeito fabrica um pai, que pode ser tanto Deus quanto a figura divinizada do sujeito suposto saber, que o analista é convidado a encarnar e a quem o sujeito pede que o liberte do gozo que o divide.
    O pai, entretanto, não pode responder, pois está morto (sua função simbólica). Há tão somente um significante que exerce uma função simbólica, sempre insuficiente para barrar por inteiro o gozo. O pai, em verdade, está morto, e só entra em funcionamento para sustentar a exceção que faz a regra da castração para todo homem. Não deixa, contudo, de comparecer em suas diversas versões, tal como se pode ver no filme Em nome do pai, de Jim Sheredon.

Em nome do pai

    O personagem principal do filme de Jim Sheredon é Jerry, jovem irlandês que, apesar de se envolver incidentalmente com o IRA, não partilha de seu ideal revolucionário: ele rouba chumbo para vender, mas fica com o dinheiro. É apresentado como um transgressor, um mentiroso egoísta que pensa em si, mas não na Irlanda. É, em suma, um rebelde sem causa.
    Jerry resolve ir para a Inglaterra, onde, por ser irlandês, é considerado, apesar de si mesmo, inimigo e revolucionário. Lá, acaba sendo injustamente acusado de participar de um atentado a bomba que mata vários civis.
    Sua transformação começa ao ser preso. Antes, acolhido em uma comunidade hippie de Londres, pensara apenas em sex, drugs, and rock and roll, agindo como um adolescente que quer transgredir e chocar a sociedade. O roubo da prostituta faz série com os roubos anteriores.
    O pai sempre o salvou das possíveis punições por suas transgressões. Podemos supor que ele só se permitia transgredir por saber que o pai o protegeria se algo desse errado. O ápice da estrutura dessa relação entre filho transgressor e pai salvador surge quando o pai o acompanha à prisão, e o filme permite a conclusão de que essa posição superprotetora impediu a transformação do menino em homem. Jerry está fixado na posição de rebelde, sempre “contra”. Contra o quê? O pai e a lei.
    Quando os dois se encontram a sós na prisão, Jerry, ao ver o pai e saber que toda sua família foi presa, sente-se culpado. O pai, por sua vez, ao constatar que ele não é um assassino, o olha aliviado. Esse olhar, contudo, angustia Jerry e o faz sentir-se perseguido, evocando o ódio permanente pelo pai: “Você me segue sempre quando faço besteira, nunca pelo que faço de bom, como no caso da medalha”.
    Jerry “faz besteira” para que o pai venha atrás dele. Certa vez, porém, ganhara uma medalha no futebol sem merecê-la, e o pai o denunciou perguntando insistentemente sobre a falta que cometera no jogo. É um pai que indica as faltas, um pai da lei. O que faz o menino? Escreve o nome do pai no chão de terra e urina sobre ele em sinal de desprezo, sarcasmo e ódio. Ao apagar seu nome com o jato de urina, tenta simbolicamente livrar-se do pai, passando a roubar e a transgredir a lei do pai representada pela lei da justiça. Vemos aí a articulação entre a figura do pai e os representantes da lei.
    O filme mostra um deslocamento no tratamento que o sujeito confere ao nome do pai: de nome usado como vaso sanitário a nome do qual se serve como símbolo da verdade e da causa pela qual luta. É a passagem, portanto, de um nome do pai degradado, vilipendiado e emporcalhado a um nome do pai valorizado, assumido e mesmo idealizado. Inicialmente uma imagem que o sujeito tenta apagar com a urina de seu desprezo, torna-se um símbolo de justiça, cidadania e lei. A evolução do personagem mostra que o sujeito só pode se autonomizar e agir em nome próprio para deixar de ser filho sob a condição de servir-se do Nome-do-Pai como instância simbólica fundadora da Lei.
    Essa passagem do nome do pai mostra a função, para o sujeito, do pai simbólico, que Lacan chamou Nome-do-Pai. O filme desvela sua natureza de sustentação do sujeito em sua relação com os outros e sua função de lei que interdita o gozo – no caso, o gozo dos poderosos de fazer o que quiserem, independentemente do judiciário, que representa a lei entre os homens.
    O filme, todavia, vai além, ao mostrar os operadores jurídicos como transgressores da lei e retratar o judiciário utilizado não para fazer valer a lei, mas sim para transgredi-la, mentindo, caluniando, falsificando e forjando provas e se permitindo bater, prender, acusar e dispor da vida das pessoas como se fossem objetos.
    Quando Jerry é preso, o policial mais perverso arranca dele uma falsa confissão com a ameaça de matar seu pai. Nesse momento, ele se defronta com seu ódio – ódio que conhece como ódio ao pai. Eis por que nega sentir ódio pelos ingleses: ele não os odeia, mas ao pai. Esse ódio é confirmado na cena em que Jerry lhe diz que ficou feliz ao ouvir que o matariam. Sabemos que ficou angustiado, transtornado, em um estado bem distante da felicidade. Mas o que sai como mentira é a verdade de seu desejo de matar o pai no inconsciente, pois vira a possibilidade de realizar a fantasia do parricídio. Mais tarde, Jerry explica que, no momento em que viu anunciada a morte do pai, seu ódio por ele desapareceu. Por quê? Porque, por um instante, viu realizado seu desejo de morte do pai. Eis o crime em questão na subjetividade do personagem, um crime que não cometeu, a não ser em seu inconsciente.
    Como era o pai tão odiado? Fraco, doente, submisso a um emprego subalterno, submetido à ordem vigente (que aqui corresponde à tirania inglesa na Irlanda). Não era, portanto, um pai respeitável. E como se dá a evolução do personagem na relação com seu pai? Após expressar sua satisfação em imaginá-lo morto, Jerry afirma sua culpa em relação ao gozo da transgressão e confessa que desde o episódio da medalha mente e rouba, sendo essa a forma de degradar tanto o pai quanto a lei.
    Na prisão, repete sua opção de rejeição desse pai da lei. Quando Joe, o terrorista do IRA que efetivamente jogara a bomba no restaurante, entra na prisão brigando com os ingleses e impondo sua lei, Jerry o toma como pai, afastando-se de seu genitor, que para ele não está à altura da função paterna. Joe representa o pai que impõe respeito, possuidor de grandes ideais, forte, decidido, corajoso e poderoso. É o pai que luta e bate forte. Mas, veremos, esse pai cai do pedestal quando incendeia Barker durante o motim. É um pai fora-da-lei que não serve como ideal.
    O ideal em que Jerry se mira está colado na parede de sua cela na prisão: Che Guevara e seu mote “Hasta la vitoria siempre”. Apesar de se dizer apolítico, Jerry tem como modelo o guerrilheiro e herói revolucionário. Pouco antes do motim, em O poderoso chefão, filme dentro do filme, surge a figura do pai-chefão poderoso (Marlon Brando) dizendo que não imaginava aquela vida para seu filho predileto, representado por Al Pacino, que se tornará um mafioso muito mais violento e assassino que seu pai.
    É nesse momento que o poderoso chefão Joe promove o atentado contra Barker. Quem o salva é o próprio Jerry, que, com um cobertor, apaga o fogo do gozo assassino desse pai cruel e primitivo que abate quem se interpõe em seu caminho. Joe surge como pai da horda primitiva, pai do gozo que utiliza todos como objetos. É então que Jerry encontra em seu verdadeiro pai Giuseppi, sempre do lado da lei e dos policiais, um representante da Lei, ao qual se une, aceitando sua transmissão. É interessante ressaltar que Giuseppi simpatiza com Barker, inimigo jurado de morte do pai cruel Joe.
    Jerry escolhe o lado da lei. Após salvar Barker, encontra-se sob dois olhares distintos: o olhar gélido e desumano do pai terrível e o olhar emocionado e humano do pai amoroso. Mata simbolicamente o pai Joe e escolhe Giuseppi. Quando este efetivamente morre, ou seja, quando se transforma em puro nome, Jerry adota uma causa, uma luta, uma verdade.
    O menino então vira homem. O inconseqüente adquire responsabilidade por seu desejo de assunção da lei do Pai, lei simbólica que é o fundamento da civilização. O pai se tornou a lei que condiciona seu desejo – desejo em nome do qual passa a viver e lutar e em nome do qual pode até mesmo morrer.
    Jerry adere à campanha para liberar os inocentes. Nesse momento, entra em cena a advogada, figura feminina causa de ciúmes entre pai e filho, graças a quem ele será solto da prisão. A advogada não representa propriamente a mãe, mas a própria figura da verdade, da dignidade, da esperança e da liberdade, sendo também um laço entre pai e filho.
    Depois da morte simbólica do pai cruel, surge outra figura de pai, e o ódio dá lugar ao amor. Surge então o pai que cuida do filho (Jerry recorda o episódio da língua inchada, quando o pai o levara ao hospital), que sonha, que ama a mãe, que segura a mão do filho. Aparece o pai do amor, o pai protetor, o pai do cheiro da infância que lhe traz felicidade em suas recordações. Vemos concluir-se a virada da relação com a lei e o pai: a felicidade expressa verbalmente com relação à morte do pai é substituída pela felicidade com relação ao cheiro do pai. O amor é o efeito da assunção simbólica da lei.
    O pai começa a morrer biologicamente. O filho pode dispensar sua presença, pois assumiu sua lei, a lei simbólica. Jerry o diz, no fim do filme: “Quero dizer a todos que até meu pai ser declarado inocente, até que todos os acusados sejam declarados inocentes e os culpados sejam julgados, continuarei lutando em nome de meu pai e em nome da verdade”. Mas já não é mais em nome de seu pai que luta, e sim em Nome-do-Pai, a instância da Lei representada pelo ideal paterno.

[1] Jacques Lacan, O Seminário, livro 17, O avesso da psicanálise, Rio de Janeiro, JZE, p.68.
[2] Sigmund Freud, “Por que a guerra?”, ESB, XXII: 252.
[3] Sigmund Freud, O mal-estar na civilização, ESB, XXI: 133.
[4] Lacan, J. O seminário, livro 20 – Mais, ainda, Rio de Janeiro, JZE, p. 11.
[5] Pierre Legendre, La fabrique de l’Homme occidental, Paris, Mille et une nuits, 1966, 9. 34.
[6] Jacques Lacan, Televisão, Rio de Janeiro, JZE, p.55.
[7] Cf. Sigmund Freud, “Mal-estar na civilização”, ESB, XXI: 81.
[8] Cf. Pierre Grimal, Dictionnaire de la mythologie grecque et romaine.
[9] Sigmund Freud, “Totem e tabu”, ESB, XIII: 169.
[10] Sigmund Freud, “Psicologia de grupo e análise do ego”, ESB, XVIII: 161.
[11] O mito de Totem e tabu dá forma épica à estrutura do lado do homem da divisão dos sexos, como podemos ver nas fórmulas da sexuação propostas por Lacan. Todos os homens estão submetidos à lei da castração, isto é, à função fálica, constituindo o universal fálico que corresponde ao conjunto de todos os filhos da horda primitiva ("´Fx). Existe, contudo, ao menos um que não está submetido, aquele cuja função de exceção funda a regra ( ). O “urangotango” paterno mítico encarna o não à função fálica, por não ficar submetido à lei da castração. Funda, no entanto, a universal fálica dos homens da horda. A função lógica da exceção do pai é fundar um universo fechado, circunscrito, cujo gozo, assim, permanece contido por esse universal fálico, limitado pela lei da proibição do incesto.
[12] Cf. Jacques Lacan, “L’étourdit”, Scilicet, 4, p.13.
[13] Sigmund Freud, Totem et tabu, p.6.
[14] Jacques Lacan, O Seminário, livro 17, O avesso da psicanálise, Rio de Janeiro, JZE

 

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