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Lacan - Discussão e Comentários

LIVRO - "A Psicanálise depois de Freud"
AUTOR: Bleichmar & Bleichmar

1. As criações teóricas de Lacan

     Iniciaremos nosso comentário sobre a obra de Lacan fazendo algumas ressalvas. Queremos diferençar, em primeiro lugar, nosso nível de análise, a obra em si, a teoria, da política e do movimento. Pensamos mais no texto de Lacan do que em suas qualidades ou defeitos como pessoa e nos avatares de sua vida. Com este recorte instrumental, analisaremos suas idéias. Deixamos de lado a discussão sobre o movimento psicanalítico, os homens, a política institucional.

     Em um mundo em que se criticam ou se aceitam teorias, de acordo com questões secundárias e até da moda, a reflexão científica se impõe como uma tarefa afastada, tanto quanto possível, da luta pelo poder, da busca de posições dentro do movimento ou da aspiração de êxito social. Por rezes, a crítica equânime e racional parece uma utopia inalcançável. A estas dificuldades deve-se acrescentar uma, fundamental: a psicanálise não tem um sistema de avaliação empírico, convincente para todos, que permita asseverar a superioridade de uma teoria sobre outra. As demonstrações psicanaliticas podem surgir de uma combinação da experiência, reflexão critica e aproveitamento da capacidade do ser humano em apreciar a verdade. A atitude emocional que buscamos procura integrar a aceitação amistosa do pensamento alheio com certa cautela, em relação às expectativas exageradas que cada teoria possa causar.

     O "Fenômeno" Lacan converteu-se no centro da vida psicanalítica da França, há vinte ou trinta anõs. Dali se difundiu para outros ambientes, como alguns países europeus e latino-americanos. Sua influênda nos Estados Unidos e Inglaterra é quase nula, pelo menos até o momento Suscitou partidários acérrimos e críticos recalcitrantes. Como toda teoria, serviu para estudar novos problemas e também, lamentavelmente, como bandeira política.

     Depois da morte de Lacan, a luta por sua herança desencadeou batalhas violentas entre facções rivais. A escola lacaniana está, atualmente, bastante fragmentada.

     A obra de Lacan, impressionante por seu nível teórico, pela formalização que alcança e pela vastidão de seu gênio criativo, aparece como uma renovação profunda dos esquemas conceptuais psicanalíticos A convergéncia de preocupações de nossa disciplina com outras de tipo filosofico, antropológico e lingüístico admite muitos vértices de análise. A concepção lacaniana do sujeito não é a mesma que a da estrutura do inconsciente ou da tecnica psicanalítica. Nenhuma obra é homogénea e, menos ainda, uma obra desta magnitude. Quantos Freud existem? Há o sagaz observador da natureza humana e, também, o cientista materialista lamarckiano do século XIX, o criador de teorias especulativas e o clínico rigoroso. A obra de Lacan é heterogênea, como também o é a de outros grandes psicanalistas. Melanie Klemn, por exemplo. Por acaso não se poderia aceitar nela a genialidade de seus achados clínicos e a profundidade de seu pensamento, questionando, simultaneamente, outros aspectos de sua obra, como as proposições genéticas ou instintivistas?

     Embora não possamos presumir uma avaliação completamente equânime do pensamento lacaniano, trataremos de nos aproximar, o mais possí'el, deste ponto virtual. Idéias anteriores e outras experiências clínicas influem em nossa perspectiva. A dificuldade de aprender uma língua nova, quando uma pessoa é adulta, consiste em que sua língua original atua como "tela" psicológica, obstaculizando o acesso ao outro idioma. Algo semelhante nos acontece ao estudar Lacan, assim como qualquer outro dos autores que comentamos neste livro.

     Na obra de Lacan sobressaem a originalidade e a audácia de seu pensamento. Cria novos modelos, para pensar os problemas da psicanálise, entre eles a relação do inconsciente com a cultura. A idéia do retomo a Freud parece mais uma astúcia política, dentro das lutas do movimento, do que uma consigna que guie os passos da teoria. Poucos dizem que reformulam Freud. Diz-se "isto estava em Freud, simplesmente o desenvolvo", ou então "Freud se ocupou deste tipo de pacientes, para outros casos podem se complementar suas idéias com meus pontos de vista". Lacan também usa este ardil da convivência humana dentro das instituições. Apenas quando sua posicão se afirma, estabelecendo-se a liderança, pode destacar as diferenças entre sua obra e a de Freud.

     Pensamos que sua reforrnulação é muito profunda. Modifica-se o eixo de referência da teoria e metapsicologia. A alienação lacaniana do sujeito é mais radical, em um sentido, do que a de Freud e, também, diríamos, do que a de Marx. O homem, para Freud, está em crise, como resultado da luta entre sua natureza e a lei da cultura. Porem, mesmo quando entrenta este conflito, há algo que lhe pertence ou que lhe é próprio, tanto em sua natureza como em sua cultura, O homem de Lacan, alienado entre o desejo que a identificação com o semelhante lhe impõe, e o desejo que a cultura lhe impõe, através da linguagem, sofre uma alienação constitutiva mais absoluta. Não há nada próprio dele, fica indefectivelmente preso entre o outro e o grande Outro. Lacan rechaça qualquer possibilidade de livre arbítrio. Nenhum ser humano organiza seu destino e suas motivações, ambos nascem no exterior. A problemática do sujeito, em Lacan, é um assunto muito mais amplo do que o genial, mas de todo modo mais modesto, projeto freudiano: o homem, com sua sexualidade e conflitos que esta lhe causa.

     Torna-se difícil sintetizar as contribuições originais de Lacan. Mencionemos, inicialmente, algumas. Ele pensa o narcisismo com um novo criterio, etológico e intersubjetivo. Toma de Hegel a dialética da relação com o semelhante; de Sartre (1943), o tema do olhar; de Freud, o conceito de identificação e o de narcisismo. O resultado final e de grande riqueza conceptual. Aplicado ao Edipo e ao vínculo com a mãe, abandona todo desenvolvimentismo evolutivo e vai direto ao âmago: o desejo da mãe. Vincula o narcisismo à agressividade, assim progredindo muito, em um duplo caminho: deixa o meio da biologia e o reducionismo de um pretensa pulsão de morte e amplia o nível de explicações da clínica.

     Os enfoques lingüísticos de Lacan podem ser discutidos. Muitos não aceitam a primazia do significante, apoiando a idéia de um equilíbrio entre este e o significado. Também é acusado de um reducionismo, em sua conceptualização do inconsciente. Mais adiante, ocupar-nos-emos deste problema. Porém, mesmo assim, não se pode negar a originalidade das teses lacanianas, nem deixar de reccnhecer os problemas que resolve ou as vias que inaugura. A idéia de Lacan evita uma dificuldade, apresentada na proposta freudiana de inconsciente, a qual, apesar de sua grande utilidade clínica, complica-se teoricamente quando tem de harmonizar fenômenos biológicos com outros que não o são (representações, linguagem e sentimentos). A proposta de Lacan, por mais questionável, que possa ser, parece simples e harmônica com o que se procura estudar. E metafora ou realidade que o inconsciente está estruturado como linguagem? Deter-nos-emos nisto, algumas páginas mais adiante.

     Indubitavelmente, e um acerto da teoria lacaniana pôr a prioridade fálica como centro da sexualidade humana. Não se pode subestimar o interesse de um tema que tinha ficado um tanto relegado, devido ao auge das teorias das relações objetais. Mas faz algo mais: de uma maneira que não se tinha feito até então, relaciona a significação do falo, em um sentido antropológico geral, com a conflitiva neurótica. Continuam a sair, da inspiração lacaniana, teorias, observações, opiniões. Como Fazer justiça a tantas questões ao mesmo tempo? Fala-se da relação do sujeito com a cultura, da que existe entre a linguagem com a psicanálise e o inconsciente; também lembremos sua diferenciação entre desejo, necessidade e demanda, a criação dos três registros (imaginário, simbólico e real), a concepção do desejo humano, a proposta de um homem, alienado entre o desejo do Outro e do outro, a imbricação da lingüística com o sintoma, a importância dada, no homem, ao simbolo e à convenção significante. Lacan ensinou a pensar a problemática da castração, tanto em reiaçâo à ordem imaginária (ser o falo ou ter o falo, confundir a pessoa com a lei), quanto à estrutura significante, porquanto a ausência, a falta, está presente, dentro de um sistema de relações, como carência de ser do sujeito enquanto significante.

     Depois de Freud, Lacan e Melanie Klein são os que foram mais longe na reformulação global da teoria. Estes dois gigantes introduziram tal vastidão de mudanças nas concepções psicanalíticas que, com acertos e erros, a psicanalise se modificou depois deles. Assim como nos anos 60 houve a moda kleiniana, agora, em alguns lugares como Buenos Aires, há a moda lacaniana. Mas, embora isto nos faça lamentar, devido à fascinação e idealização do então e do agora, não devemos ser levados a não valorizar tudo o que Lacan ensinou. Podem-se usar suas idéias, de maneira criativa, para muitos problemas clínicos e teóricos. Deste modo, o profundo estudo de Dío de Bleichmar, E. (1985) sobre a feminilidade, inclui perspectivas estruturalistas sobre o narcisismo e a castração, que mostram a potencialidade destes conceitos em um emprego nem simples, nem redutor.

     Onde o pensamento deste autor nos parece como mais questionável é em seus aspectos técnicos. Novamente, devemos fazer a diferença entre a teoria e os homens que a aplicam. Não foi feito, por acaso, o uso mais banal e medíocre das idéias geniais de Melanie Klein? Lacan tem seguidores que distorcem, completamente, sua teoria, utilizando-a para justificar a psicoterapia mais simples e até a intrusão psicopática.

     Apesar disso, sua teoria tem algumas propostas técnicas que consideramos inexatas, e erros verdadeiramente graves para a prática. Renega a capacidade humana para pensar os problemas e sua potencialidade para aceder à verdade. A palavra vazia do paciente é rompida mais com um ato do que com uma explicação. Passa-se do imaginário ao simbólico, através de um corte no discurso feito pelo analista; interrompe-se a sessão, o analista não fala, interpreta-se um significante.

     Nesta teoria, o poder da letra e do código sobre o indivíduo é completo. A obra de Lacan insiste em que o sujeito fica inscrito a partir de fora, sem liberdade de escolha. O estruturalismo utilizado revive a paixão pela razão, colocada na estrutura, como a racionalidade causal auto-regulada; desaparece o acaso, a casualidade, exagerando-se o determinismo dos fatores externos ao sujeito. Atualmente, muitos pensam a mente como um lugar em que se produzem sentidos infinitos. Freud, por seu turno, propôs, com sua teoria das séries complementares, um equilíbrio entre o interno e o externo.

     A primazia do significante, entendida não só como fato lingüístico, mas em um sentido amplo e social, leva-nos a pensar que o símbolo determina o homem, toma-o escravo de sua marca, do emblema e da tradição ou ritual, O discurso da ciência (fora das paixões imaginarias) é discurso simbólico, mas, como aceitar seu desenvolvimento, sua mudança, a criação, a intuição ou a especulação, quando se entra em um beco sem saída, ao asseverar que a estrutura significante é inapelavel para o sujeito, tendendo a se repetir continuamente?

     Lacan diz, algumas vezes, que o significado luta por se expressar, e, em outras, que o significante tem atividade produtiva e não expressiva. Pode ser que se trate de contradições internas do modelo, mas é também possível que se refira a ordens diferentes. Em um sentido, a primazia do signif icante reivindica o peso da cultura na determinação do sujeito. E através da linguagem e dos símbolos que o sujeito se constitui, pois é determinado por eles. Primazia do significante quer dizer, então, que a estruturação do sujeito deriva da convenção lingüística e social, Indubitavelmente, há uma certa verdade nestas idéias. Nossa pergunta é: até que ponto este apresamento não fecha a porta para outros fenômenos, igualmente humanos e da mesma validade clínica? Referimo-nos àqueles elementos da individualidade que fazem do homem um ser original, entre todos os homens.

     Berenstein, I. (1975) analisa a relação do ego com o desenvolvimento do sujeito. Utiliza bibliografia de Merleau Ponty, Benveniste, Avenburg, Freud e algumas obras sobre mitologia. Faz uma descrição genética da origem da diferenciação do ego-não ego, recorrendo à hipótese do tipo de satisfação das pulsões, situação tópica da líbido ( no id, no ego etc.). As vivências corporais dão origem ao ego-corpo que, depois, deve passar ao egosujeito. O sujeito é o espaço do ego, onde se experimenta a origem da pulsão, ou um estado da mente indicado, inicialmente, pelo outro como agente. O sujeito coincide com o agente, quando é ativo e sabe que o é, na busca de um objeto (p. 210). Este enfoque combina noções clássicas de Freud com outras atuais, proporcionando-nos idéias complementares às de considerar o sujeito apenas em relação com o significante.

     Para Lacan, o inconsciente se reduz à função simbólica. Em sua obra, o desejo humano é causado pela estrutura, é estrutura em si mesmo, pois desliza, como faz o significante.

     Um de nós (Leiberman de Bleichmar, C., 1986. Cap. 22 deste livro) analisa a controvérsia entre natureza e cultura, em psicanálise. Descreve as possíveis variedades entre os extremos antitéticos que vão desde o interno, como único fator constitutivo, até o ambiental, como critério radicalmente oposto. Lacan pode ser situado nesta perspectiva, em uma postura ambientalista, entendendo o ambiente como algo externo, a estrutura, que decide a constituição do sujeito. Outros autores tomam do ambiente os aspectos emocionais do vínculo com a mãe. Bion, por exemplo, insiste na capacidade emocional desta para cumprir sua função continente, acalmando as angústias do filho.

     A idéia de explicar o desejo, a partir de um deslizamento incessante do significante, é muito atraente, pois ilustra, tanto o aspecto de isca que o objeto desejado tem, como também porque o sujeito tem uma seqüência infinita de objetos desejados. Também separa o desejo da fonte biológica, dando prioridade ao aspecto simbólico sobre o fisiológico ou material. De todo o modo, resta explicar a relação entre o simbólico e os aspectos fisiológicos, temática que não escapa à inteligência de Lacan, quando procura compreender a articulação das ordens simbólica e real.

     Em outros modelos, o kleiniano, por exemplo, procura-se explicar o deslizamento do desejo por meio de conceitos como voracidade e inveja, elementos que individualizam o sujeito a partir do interno ou constitucional.

     Lacan nos propõe uma versão do desejo e sua relação com a linguagem, que é bastante elaborada. Pensa-a de três maneiras diferentes: duas são estritamente lingüísticas e a terceira introduz um fator alheio à cadeia significante. Em um sentido ontológico, o desejo surge porque há linguagem; em um enfoque mais moderado, a linguagem é modelo para o desejo, trata-se de uma analogia ou de uma metáfora: o significante desliza e supõe-se que acontece a mesma coisa com o desejo. A terceira perspectiva inclui o objeto a, que é a causa do desejo e, ao mesmo tempo, seu resultado. E o objeto que se liga à fantasia. Este terceiro modo de raciocinar possui uma independência relativa dos outros dois.

     A teoria lacaniana atrai por sua beleza expositiva e pela elegância das propostas, mas deveria ser discutido se é mais coerente do que as outras.

     As criticas desapiedadas que Lacan, e depois seus seguidores, fizeram à Associação Psicanalítica Internacional (IPA) são totalmente exageradas e tendenciosas. Todo movimento, e também o lacaniano, tem lutas internas pelo poder que atentam contra o espírito científico da instituição. Foi assim que o próprio Lacan teve de dissolver a Escola Freudiana de Paris, em 1980, alguns anos antes de sua morte. Nos trabalhos lacanianos, a IPA aparece como uma espécie de conspiração contra Freud, sem ser feita nenhuma distinção entre as idéias e as pessoas com suas diferentes atitudes. A expulsão, de que Lacan foi objeto, é uma expressão dos problemas políticos e de poder que se movem dentro das instituições psicanalíticas, não refletindo, apenas, discordâncias científicas; tem-se sido tolerante com pessoas que fizeram transgressões mais graves do que as suas, conhecidas de todos. O mesmo acontece no movimento lacaniano e em qualquer grupo humano. Todos os vícios que Lacan critica na IPA, também ocorrem com ele com seus seguidores: poder dos mestres, mau uso da teoria, desvio das propostas freudianas e hierarquias de tipo eclesiástico. Podem ser interessantes os trabalhos de Maci (1985), Perrier (1985), Sedat (1981), entre muitos outros, para conhecer as situações de tirania interna, existentes dentro do movimento lacaniano, inclusive as de que é acusado o próprio Lacan.

     De qualquer maneira, estes problemas não nos interessam de forma especial; já mencionamos o "fator humano", tanto na teoria como no movimento.

     O que nos parece um erro, em Lacan, é sua pretensão de se converter na unica versão aceitável da teoria psicanalítica. E, ainda mais, um cânone pessoal (inquisitorial?) acerca do que é e do que não é freudiano. Ninguém fica de pé, todos os autores são severamente questionados, não parecendo haver outra contribuição à teoria, senão os três registros e o efeito do significante e da palavra. Desta maneira, caem de Winnicott a Strachev. Rios, C. )1°84, p. 124) tambem protesta contra estes excessos de Lacan, quando diz: " A teoria não é deticiente pelo que propõe, mas no que se refere à sua pretensãc de exclusividade sobre a psicanálise, quanto a lhe dar sua identidade..."

     Com Melanie Klein, e um pouco mais piedoso, pois a considera uma mulher de génio, embora torpe ou tosca por não entender o registro simbólico, Nem se tala de sua opinião sobre os psicólogos do ego, que se constituiram o alvo preferido de suas críticas. Muitas vezes, Lacan distorce as contribuições dos teóricos desta corrente, de tal forma que sugere um má intenção de sua parte. E simplista afirmar que ha uma conexão direta entre a psicologia do ego de Hartmann e o modo de vida americano. A psicologia do ego utiliza modelos biológicos e um ponto de vista realista, que debilita a conceptualização do desejo e dos conflitos psíquicos, mas o excesso lacaniano e injustificado; nem reconhece as contribuições desse esquema teórico, nem aceita que existam grandes analistas dentro dele. Os aspectos equivocados desta teoria não justificam que se apague, completamente, tudo o que ha nela de ennquecedor. Para Lacan e para os lacanianos de hoje, parece que ser psicanalista e sinônimo de estar filiado a seu movimento, de outro modo não se faz psicanálise e se atraiçoa o legado freudiano.

     Entre as críticas que Lacan faz à psicologia do ego figura sua oposição a considerar que o ego tenha, como uma de suas funções, a de observar e se adequar à realidade. E como criticar um professor por suas aulas, quando diz que, por um ponto externo à reta, passa apenas uma paralela a esta reta. Na verdade, quem é questionado é Euclides. Lacan deveria fazê-lo a Freud, que sempre falou de dois tipos de ego: o da representação, ou narcisismo, e o ego função, cujo objetivo é estabelecer a relação com a realidade: esta instância, assim formulada, interessou especialmente aos psicanalistas norte-americanos.

     A psicologia do ego não procura adaptar o homem ao american way of life, nem tampouco e, como diz Lacan, uma teoria da livre empresa. Em nossa opinião, trata-se de outro fenômeno. Em um meio onde o positivismo e a tilosotia oficial, que impregna a atividade científica, a psicologia do ego aparece como urna tentativa mais forte de unir a psicanálise ao positivismo e à psicologia acadêmica. É verdade que, como bem o diz Lacan, a psicanálise não pode ser uma psicologia geral, pois assume temas próprios e deixa de lado outros, tradicionalmente analisados por esta disciplina. Por exemplo, interessa-se pelo conflito e pela sexualidade, não se ocupando de categorias tais como a inteligência, as percepções, a maturação ou o desenvolvimento. Paradoxalmente, o projeto lacaniano, como o de Hartmann, procura ser uma ponte entre nossa disciplina e outras, como a lingüística, a antropologia e a filosofia. Com esta perspectiva, realiza uma reflexão sobre o sujeito, o ser, o mundo e a linguagem. Hartmann procurou falar com biologos e sociólogos, Lacan o faz com filósofos, linguistas e antropólogos. E-nos mais atraente a ponte lançada por Lacan, mas não desprezamos a outra, que tem seu próprio campo de aplicação.

     O estilo expositivo de Lacan deixa na sombra muitas de suas idéias; argumenta-se que se o inconsciente nunca se exprime diretamente (como demonstra o discurso do paciente ou o texto do sonho), por que não esperar uma formulação análoga por parte de Lacan? Erro crasso: o discurso do cientista deve ser claro e didático, para que possa ser entendido, permitindo que se fixe uma posição diante dele. A esta modalidade geral, utilizada por Lacan, soma-se a confusão que surge das citações que ele faz de outros trabalhbs. Por exemplo, em uma frase menciona que "o leão só salta uma vez". Se alguém tiver a desgraça de não lembrar, nesse momento, da 'Analise terminável e interminável", em que Freud fala do Homem dos Lobos e, referindo-se ao momento em que decidiu por fim ao tratamento, utiliza esta frase para expressar que depois de fazê-lo não poderia se retratar, fica difícil entender o que Lacan quis dizer com esta citação.

     Este problema não seria tão importante se não ocorresse um fato curioso: o fenômeno coletivo transforma a psicopatologia em uma virtude quase inefável que, como os bons vinhos, seriam apenas para paladares refinados. Fenômeno que Freud estudou em "Psicologia das massas e análise do ego", em 1921, mostrando um determinado grupo humano, unido em torno da idealização do líder, que passa a fazer o papel de superego.

     Como é indubitável que Lacan, além de pôr armadilhas expositivas, agir politicamente e utilizar, em alguns casos, a obra de alguns colegas de má fé, fez contribuições importantes à psicanálise, surgiram muitos difusores de sua obra. Podem ser citados, entre outros, por sua acessibilidade para o leitor de fala espanhola, Clément (1981), Dor (1985), Fages (1971), Rifflet-Lemaire (1970), Milier (1980), Soury (1986), Valiejo (1985), Masotta (1986).

     O estilo de Lacan é gongórico (rebuscado, elíptico, acompanhando a Gôngora) 3 , Para o estudante que se inicia em psicanálise, Lacan encerra uma tentação e um perigo. Quando se aceita, piamente, seu discurso, pode-se crer que conhecê-lo é igual a tudo saber sobre a disciplina. Aparentemente, isto encurta o caminho a percorrer, pois aproximar-nos-ia rapidamente da posição de conhecedores. O perigo consiste em não nos darmos conta da distorção que Lacan faz dos outros autores. A única forma de escapar do perigo é estudá-los, o que leva muito tempo e esforço, o que muita gente omite. Para dar um exemplo, quando se lê o trabalho de Strachey, de 1934. do qual Lacan afirma que propõe a imposição do superego e a ideologização do paciente, vê-se quão injusto é com o texto original. Concluindo: é fundamental ler todos os autores, escutar seus seguidores, ver como entendem a psicanálise, para depois formar o próprio critério.

     Quando Lacan diz que os trabalhos canônicos sobre o inconsciente são as obras produzidas por Freud, entre 1900 e 1905, (A interpretação dos sonhos, Psicopatologia da vida quotidiana ou então O chiste e sua relação com o inconsciente), mostra-nos sua adesão à primeira fase do pensamento freudiano. Melanie Klein parece mais interessada por artigos, tais como "Luto e Melancolia" (internalização de objetos, introjeções, sadismo) e pela temática de Alem do princípio do prazer, com sua hipótese da pulsão de morte. Hartmann, por seu turno, está vinculado ao Freud da segunda tópica, o da separação das instâncias psíquicas em id, ego e superego. Cada modelo tem seu apoio em algum ponto da obra freudiana e, por sua vez, a continua e desenvolve. O tipo de psicanálise que Lacan propõe recorda mais o Freud da primeira fase: o chiste, o lapsus, o ato falho. Deixa de lado a análise do ego: suas resistências, a força, a função de síntese e desenvolvimento (Freud, 1926). Já dissemos que há, pelo menos, duas concepções sobre esta instância psíquica: é, simultaneamente, representação e função, O primeiro enfoque nos parece mais interessante, pois estuda o narcisismo, as identificações e o conflito; o segundo leva em conta as funções do ego, suas defesas e as resistências que ergue contra a pulsão. Lacan parcializa, quando diz que o ego de Freud é o da Verneinung, porque mesmo que isso corresponda, em parte, à realidade, não é rigoroso quando se considera o sistema global do pensamento freudiano. E como dizer que o aparelho psíquico de Freud é o id ou o superego. Preud estuda o inconsciente e o recalcamento, mas sempre propõe uma interação indissolúvel entre eles, a consciência e a realidade externa. No que se refere à realidade externa, devemos admitir que a psicologia do ego é mais freudiana do que Lacan. Freud sempre deu ao ser humano uma capacidade para estudar o mundo, através das funções egóicas. Também pensou que a realidade externa é um fenômeno alheio ao sujeito e objetivável. Em sua obra, a realidade é muito mais do que a lei e a proibição do incesto. E também um lugar onde o ego verifica se pode ou não alcançar a satisfação de necessidades e pulsões.

     Melanie Klein estuda a relação da criança com sua mãe e as fantasias e angústias que esse vínculo elementar suscita, Hartmann considera a do individuo com a realidade e Lacan a do sujeito com o significante. Cada uma destas teorias soluciona alguns problemas e deixa de lado outros.

     Há certas semelhanças, em determinado sentido, entre os enfoques de Lacan e Melanie Klein. O especular procura abordar uma problemática que preocupou esta autora e da qual ela se aproximou, através de seus estudos sobre a inveja. Têm em comum a comparação, a tensão agressiva com o objeto, a destruição do outro e o aspecto parcial do processo imaginário. Vê-se apenas uma parte da representação do outro, aquela que contrasta, identifica-se ou ataca. Estamos no campo das vicissitudes dos processos diádicos: dois objetos, mãe e filho, sujeito e objeto, temática, enfim, do narcisismo. Ambos os autores, acertadamente, isolam este processo dos enfoques energéticos e económicos. Não há neles dialética de cargas, mas de representações e emoções.

     O inconsciente proposto por Lacan é mais estruturado do que o de Freud. Posteriormente, veremos as discussões suscitadas pela proposta de que o inconsciente esteja organizado como linguagem. Adiantemos algumas ideias: o inconsciente freudiano funciona segundo o principio do não-contraditorio, enquanto a linguagem tem um sistema de oposições binárias que é radical (ou este fonema ou este outro). O inconsciente, em Freud, tambem é uma mistura de representações de palavras e de coisas, constituindo uma ordem que é diferente da linguagem.

     Lacan tem razão ao tirar das pulsões os aspectos econômicos e geneticos, e ao considerar os chamados estágios evolutivos como modelos de relação intersubjetiva. Mas a crítica contra a teoria clássica da libido não deveria ser dirigida, neste aspecto, contra Abraham, pois o proprio Freud propôs a sequência libidinal como um sistema progressivo e regressivo, apoiado em fases biológicas. Se se quiser fazer justiça a Abraham, deve-se reconhecer a contribuição que fez, ao descrever as etapas libidinais como relações de objeto, cheias de fantasias inconscientes. Para tanto, basta ler, sem preconceito, seu "Um breve estudo da evolução da libido, considerada á luz dos transtornos mentais" (1924), para poder aproveitar o que nele há de iriovador para a teoria e a clínica.

     E certo que os fundamentos mecânicos, biológicos e darwinianos, que dão apoio à idéia de libido, são criticáveis, mas devemos admitir que o problema está tanto em Freud como em seus continuadores.

     Lacan se equivoca, a nosso critério, ao reduzir as transações entre a mãe e o filho ao desejo materno de ter o falo. Tira tanto do meio ! As emoções da mãe têm um espectro muito mais amplo, como também as do filho. Por exemplo, a angústia da mãe ou a capacidade de apoio, temas que interessaram Winnicott; podem-se conter as emoções do bebê, como destaca Bion; a racionalidade de seu pensamento, o amor ou o ódio que sente por seus objetos primários. Parece incrível que, com uma teoria tão rica e complexa, Lacan não leve adiante coisas tão evidentes. A angústia de separação não está relacionada apenas com o fato de que a criança representa um falo para a mãe. Se esta tiver uma depressão pós-parto, se adoecer ou se enfrentar uma contingência real, o bebê poderá sofrer danos importantes, ate mesmo irreparaveis, pela falta de contato com a mãe.

     Às vezes, a teoria lacaniana parece fazer um gasto excessivo em teorização, para encarar certos problemas, deixando outros sem tocar, Recordemos, com algum humor, que uma vez tivemos a sorte de escutar um afamado lacaniano, talvez um dos mais importantes do movimento. Falou quatro horas sobre o paradoxo de Russel, de sua origem e sobre os tipos lógicos, para concluir a apresentação dizendo, nos dez minutos finais, que a mulher está inserida em uma contradição essencial diante do falo, semelhante à do barbeiro do povoado que Russel usa como exemplo: se ele deve barbear todos os homens do povoado que foram proibidos de se barbearem sozinhos, o que fará consigo? Em certas ocasiões, a teorização lacaniana mostra grande capacidade criativa, mas, em outras, há um desperdício de informação e um prazer pela elucubração que são desnecessários.

     Indicamos que Lacan se propõe a teorizar sobre o sujeito. Em nossa opinião, a linguagem e a psicanálise não resolvem todos os problemas que esta temática implica. O sujeito é mais do que linguagem e inconsciente: é história, biologia, cultura, e também motivações individuais. Com sua perspectiva, Lacan reduz não só o sujeito, mas também o âmbito social, a um problema puramente lingüistico. Estudar a noção do sujeito, apenas a partir do significante, torna estreitos seus múltiplos sentidos e determinações. Pensamos que, provavelmente, seja o contrário do que diz Lacan: a aprendizagem da língua exige identificações com o objeto que ensina a falar, as quais, por sua vez, são determinadas pelo êxito que possa ter o vínculo emocional (para este tema, é recomendável o trabalho de Donald Meltzer, de 1975, sobre o autismo e a linguagem). Laplanche e Leclaire (1966) questionaram, há muitos anos, a tese lacaniana de que a linguagem é condição para o inconsciente, e sustentaram a idéia oposta: o inconsciente é condição para que ocorra a linguagem.

     O estruturalismo radical de Lacan não só se expressa na teoria lingüística do inconsciente, ou no papel que atribui ao registro simbólico e aos processos constitutivos do ideal do ego. Fala-se, permanentemente, do lugar do sujeito: a estrutura determina a posição a que este é levado inexoravelmente. Assim se desvanecem as características e motivações individuais. Mesmo que acerte, ao assinalar o peso do cultural sobre o ser humano, deixa uma margem nula para a originalidade do sujeito. Em sua tese de que o inconsciente é o discurso do Outro, estabelece, taxativamente, o papel determinante do externo.

2. Sobre os postúlados lingüísticos de Lacan

     Vejamos, em pormenor, alguns postulados de Lacan, que são subsidiários de concepções lingüísticas e antropológicas. Em primeiro lugar, a tese básica de seu edifício teórico: o inconsciente estruturado como linguagem, o sujeito definido pela ordem significante. a estrutura do desejo humano inscrita na ordem simbolica.

     Nas páginas anteriores, destacamos a importância que têm, na teoria lacaniana, as propostas da lingüística de Saussure. Cabe-nos perguntar qual é, na realidade, o papel dc modelo lingüístico na teoria psicanalítica. Uma das alternativas é que a linguagem tenha um papel constitutivo nopsiquismo, para o sujeito e para a estrutura social. Haveria então uma perspectiva ontológ1ca. A linguagem dá origem e, como conseqüéncia, explica os fenômenos que interessam à psicanálise.

     Outra possibilidade é utilizar a linguagem como um modelo que ajuda a compreender as leis de operação das estruturas psiquicas. Os modelos espaciais utilizados em química, em que cada átomo é representado por uma esfera de madeira, servem didaticamente para facilitar a compreensão das relações que mantêm dentro de uma determinada molécula. Neste caso, está-se recorrendo ao isomorfismo de modelos: um facilita a compreensão do outro. O risco consiste em transformar o modelo em realidade. No exemplo anterior, poderia se acreditar que as esferas de madeira são átomos, atribuindo-lhes suas propriedades. O modelo pode ser útil para fabricar uma hipótese, que deverá esperar ser verificada no campo específico. Agir de outra maneira é reduzir a realidade, por efeito de isomorfismo.

     Na teorização lacaniana, parecem ser utilizadas estas duas alternativas: considerar que a linguagem está na origem do sujeito e, também, aplicá-la como modelo que ajuda a repensar o homem e seu desejo a partir de uma nova perspectiva. Quando Lacan recorre à lingüística para explicar sua função no sujeito, faz contribuições origiriais e valiosas. Porém, ambos os planos, amiúde, se confundem em sua obra.

     Assim como outros autores, cujas críticas sintetizaremos mais adiante, cremos que o homem e a cultura são muito mais do que uma estrutura significante. O desejo humano tem raízes no simbolismo, mas também nos afetos, pulsões e motivações individuais. Para Lacan (Les écri'ts techniques de Freud, 1975, p. 346), o simbólico ordena o imaginário e o real; portanto, a palavra dá sentido à emoção. Em nossa opinião, estas são teses um tanto exageradas. Do mesmo modo, recorrer às categorias binárias, fundamentais à perspectiva estrutural, parece tirar a riqueza da visão que se possui do psiquismo humano. Mesmo que a relação dialética com o outro nos situe em um lugar mais ou menos determinado, há outras variáveis que influem, para que aceitemos ou não esta relação. Acreditamos que, então, entram em jogo elementos internos do sujeito, que o levam a se situar dentro de uma posição entre as várias opções possíveis.

     Em alguns casos, o estruturalismo permite uma conceptualização engenhosa de funções que sempre foram polêmicas na psicanálise. No seminário sobre o conto de Poe, "A carta roubada" (Ecrits, pp. 5-55), Lacan propõe uma solução para a questão da memória. Esta é resultado da estrutura significante. Não há um armazenamento biologico de dados, mas um retorno e uma acumulação de unidades significantes, que fazem parte do tesouro que cada um compartilha com seus semelhantes. Esta é uma idéia que tem relação com a fantasia inconsciente, no sentido de que o que se procura não é o registro de um acontecimento, mas o libreto que organiza todos os acontecimentos.

     Em outro trabalho, "O tempo lógico e a afirmação da certeza antecipada. Um novo sofisma" (Ecrits, pp. 187-203, Lacan afirma que os personagens da charada encontram sua própria identidade a partir do que os outros dois sujeitos fazem. Isto questiona a possibilidade de uma identidade, alcançada autonomamente pelo indivíduo, que assim fica marcado, sem apelação, por um sistema posicional. Como antes mostrávamos, esta perspectiva não incorpora nada que seja útil para explicar ao paciente os fenômenos identificatórios com que ele opera. Funciona em um nível muito geral e sempre a responsabilidade é de um terceiro, o outro ou o Outro. Cabe perguntar se o sujeito a quem Lacan se refere, nestes escritos, é o sujeito da psicanálise, ou antes um sujeito antropológico, sociológico e filosófico. Ainda assim, tampouco compartilharíamos de seu ponto de vista.

     Nesta mesma linha de pensamento, Lebovici e Diatkine, em sua intervenção do Colóquio de Borineval sobre o inconsciente, comentam: "Substituir a angústia do oitavo mês, a depressão desencadeada pela separação - fatos que nos parecem essenciais para explicar a gênese da fantasia do objeto mau parcial - pela concepção lacaniana da metáfora paterna, é voltar às concepções fiosóficas mais afastadas da obra de Freud e da investigação psicanalítica. E imaginar que o ser humano é determinado, por natureza, por uma estrutura que existe fora de si mesmo" (1°66, p. 89). Mais adiante, destacam a importância de elementos pulsionais pré-verbais como organizadores do psiquismo: "Porém, não seguimos o Dr. Lacan, que não compreende a transformação da necessidade em desejo, mais do que na 'abertura' (béance) do objeto. O investimento do pré-objeto nos momentos de necessidade, antes de que seja percebido, a organização narcisista dos limites do id, faz compreender a dialética que se organiza dentro do limite de uma comunicação extra e infra-verbal, mediada pelo modo transitivo e transaciona]" çlbi'd., pp. 89-90).

     A tese lacaniana, de que o inconsciente está estruturado como linguagem, foi uma das que mais questionamentos e discussões suscitou, não apenas no campo psicanalítico como também em disciplinas diferentes. Do ponto de vista da comunicação, Anthony Wilden (1972) formula agudas críticas a este postulado fundamental. Sublinha que a linguagem se distingue de todos os demais sistemas expressivos, pelo fato de admitir, em seu seio, a negação e o tempo verbal. O inconsciente, tal como foi descrito por Freud, tem como características essenciais a ausência de contradição e de respeito aos prazos temporais. Haveria, assim, uma oposição clara entre as características do inconsciente e as da linguagem. Porém, isto não é tudo. Resta discutir o assunto relativo à qualidade binária ou analógica da linguagem e do inconsciente.

     Na opinião de Wilden, a linguagem se baseia em oposições de tipo binário: "a"- "o", positivo-negativo, ausência-presença. Na linguagem verbal, cada coisa está definida por sua oposição às demais. O processo secundário seguiria este padrão.

     O inconsciente e, portanto, o processo primário, tem outro tipo de estruturação, que, na opinião de Wilden, seria melhor descrita como de tipo analógico.

     O analógico se define por semelhança morfológica, emocional, representacional. Um exemplo: o locutor da televisão, que vemos na tela, e o homem real, que fala diante das câmaras. Abre-se uma ampla gama de matizes possíveis para este tipo de funcionamento.

     A descrição freudiana do processo primário, com suas minúcias de representações de coisa e de palavra, com sua alusão a um fluxo contínuo de energia, é a descrição de um processo analógico, em sua forma. A linguagem natural, à qual Lacan recorre para exemplificar o funcionamento do inconsciente, é de tipo binário e, segundo Wilden, assemelha-se mais ao processo secundáno, descrito por Freud, situado no nível consciente-pré-consciente.

     Wilden crê que não há nenhum princípio no modelo de linguagem que explique a intencionalidade analógica. "Dado que a linguagem começa pondo-se a serviço do analógico, não possui nenhuma finalidade fora de suas limitações estruturais, impostas pela clausura da frase, devendo ser introduzida, necessariamente, de fora do modelo lingüístico, algum constructo bioenergético que possa nos explicar a intencionalidade humana" (1972, p. 333). Vemos como, em uma perspectiva completamente diferente da psicanálise, também se destacam as insuficiências do modelo iingüístico para explicar os fenômenos humanos.

     Este autor opina que Lacan abusa do modelo estruturalista ao aplicálo, sem limites, a diversos conceitos psicanalíticos que não têm, essencial- mente, um nível que o justifique. Destaca, por exemplo, que usar o modelo binário (é-se isto ou se é o oposto) para conceptualizar o sujeito é altamente redutor. Lacan emprega este modelo para a oposição entre si mesmo e o outro, oposição que na realidade está mais em um nível semântico pragmático do que em um nível digital (ibid.). Igual ressalva é feita em relação à "oposição" entre Eros e Tánatos, à qual Lacan aplica também o modelo binário. Wilden pensa que a concepção freudiana destas categorias era fundada em uma perspectiva bio-energética e não de oposição de fonemas.

     O modelo saussuriano, em que Lacan baseia sua construção teórica, é questionado no próprio campo da lingüística. Fuchs e Le Goffic, em sua obra Initiation au problémes des lingüistiques contemporaines (1975), apontam sua discordância com algumas das teses de Saussure. Estas críticas tornam-se aplicáveis à conceptualização lacaniana.

     Em primeiro lugar, destacam que a oposição proposta por Saussure, entre língua e fala, embora permita delimitar a matéria em estudo, transforma a linguagem em um ente virtual, ideal e neutro, de dificil relação com a realidade. Por outro lado, a categoria de fala supõe que o vínculo que cada sujeito estabelece com o código universal, a linguagem, é-lhe inteiramente proprio. o que, do outro extremo, também e altamente discutível. A distinção entre lingua e fala alude à "oposição entre um codigo universal, dentro de uma comunidade lingüística e independente dos usuários, e o ato livre de utilização deste código pelos sujeitos" (pp. 9-13).

     O que aqui está em discussão é o que já assinaláramos em relação ao sujeito lacaniano. Qual é o papel do indivíduo? Quanto é determinado pela convenção significante e quanto há nele de inato ou proveniente da experiência pessoal? Esta polêmica é, provavelmente, uma das que mais atualidade possui na discussão dos modelos psicanalíticos pós-freudianos.

     Outro aspecto da teoria saussuriana, discutido por Fuchs e Le Goffic, é a natureza binária do signo lingUístico. Se cada signo for definido pelo que não é, em oposição a outros, então a linguagem e um sistema definido, em sua totalidade, de maneira negativa, somente a forma dos fenômenos pode ser objeto de estudo (ibid., p. 19).

     Por outro lado, a única maneira de distinguir um signo de outro, continuam dizendo nossos autores, é recorrer ao sentido. Por exemplo, o vocábulo "força" tem um sentido diferente em "a força do vento", do que em "ele me força a falar". Este tipo de problemas foi considerado por outra corrente do estudo lingUístico: os distributivistas.

     Propõem que a elaboração de Saussure, que define a lingua como objeto, supõe uru duplo rechaço: o da historia e o da realidade objetiva. Esta corrente cujo teorico mais destacado foi Martinet), que. produziu interessantes avanços em fonologia e gramatica. interessa-se em articular a linguistica com outras disciplinas, como, por exemplo, a história e a sociologia (ihid., p. 20).

     Por último, em relação às contribuições da fonologia, que e uma parte da lingüística altamente influenciada pelo estruturalismo, Puchs e Le Goffic demonstram que a proposta desta corrente, de que cada fonema se situe em relação de oposição aos demais fonemas do sistema, é discutível, pois, como alguns teóricos destacam, os sons de determinada língua são percebidos no próprio sistema fonológico com que o indivíduo conta. A dificuldade para pronunciar ou entender um sistema fonológico diferente ao próprio é de índole psicológica, pois nosso próprio sistema funciona como uma barreira. Mesmo dentro da corrente fonológica há, hoje em dia, algumas discussões. Uma delas centra-se no binarismo. A pergunta é: deve-se considerar que cada traço é, necessariamente, oposto a outro, ou cabe descrever matizes e variações? Isto nos leva a uma segunda pergunta: existem traços distintivos, presentes em todas as línguas? Há aqueles que afirmam que sim, enquanto outros pensam que não é assim que se deve encarar o problema. Na opinião destes últimos, apenas depois de ter estudado cada língua, poder-se-ão fazer generalizações. A última questão volta ao assunto da oposição entre lingua e fala, pois encara a definição dos diferentes fonemas. Como cada individuo tem uma forma peculiar de falar, então nem todos os u ' pronuciados serão idênticos. Ter-se-ia de diferenciar os fonemas do sistema fonético (correspondente à fala) dos do sistema fonológico (correspondente à língua).

     A exposição que acabamos de fazer tem como objeto demonstrar ao leitor os problemas que atualmente parecem ocupar aqueles que se dedicam ao estudo da linguagem. Algumas destas questões estão muito associadas a dificuldades que, em nossa opinião, a teoria lacaniana apresenta: reducionismo lingüístico e problemas no esclarecimento de níveis, como, por exemplo, a relação entre inato e adquirido. Vemos que as discussões em tomo da oposição fala língua estão intimamente relacionadas com este aspecto. Também são questionados os modelos binários no estudo da linguagem, sem haver consenso em tomo do tema.

     Mencionaremos, nesta discussão do papel do significante na teoria lacaniana, os trabalhos realizados por Laplanche (1981) e Bleichmar, H. ) 1982), que apareceram na revista Trabajo dei psicoanalisis.

     O primeiro, em seu artigo "O estruturalismo. Sim ou não?', diz que a fórmula lacaniana, relativa ao inconsciente, pode ser discutida de vários pontos de vista. Em primeiro lugar, afirma que a linguagem está estruturada em termos relativos. Assegura que o sonho não é expressão do inconsciente, mas algo que se aproxima dele e que, nesta tormação, não ha uma linguagem, no sentido de código social, mas uma neo-linguagem, que combina elementos da lingüistica com outros de origem experiencial, provenientes da realidade.

     Hugo Bleichmar afirma que a tese de Lacan que estamos discutindo é relativa. Em sua perspectiva, o inconsciente é heteróclito, contendo elementos lingüísticos e não lingüísticos.

     Merece especial menção, outra das propostas lacanianas relacionadas com a lingüística. Referimo-nos à postulação da primazia do significante. Tanto Jean Laplanche como Hugo Bleichmar formulam caminhos críticos. Significado e significante são - conforme os ensinamentos de Saussure - duas faces da mesma moeda. Um recorta o outro e é impossível pensar que um tenha proeminência sobre o outro, dentro da fórmula.

     Hobson (1985) considera, criticamente, tanto as opiniões lingüísticas de Lacan, como seus modelos matemáticos ou topológicos. Diz, em seu trabalho "Can Psychoanalysis be saved?": "Quando Lacan visitou os Estados Unidos, há alguns anos, seus encontros em Cambridge com o lingUista Noam Chomskv e vários outros luminares locais foi um desastre intelectual sem atenuantes; ele dedicou seu tempo a analisar, elaboradamente, a linguagem deles, indo algumas vezes ao quadro-negro e desenhando diagramas pseudocientíficos, supostamente baseados na topologia matemátka, para ilustrar suas interpretações. Willard van Orman Quine, o destacado filósofo e matemático de Harvard, não se impressionou com nada" (A tradução é nossa) ft°.

     Klimovsky (1984) estuda as limitações e dïficuldades dos postulados lingúisticos de Lacan, dizendo o seguinte: "Se o inconsciente tem a estrutura de uma linguagem, se é isomorfo a uma linguagem, então tem uma das seguintes características. Ou é uma estrutura sintática, um mero cálculo (quando o desejo, o falo e outros elementos não seriam mais do que elementos de jogo de um aigoritmo sem significação nem referência), ou há regras semánticas, referenciais, designativas, coordenativas etc., o que implica, em alguma etapa, o conhecimento objetivo de certos fatos, sem ajuda semiótica para captá-los gnoseologicamente" (p. 55).

     A título de conclusão preliminar, diremos que, na teoria lacaniana, o homem parece metido forçadamente em um modelo lingüístico. Embora esta camisa de força pareça dar coerência a teoria, em nossa opinião, subtrai- lhe riqueza e também amplitude e potencialidade clínicas.

     E precisamente na técnica psicanalit)ca proposta por Lacan que se podem ver, com mais nitidez, as limitações a que leva sua conceptualização do sujeito. Queremos destacar que este nos parece o ponto mais fraco de sua teoria.

3. Comentários sobre as propostas técnicas de Lacan

     Quando se estudam as questões de técnica em Lacan, aparecem fatos que necessitam reflexão. Muitas vezes, ha concordância entre idéias teóricas e conseqi.iências clínicas; em outras, não se vê uma relação. Se Lacan indica que ha um registro do imaginario, em que o sujeito se identifica com o desejo do semelhante, é lógico concluir que o analista possa se converter, na transferência, em um objeto imaginário. Aqui, há coerência entre a teoria e a técnica. Se a linguagem aliena o sujeito no discurso do Outro e constrói seu inconsciente, é compreensível que se privilegie o papel da palavra na psicanálise e que o analista deva funcionar como garantia da verdade, remetendo ao lugar do Outro.

     Mas, como explicar a escansão ou a interrupção da sessão, no momento em que o psicanalista julgue conveniente? Com igual critério, poder-se- ia dizer que a maneira de impedir o jogo de palavras vazio seria interpretar, para o paciente, aquilo que está fazendo. Interromper uma sessão pode ser origem de uma fascinação narcisista para determinado tipo de analisado, que idealize o analista. Ou seja, que (para dizê-lo ao estilo lacaniano) sua prática não romperia nenhum imaginário, mas o fortaleceria.

     Por que pensar na transferência como uma resposta ao preconceito (contra-transferência) do analista; ou por que o paciente sempre põe o analista, por definição, no lugar daquele que sabe, do Sujeito Suposto Saber? Quiçá, estejamos diante de uma falta de coerência, em que os fenômenos da teoria correm em direção diferente dos da clínica.

     É possível, em princípio, usar boa parte da teoria que Lacan propõe, sem chegar ao que pareceriam arbitrariedades da técnica: interromper a sessão, confiar mais no ato ou gesto do que na interpretação, preocupar-se excessivamente com o jogo de signihcarites sem privilegiar as angústias do paciente na sessão, desprezando o estudo da contra-transferência, como instrumento técnico, ou do insight, como fator terapêutico.

     Acompanhamos Lacan em muitas de suas idéias e reconhecemos a hierarquia de sua produção, mas não podemos fazer o mesmo com os pontos que propõe como modificações da técnica analítica.

     Recordemos os problemas da teoria de Lacan que possuem vinculação com a clínica.

     1) Punção da palavra em psicanálise. Importância da análise do discurso do paciente, do ponto de vista dos significantes; especial atenção á morfologia, pontuação etc.

     2) Aparecimento da ordem imaginária, narcisista, entre analista e paciente. A transferência do paciente converte o analista em Sujeito Suposto Saber, possuidor do falo. Seu discurso se transforma em palavra vazia, ou "molinete" de palavras, onde se oculta o desejo de reconhecimento, de amor, o desejo escondido na demanda.

     3) Necessidade de restituir o paciente ao simbólico, superar sua alienação, resolver o Edipo, restaurar a palavra plena. De sujeito alienado a sujeito de sua história.

     Em um sentido, tudo isto seria inobjetável; acreditamos que Lacan o propõe com toda a razão.

     Apontaremos nossas divergências. Não há maneira de questionar o imaginário, a não ser por meio da interpretação e do insight. Com efeito, se o paciente não entende seu conflito, como acreditar que o superará? Para Lacan, a palavra plena faz ato. Com isto se misturam dois níveis diferentes e se privilegia o ato, acima da transformação do inconsciente em consciente. Sobrevém o ritual: escansão, silêncio, pontuação ambígua; sem se dar conta, como dizíamos anteriormente, de que cada um destes procedjmentos, se não forem interpretados para dar sentido à experiência, corre o perigo de se converter na mais terrível das fascinações. Propicia-se justamente aquilo que se procura evitar: uma recaída no imaginário.

     Certo analisado dizia, narcisisticamente: "Meu analista me encanta, porque não me incomoda nem me interrompe; ele apenas me escuta". O paciente tinha convertido a técnica lacaniana em uma sucursal de seu conflito, gostava de se escutar e que ninguém o contradissesse. O analista, em lugar de fazê-lo saber, mediante uma interpretação, fazia seu jogo, em nome de evitar ser o Sujeito Suposto Saber.

     Outra paciente contou, ingenuamente, o seguinte: "Meu analista me interrompe a sessão, quando falo algo importante, para que este tema não se esgote e eu possa continuá-lo ria próxima vez" (!).

     Estes exemplos demonstram que a única maneira de evitar um fenómeno narcisista é intepretá-lo explicitamente; o ato puro sempre será entendi- do pelo paciente, da perspectiva que lhe indica sua própria patologia.

     Em 'Intervention sur le transfert", Lacan (1957) propõe que a transferência do paciente, neste caso a de Dora a Freud, é uma resposta aos erros do analista. Se Preud tivesse interpretado adequadamente, não se teria produzido o estancamento do processo analítico e não teria aparecido, em Dora, o que sentia por seu pai. Acreditamos o oposto, acompanhamos Freud, ao considerar a transferéncia como algo interno que o paciente traz e que desdobra no vínculo com o analista. E seu clichê, seu estereótipo (Freud, 1912, 1920). A vingança de Dora seria suscitada, ainda que Freud tivesse interpretado sua homossexualidade latente. A transferência do paciente é mexoravel, não depende da capacidade, habilidade ou conhecimento do analista. Escutamos, há anos, Horacio Etchegoyen dizer, humoristicamente, em seu Seminário sobre Técnica, que se um paciente lhe solicitava tratamento logo apos várias tentativas fracassadas com terapeutas não muito experientes, ele se persignava, pois acreditava que tinha todas as possibilidades de que ocorresse com ele exatamente o mesmo.

     Tampouco acreditamos na eficácia do ritual para restituir à palavra seu valor simbólico. Em um artigo muito conhecido, Lévi-Strauss (1958) comete, em nossa opinião, um erro ao comparar a cura xamânica com a psicanalítica. Em ambas, segundo este autor, propõe-se, em palavras, uma experiência caótica que não pode ser pensada simbolicamente. O xamã inventa uma história, um mito; em compensação, o analista revela algo que já está no inconsciente do paciente. No primeiro caso, o que tranqüiliza talvez seja, justamente, a transferência idealizada; no segundo, a dissolução da transferência. Mencionamos sucintamente estas questões, porque a técnica lacaniana parece fazer do efeito xamânico um recurso da técnica. Outorga à simbolização um efeito terapêutico em si mesmo desbloqueador, organizador. Isto pode ser assim ou não, dependendo das intenções do paciente e das interpretações do analista.

     O estilo de Lacan é sempre de um alto tom emocional, como se vê em "Variantes da cura tipo" (Ecrits, pp. 311-353), trabalho cheio de qualif icativos grosseiros contra outros analistas.

     A perspectiva teórica de Lacan produz algumas dificuldades técnicas. Por não ter uma visão completa do ego e das motivações humanas, espera mais de um ato do que da compreensão. O ego, para ele, é desconhecimento da realidade, negação, fascinação narcisista. Acreditamos que é tudo isso e muito mais; porém. também lhe atribuímos capacidade de observação, motivações não narcisistas, amor ao objeto, desejo de conhecimento e de acesso à verdade. Se isso não existisse como disponibilidade egóica, não poderia haver relação com o simbólico. A criança renuncia ao Edipo, não só porque a Lei lhe é imposta à força, mas também por amor a seus pais. Acreditamos que a teoria de Melanie Klein resolve melhor esta questão. Nem sempre é percebido que as pulsões libidinais também guiam a criança a aceitar a Lei.

     Lacan não confia que o ego busque a verdade, mas sem este ponto de partida, como explicar o progresso científico ou a renúncia ao narcisismo, que implica modificar nossas convicções e idéias? Com exemplos como os de Copernico, Galileu ou o próprio Freud, não nos resta outro caminho senão admitir que o homem deseja encontrar a verdade. A experiência analítica mostra que o desejo de cura não apenas procura evitar a angústia. A ver- dade pode ser dolorosa e, no entanto, o paciente deseja enfrentá-la.

     Lacan exclui o insight, o desejo de conhecimento e de auto-observação. A análise de Freud foi, essencialmente, um processo introspectivo, embora, na verdade, fosse necessária a amizade com Fliess. Mas nosso autor não reconhece na introspecção o menor dos méritos.

     Do outro lado da dupla analitica, a mente do analista, Lacan tampouco aceita que a contra-transferência possa se converter em um instrumento técnico. O abandono do estudo da contra-transferência é um preço muito alto que este autor paga, por subestimar os aspectos não narcisistas do ego e suas funções de comprovação da realidade, observação e desejo de conhecimento. A partir dos trabalhos de Racker (1948, 1960) e Paula Heimann (1950, 1960,, aos quais, depois, muitos analistas seguiram, a contra-transferência se converteu em um foco de interesse para a compreensão da situação analitc e dos conflitos do paciente. Ignorá-la implica descartar um instrurnento excepcional, que amplia e enriquece a perspectiva psicanalítica.

     Porém, vamos mais longe ainda. Lacan deveria pensar que a escansão pode ser resultado da contra-transferência do analista. Se o analisado aborrece, incomoda, erotiza ou desperta emoções intensas, não poderíamos supor que o analista se sinta tentado a interromper a sessão, como conseqüência destes sentimentos? Também vimos fazer um uso psicopático da escansão da sessão, por algum personagem inescrupuloso que, quando recorria a esta tecnica com um paciente, já tinha o seguinte esperando. Misteriosa capacidade preditiva do quanto ia durar a sessão!

     O respeito ao enquadramento, que freqüentemente é criticado como rigidez, preserva tanto o analista como o paciente, abrindo o campo para a compreensão e a interpretação dos conflitos de ambos. Aceitar a capacida de humana para aceder a verdade é o único caminho que nos resta para evitar o solipsismo de cair em um sistema fechado que nos isola do exterior. Em Lacan, a palavra plena tem efeito por si mesma, alcança um engate dos significantes que resolve o problema, não há compreensão sem efeito, ato, queda do imaginário.

     Parece-nos uma teoria que, embora não se explicite, é tremendamente pessimista a respeito da capacidade humana de aceder à razão. Sem nenhuma duvida, a interpretação do conflito do analisado se dá a partir dos significantes verbais e oníricos. Mas tambem se devem levar em consideração outros elementos: o estado emocional do paciente (que nem sempre se expressa verbalmente), o estado afetivo do analista etc. A interrupção da sessão parece simplista, pois não explica as infinitas variações existentes atrás da palavra vazia. O paciente pode estar em uma atitude de rivalidade com o analista, ter medo ou sofrer uma falha psicotica. Utilizar a mesma denomiriação palavra vazia' para todos estes fenómenos, dando a todos eles uma mesma solução, é como pretender curar todo quadro febril com aspirina, sem investigar, especificamente, o que existe por tras dele.

     Green fez uma crítica valiosa à perspectiva que Lacan utiliza para compreender os afetos. Subscrevemos sua opinião, quando diz que foi proibida a presença do afeto (1073, p. 110) e que, mesmo que nas obras iniciais de Lacan, como 'Le stade du miroir comme formateur de la fonction du Je teile queile nous est revélee dans l'experience psvchoanalvtique", tenha um lugar importante, logo o perde. Ele está disposto a aceitar a primazia do significante, se tambem lhe for atribuída urna organização heterogénea (ihid., pp. 110-112L A teoria do Sujeito Suposto Saber explica, indubitavelmente, fenômenos reais do processo analítico. Apesar da veracidade que encerra, não estamos completamente de acordo com ela. O pacto analitico supõe que o paciente esteja angustiado ou em conflito, e que o analista domine uma tecnica que pode liberá-lo deste sofr:mento. Neste sentido, o analista çahe. Lacan diria que este saber do analista decorre de sua adesão a um método no qual funciona como garantia da verdade, remetendo a palavra à Lei, ao Outro. Na sessão, o analista interpreta, não apenas garante a verdade. Lacan pensa que é a própria palavra do paciente que desvela a verdade, algo assim com se o analista proporcionasse um referencial para que o paciente se curasse sozinho. Diferentemente dele. acreditamos que o terapeuta, ao descobrir conflitos e analisar a transferência, vai muito além disso. A capacidade do analista para tolerar as emoções, sustentar e modular a angústia do paciente com suas intervenções, também tem um efeito terapêutico. Interpreta tudo o que acredita que seja util e não à maneira de solução de enigmas.

     O analista saberá mais do que o paciente, não apenas do método e da Lei, mas também do próprio paciente e de si mesmo. Nada melhor para o narcisismo do que usar, como justificativa, a idéia de Lacan: quem me cura não é o analista, mas eu mesmo: ele me fornece o referencial para que eu aceda à minha verdade. Na realidade, está se produzindo a mais pura das transferências. A criança deseja acreditar que os pais não são aqueles que o criam e educam, mas que tudo isto está dentro dele. A relação analítica é simetrica, em um aspecto, e assimétrica, em outro. O aspecto igualitário está no fato de que se trata de dois adultos que pactuam uma tarefa. Porém, ali termina a simetria, pois a mente do analista permite entender muitos problemas que o paciente desconhece: ele tem o dever de conduzir o processo e dar lugar à transferência.

     Devemos destacar que, embora freqüentemente o paciente transfira para o analista suas imagos idealizadas e pareça convencido de que aquele sabe tudo, nem sempre e assim. A experiência clínica nos ensina que pode ocorrer exatamente o contrário: o narcisismo do paciente faz com que ele sinta ser o Sujeito Suposto Saber, pelo cue converte o analista em seu empregado ou servidor. A criança, às vezes percebe seus pais como súditos a seu serviço, encarregados de lhe resolver todos os problemas, e esta situação infantil pode ser revivida pelo paciente com seu analista.

     Na conceptualização do desejo de reconhecimento e do reconhecimento do desejo, evidentemente há um grande acerto lacaniano. Na demanda do paciente sempre se esconde seu desejo, em especial o desejo de ser reconhecido, de ser tomado como objeto de fascinação, que se estabeleça com ele uma relação especular. Este é um fenômeno de inquestionável observação clínica que, por outro lado, é eminentemente transferencial, pois a criança busca isso dos pais.

     O que se demanda do analista encerra um desejo que, como diria Lacan, é a metonímia ou a metafora deste e também do sintoma. Uma senhora, com problemas matrimoniais, queixa-se de seu marido, a quem considera um perfeito inútil. Insiste em que o analista não se ocupa suficientemente dela. demanda-lhe que faça mais e que não a frustre. Curiosa réplica, em que a demanda mostra, como conseqüência de sua inveja falica, o desejo de castrar o homem.

     Muitas das categorias lacanianas podem ser incorporadas para a compreensão de problemas teóricos e clínicos. Mencionaremos algumas delas, as que julgamos mais relevantes: a lingüistica como modelo, a idéia de três registros, o papel da palavra, sua bela descrição do narcisismo e do desejo humano. Mesmo as idéias mais criticáveis encerram uma dose de verdade, enunciando problemas que merecem nossa atenção. Não aceitamos os recursos de sua técnica, porque acreditamos que reforçam os problemas que procuram eliminar.

     Lacan tem seguidores e críticos, todos, na verdade, muito passionais. Nossa atitude é situar seus conceitos na perspectiva global da psicanálise, não aceitar que seja a única psicanálise possível, mostrar o que pode ter de reducionista em suas formulações e, ao mesmo tempo, valorizar seus achados originais e reformulações.

     Errou o caminho, na prática, apesar da intenção dever ser, sem dúvida, compartilhada: análise do inconsciente, estudo da fantasia e do desejo, busca da palavra plena e realização simbólica do sujeito. Paradoxo das circunstâncias e destinos: se a teoria que Lacan sustentou descreve tão bem muitos problemas e abre tantas perspectivas, a prática parece impor um desvio para a psicoterapia e nisto não sabemos se pode obter maiores éxitos do que seus oponentes, tão criticados.

BLEICHMAR & BLEICHMAR. A Psicanálise depois de Freud. Ed. Artmed


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