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Da Necessidade a Demanda

LIVRO: Para Compreender Lacan
AUTOR: Jean Baptiste Fages

     Segundo a acepção mais corrente, a necessidade é da ordem do orgânico: necessidade de água, necessidade de ar, etc... Freud parece não recolocar em causa esta acepção corrente, preocupado que estava em intercalar, entre a necessidade e o desejo, sua noção de pulsão. A pulsão introduz na simples necessidade orgânica um coeficiente – uma qualificação – erótico. A pulsão se situa na vida biológica, orgânica, e não na vida psíquica. Ela é no organismo uma força constante que tende a suprimir todo estado de tensão. Ela só intervém no psiquismo consciente ou in-consciente mediante o elo de uma representação.

     Lacan designa a necessidade em correlação com aquilo que ele analisa mais explicitamente: a falta. A necessidade orgânica está ligada a essa falta radical que resulta da saída do ventre materno. A criança, desde o nascimento, perdeu seu complemento anatômico, sua falta é um vazio, um buraco, uma “hiância”; ela suscita, para aquém da pulsão a necessidade orgânica. O que acontece com a pulsão? Numa intervenção a um congresso reunido no hospital de Bonneval Lacan propõe, não sem humor, uma imagem dos começos da vida humana e ilustra os pontos de partida da “pulsão”. Ele retoma o mito do andrógino – esse ser humano primor dial anterior à diferenciação dos sexos – descritos por Aristófanes no Banquete de Platão. Da mesma maneira que o Andrógino se divide em dois seres sexuados, sob a ordem de Zeus, assim também, desde a seção do cordão umbilical, desde que é arrancada da placenta, às membranas internas da mãe, a criança recém-nascida se encontra separada de uma parte de si mesma.

     Nascendo, a criança perde seu complemento anatômico. E Lacan pode então divertidamente comparar a criança a um ovo quebrado que se derrama em “hommelette”. A pulsão é por assim dizer o empuxo que invade a criança, um empuxo que traduz a falta do complemento maternal, Mas este empuxo encontra limites – o fechamento – de seu corpo. A pulsão, para poder se expandir, é então canalizada pelas “zonas erógenas” que são as válvulas abertas para o exterior e... (desde já) pelo exterior. Assim a pulsão é, como em Freud, uma qualificação erótica da necessidade, mas, para Lacan, ela se espalha, se localiza no organismo de maneira mais precoce antes de qualquer representação no psiquismo.

     O desejo, segundo Freud, .põe em movimento o aparelho psíquico e o orienta segundo a percepção do agradável e do desagradável. Segundo as descrições de Lacan, o desejo se segue à falta essencial que, separada de sua mãe, a criança sofre. O desejo tende a preencher a falha – a castração – que é sua separação da mãe. A criança deseja ser o falo da mãe, o desejo do desejo da mãe, o complemento de sua falta. Não podendo completar essa hiância, o desejo vai se aplicar a substitutos da mãe.

     “O Resejo se produz em algum lugar para além da demanda (...) mas assim ele se cava para aquém dela” (Ecrits, p. 629), não para de repetir Lacan. Ele se produz para além da demanda, porque não pode satisfazê-la jamais; o desejo está para a demanda como um fluxo abundante está para a canalização (a linguagem), ou, para falar como Lacan, como para o “desfile” do discurso. Ele se produz para aquém da demanda, pois esta, arremedando seu frenesi, lhe significa sua radical falta de ser. Desde então se instaura uma dialética radical: a demanda invade e subtrai o desejo, mas incapaz de o completar, o faz renascer cada vez mais frenético. A demanda “evoca a falta de ser sob as três figuras do nada que faz o fundo da demanda de amor, do ódio que quer negar o ser do outro e do indizível daquilo que se ignora na requisição” (Ecrits, p. 275).

     “Pareçe-nos que a demanda designa em Lacan, sob um tema genérico, o lugar simbólico, significante, onde se aliena progressivamente o desejo primordial”. Em outros termos, ela é da ordem da linguagem e se substitui portanto ao dado psíquico do prazer e biopsíquico da pulsão. A pulsão primitiva do sujeito: ser tudo para sua mãe, é como já dissemos, interditado pelo pai, autor da lei, pelo pai que impede a identificação do suje to com a mãe.

     Recalcada, posta em posição de desconhecida, a pulsão é troca da por um símbolo, por linguagem, precisamente pela demanda.

     O sujeito se engaja então no “desfile radical do discurso” : ele demanda conhecer, possuir. As demandas, sempre insatisfeitas, remetem aos desejos sempre recalcados, e estes desejos tecem entre si um texto de infiadas associações. Um texto cada vez mais indecifrável à medida que outras demandas e outros desejos nele vem se enlaçar ao longo da vida. Aqui se encaixa uma das raras alusões que Lacan fez ao instinto de morte: “Quando queremos atingir no sujeito o que havia antes dos jogos seriais do discurso e o que é primordial ao nascimento dos símbolos, nós o encontramos na morte” (Ecrits, p.320).

     Um caso vem ilustrar tudo isto: o da anorexia mental, ou recusa de alimento, por parte de uma criança. Ela pede, por exemplo, um bombom : esta demanda traduz aparentemente uma necessidade orgânica, mas remete mais profundamente a uma demanda de amor. A criança pede à, mãe que ela manifeste cu confirme seu amor. Uma mãe intuitiva pode compreender a verdadeira demanda e abraçar e beijar a criança ao mesmo tempo que lhe recusa o bombom. Uma mãe menos atenta pode crer simplesmente que há uma necessidade e dar o bombom ou uma porção de bombons; fazendo isto ela não reconheceu a verdadeira demanda. Fartar a criança, satisfazer suas necessidades e mesma prevê-las, para além ou para aquém de suas demandas, acaba por sufocar a demanda de amor. A única saída para a criança é então a de recusar o alimento quando a mãe a farta, para fazer surgir, por via negativa, sua demanda de amor. “É a criança que alimentamos com mais amor que recusa o alimento e usa de sua recusa como de um desejo (anorexia mental). Confins onde se pode perceber como em nenhuma outra parte que o ódio troca a moeda do Amor, mas onde o que não se perdoa é a ignorância” (Ecrits, p. 628).

     Estamos agora em condições de compreender uma das afirmações de Lacan: o desejo do homem é o desejo do Outro (Autre, designado por A maiúsculo). Referindo-se a Hegel, a fórmula se explicita: “O desejo mesmo do homem se constitui sob o signo da mediação, é desejo de fazer reconhecer seu desejo. Tem por objeto um desejo, o desejo do outro, no sentido de que o homem não tem objeto que se constitua por seu desejo sem alguma mediação, o que aparece nas suas necessidades as mais primitivas, no fato por exemplo de que mesmo sua comida deve ser preparada...” (Ecrits, p. 181). O que o homem deseja é que o outro o deseje: ele quer ser aquilo que falta ao outro, ser a causa do desejo do outro. O amante experimenta uma falta mas não sabe o que é que lhe falta; o amado não sabe o que é que ele próprio tem de velado e que no entanto lidera o amante. Entre amante e amado há portanto inadequação, não-coincidência; o que falta ao amante não é necessariamente o que há de velado no amado. O desejo é assim marcado por uma impossibilidade essencial. A adequação, quer dizer, a perfeita coincidência do desejo e do objeto, é um mito, o mito por exemplo do andrógino, do ser que acumula os dois sexos. Quando Lacan fala do outro (a), do Outro (A), o termo deve ser tornado no seu sentido mais radical; aproximamo-nos do tema Hegeliana da alteridade.

     Entre as numerosas referências a Hegel (sobre as quais re-tornaremos em nossa “digressão filosófica” terminal), a mais central continua sendo a da dialética do Senhor e do Escravo descrita por Hegel na Fenomenologia do Espírito.

     Lembramos que para Hegel esta dialética representa a passagem da consciência à consciência de si. A Fenomenologia do Espírito retraça a aventura da consciência infeliz – separada de seu enraizamento natural primitivo – que busca atingir a certeza de si mesma. Ela busca logo de saída essa certeza no gozo das coisas sensíveis e depois em sua destruição. Ela fracassa nesta empresa e compreende que busca em vão sua verdade nas coisas. Descobre então que só uma outra consciência, capaz de amá-la ou odiá-la, pode lhe dar essa certeza de si mesma, quer dizer, a consciência de si. Só uma outra consciência pode reconhece-la e fundar objetivamente essa certeza subjetiva.

     Quando essas duas consciências se encontram, num conflito, uma luta de puro prestígio se declara : c¿da consciência quer ser reconhecida se:m reconhecer do mesmo modo a outra. Podemos mesmo dizer com Hegel que cada qual quer a morte da outra. Deste confronto do qual ninguém deverá morrer, surge a consciência do si. O Senhor é aquele que correu o risco absoluto, que arriscou sua vida para ganhar esta verdade da consciência de si. O Escravo é aquele que recuou diante da morte, diante do “Senhor absoluto”. Opera-se porém uma reversão dialética: – Por um lado, o Senhor é cativo de um falso reconhecimento, pois tem diante de si apenas um escravo incapaz de reconhecê-lo em toda a sua liberdade e verdade. Por outro lado, o Escravo que vive na angústia e o medo do Senhor compreende que não poderá ser verdadeiramente reconhecido por ele; mas estando por seu trabalho em contato com as coisas, descobre que deve retirar das coisas a consciência de si; vai transformar o mundo de tal modo que nele não haja mais lugar para o Senhor.

     Esta dialética da consciência de si, Lacan a transcreve na dialética do desejo; exprime-se em termos hegelianos mesmo quando se refere a Freud: “O desejo do homem encontra seu sentido no desejo do outro, não tanto porque o outro detenha as chaves do objeto desejado, mas porque seu primeiro objeto é ser reconhecido pelo outro” (Écrits, p. 268). Mas quem é então esse outro (a), que ademais é esse “Outro” (A), o grande Outro. Lacan responde resolutamente: “O lugar de deslocamento do discurso”. A dialética sem fim do desejo: o desejo de ser reconhecido por outro vê impor-se a sua condição, quer dizer, a ordem da linguagem : diante dela há um caminho constringente: “o desfile radical do discurso”. As afirmações de Lacan se fazem secantes, decisivas: “Se o desejo está com efeito no sujeito, essa condição, que 1he é imposta pela existência do discurso, de fazer passar sua necessidade pelos desfiles do significante; se por outro lado (...) é preciso fundar a noção do Outro (A) com O maiúsculo como sendo o lugar de desdobramento do discurso; é preciso colocar que, fato de um animal que é presa da linguagem, o desejo do homem é o desejo do Outro” (Ecrits, p. 628).

     Neste ponto do discurso de Lacan, podemos esquematizar as descrições que precedem :

     O desejo, pela demanda, se desdobra no discurso e o lugar desse desdobramento se chama Outro (A). Em sua acepção global, o Outro (A) não é a soma das pessoas interlocutoras, mas a ordem mesma da linguagem. “Isso fala”, diz-se para simplificar e contestar Lacan. Perceberemos melhor, lembrando das pessoas de nosso conhecimento que, para justificar certas decisões às vezes heróicas, tomam simplesmente a fórmula lapidar: “Eu não quero que digam (qu’ON dise) que...” ou mais pessoal ainda: “Eu não quero que seja dito (qu’IL soit dit) que... ”. Estas frases se referem a muito mais do que pessoas conhecidas... Nelas se encontra toda a amplitude de uma Humanidade impessoal, uma coisa que Kant tentou ao mesmo tempo personalizar e formalizar (toda a Humanidade em mim num ato moral...). Estas construções, cuja camada fina de consciência esconde profundezas impenetráveis, fazem também pensar no Outro (A) de Lacan, já que as pessoas o evocam como sendo da ordem da linguagem.

     Numa acepção mais restrita – não contraditória com a que precede o Outro (A) de Lacan designa o inconsciente freudiano: “Ensinamos seguindo Freud que o Outro (A) é o elo dessa memória que ele descobriu sob o nome de inconsciente, memória que ele considera como o objeto de uma questão que restou aberta enquanto condicionada da indestrutibilidade de certos desejos" (Ecrits, p. 524).

     Duas noções vão apoiar essa designação do inconsciente: as noções de Fenda (fente) e de Refenda (refente), com as quais Lacan retoma a noção freudiana (única) de Spaltung: “Aqui se inscreve essa Spaltung última pela qual o sujeito se articula ao logos, e sobre o que Freud ao começar a escrever nos dava, na extremidade última de uma obra com as dimensões do ser, a solução de análise “infinita” quando sua morte escreve ali a palavra Nada” (Ecrits, p. 642).

     A Fente é a divisão do sujeito entre seu psiquismo mais profundo e seu discurso consciente, divisão revelada .pela psicanálise. A ordem da linguagem em que se inscreve o discurso consciente se organiza, numa dimensão à parte, em virtude de suas articulações internas. Ela não se refere diretamente à realidade do mundo ou ao psiquismo dos sujeitos falantes; pelo menos não é constituída por essas referências. Ela se situa e se organiza entre o sujeito e o mundo real. O sujeito é representado nessa ordem por diversas designações: pronome pessoal “eu”, pronome próprio, indicações familiares. Ele é representado mas não presente. A fenda consiste precisamente no fato de o sujeito ser ao mesmo tempo representado na ordem simbólica e excluído dela. A fenda tem por conseqüência uma eclipse (fading) do sujeito. A criancinha recebe e se submete a essa ordem, nela inserindo-se por uma espécie de mimetismo, mas não pode pretender dominá-la. “A criancinha está subdita à sociedade, sua cultura, sua organização e sua linguagem, e dispõe apenas de uma alternativa trágica: ou se adequar a ela ou soçobrar na doença”.

     A fenda se instaura e se situa entre a máscara e o que está por debaixo da máscara. A máscara está do lado da linguagem, do comportamento social: o ego prolifera através dos papéis que recebe ou se outorga. Mas estes papéis são apenas fantasmas, reflexos do verdadeiro sujeito. Este sujeito verdadeiro está por se buscar debaixo da máscara, ns parte recalcada, inconsciente: aí está o trabalho paciente da psicanálise.

     Enquanto que a Fenda (fente) designa o momento em que se instaura a divisão, a Refenda (refente) designa a “petrificação” no estado assim criado, no fato de a sujeito não ser mais que um significante. Ele se congelou nos seus papéis, pode até reconhecer intelectualmente sua parte inconsciente, mas ao mesmo tempo a denega. O sujeito se constrói, se engendra (“parturição”) a si mesmo a partir da sua divisão, de sua “partição” primeira: “Aqui, é de sua partição que o sujeito procede à sua parturição (...) É por isso que o sujeito pode procurar-se o que lhe concerne, um estado que qualificamos de civil. Nada na vida de ninguém desencadeia mais encarniçamento do que atingir isto” (Ecrits, p. 843).

     Mas então, uma vez que a máscara e o papel de cada qual estão com sua parte consciente do lado da linguagem, estará o inconsciente do lado vital e misterioso? Haveria uma verdade da vida inconsciente sob a máscara da linguagem? Tudo que nós encontramos nas reflexões de Lacan sobre a linguagem, sobre o significante primeiro e inconsciente, estaria sendo aqui radicalmente contradito? Recordemo-nos: Lacan apresentava o acesso ao simbólico, à linguagem, como uma ultrapassagem – e uma maturação – em confronto com a relação imaginária (indistinção entre si mesmo e sua imagem, entre si mesmo e a mãe). Cruzando estas duas análises é que nós poderemos compreender o pensamento sutil e profundo de Lacan. Ao sair do estádio do espelho – estádio de relação imaginária – o sujeito entra na ordem simbólica significada pelo pai. trata-se efetivamente de uma progressão que seria perfeita, normal, se o sujeito conseguisse revelar a si mesmo o significante primeiro de seu desejo: o Falo, e disso tivesse sempre consciência (pois entraria, com conhecimento de causa, na ordem simbólica – situação, bem entendido, inteiramente quimérica). Ora, em graus diversos, o sujeito perde de vista o significante primeiro, o Falo, chave da linguagem. O sujeito entra na ordem simbólica por uma série d.e confusões, de alienações do tipo imaginário, na falta de uma lucidez suficiente. Ele não se apercebe de que os prenomes, títulos, papéis, apenas o representam, e tende a se identificar a todas essas máscaras. Em suma, ele se desenvolve dentro do simbólico em uma série de identificações imaginárias. E nós aprendemos com Lacan que a cura consistia em reencontrar juntamente com o doente o significante primeiro: o Falo, de onde parte toda a ordem simbólica, em fazê-lo descobrir sua posição pessoal dentro dessa ordem.

     A verdadeira linha de partição passa definitivamente entre uma linguagem falsa, alienada, porque bordada a partir de uma alienação primitiva e uma linguagem verdadeira, liberada, quer dizer, tecida a partir de um significante primeiro. Mas todos dois, linguagem alienada e linguagem liberada, se situam no confronto com esse grande Outro (A) que é a ordem simbólica global, a Sociedade, a Cultura : a linguagem alienada perdeu suas distâncias, a linguagem liberada mede a distância pessoal do sujeito.

     Para concluir, aqui está o esquema que Lacan nos propõe (Ecrits, p. 53): – o sujeito se endereça aos objetos (outro, a minúsculo) numa relação imaginária e constrói um ego (alienado). Com isto, esquece (e deve reencontrar) que é o Outro (A maiúsculo) absoluto da ordem simbólica que o comanda e o constitui.

 

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