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Da Antropologia à Psicanálise (Lacan)

LIVRO: Problemática do Estruturalismo
AUTORES: Acílio da Silva e Estanqueiro Rocha


     Lacan não põe somente em questão aspectos vários da prática psicanalítica, como também refundiu a própria conceptualização da psicanálise como ciência, através duma interpretação de tipo estrutural. No fundo, é a própria teoria, que fundamenta uma prática, que lhe interessa fundamentalmente.

     Interpreta a psicanálise em termos de cultura. Não se circunscreve à «situação analítica» – como faria um existencialista –, mas o seu objetivo visa conceber as estruturas que permitem atribuir à psicanálise um estatuto científico; daí, que haja neste terreno um encontro com a orientação estruturalista nas ciências humanas, sobretudo Lévi-Strauss, a quem cita várias vezes. «Como psicanalista e durante muito tempo confinado na nossa experiência, vimos – escreve Lacan – que ela se esclarecia ao fazer dos termos onde Freud definiu o uso não de preceitos, mas de conceitos que lhe convém».

     Se o reconhecimento da «eficácia do significante» domina a obra de Lévi-Strauss, em Lacan encontra-se um procedimento análogo: os Écrits constituem um «verdadeiro tratado da onipresença do discurso», se Freud havia esclarecido que há «doenças que falam» e indagado a verdade que elas implicam, o inconsciente, segundo Lacan, não é já propriamente a sede dos instintos, mas «o lugar privilegiado da fala»: o recalcamento não o é duma coisa, mas de um «discurso estruturado que funciona aquém do sujeito consciente». Por isso, o estudo da «cadeia significante» do discurso, segundo a sua organização lógica, pressupõe a revisão do conceito saussuriano do signo.

     «Aprendemos a conceber – diz Lacan – que o significante apenas se mantém num deslocamento comparável ao das nossas bandas de anúncios luminosos ou das memórias rotativas das nossas máquinas-de-pensar-como-os-homens, isso em razão do seu funcionamento alternante em seu princípio, o qual exige que ele abandone o seu lugar, com o risco de aí fazer circularmente retorno». A insistência na cadeia significante é uma das teses basilares da obra lacaniana.

     Interrogando-se acerca do inconsciente, do desejo, da situação da psicanálise no mundo hodierno e do lugar do analista na nossa sociedade, visa fundar a psicanálise como ciência; daí o seu empenho em clarificar os conceitos desta ciência, através daquelas que se encontram no seu campo epistemológico, procurando sempre e acima de tudo prosseguir em fidelidade ao espírito de Freud.

     Deste modo, Lacan mostra que a linguagem inconsciente é um discurso formado por uma variedade de significantes que, em virtude das leis de combinação e substituição, vai elaborando um texto fragmentado e descontínuo, de difícil leitura, cujo sentido se decifra na sua dimensão sincrônica.


1. A supremacia do significante

A/ LACAN E O «RETORNO» A FREUD

     Voltar de novo a Freud é indagar o sentido originário, reavivar o que ele disse, relê-lo, perante as múltiplas interpretações que vêm sendo dadas da sua obra. Neste aspecto, Lacan tem o mérito de rejeitar o jogo dos que pretendem reduzir o espírito à letra e dele fazer uma simples técnica. A introdução de novos conceitos visa não tanto aperfeiçoar as ideias de Freud, mas formalizar a sua conceptualização, restituindo-lhe a dinâmica com que o fundador da psicanálise as dotara.

     Como Freud no seu tempo, o intuito lacaniano é situar a psicanálise nos novos horizontes culturais; assim como a obra de Freud está marcada pelo seu mundo cultural, também Lacan insere a psicanálise num mundo culturalmente diversificado e determinado por novas exigências epistemológicas das ciências humanas. «A técnica não pode ser compreendida nem, portanto, corretamente aplicada, se se desconhecem os conceitos que a fundamentam. A nossa tarefa será – continua Lacan – de demonstrar que esses conceitos só tomam o seu sentido pleno, orientando-se num campo de linguagem, ordenando-se à função da fala» ’º. Este é, com efeito, o horizonte estruturalista: a ciência, a arte, a atividade dos humanos, deve ser vista no terreno da linguagem.

     Para isso recorre às aquisições da lingüística estrutural: «A lingüística pode aqui servir-nos de guia, pois que está aí a função que ela tem na vanguarda da antropologia contemporânea, a que não poderíamos ficar indiferentes».

     Uma psicologia de tipo experimental, que caracterize os fenômenos psíquicos numa relação estímulo-resposta (causa-efeito), apoiada numa perspectiva diacrônica, não poderia esclarecer o tempo psíquico – de índole sincrônico; a linguagem do psiquismo é mediada por uma estrutura. simbólica que não pode ser apenas considerada a um nível experimental.

     De igual modo Lacan se opõe ao culturismo e neofreudismo americanos (K. Horney, E. Fromm), que minimizam o papel da sexualidade na vida psíquica; influenciados por Adler, confinam a psicanálise aos instintos de vida (fortalecimento do eu individual). O culturalismo transporta a psicanálise para o domínio social, mas circunscrevendo-a a uma técnica adaptativa do indivíduo ao status; ela é, assim, submetida ao pattern; há uma extrapolação, em que os conceitos orientadores da técnica não são devidamente fundamentados” [1].

     Neste aspecto, a psicologia clássica (ortodoxa) revelou-se como dogmática, e até narcisante, sacralizando os seus conceitos; termos como pulsão, instinto, tendência, motivação, inconsciente (lugar de «forças» recalcadas), dão lugar à elaboração duma psicologia estrutural que se fundamente na relação do organismo com o seu meio de existência para descobrir as estruturas constantes desta relação – formas que organizam a percepção e a própria ação. A estrutura é, neste sentido, uma forma vazia mas dinâmica, que dá uma forma, e, portanto, uma significação aos conteúdos diversos que a venham preencher; em suma, trata-se duma estrutura estruturante”. E, nesta seqüência, que se estuda a linguagem, a busca de informação, o inconsciente (na esteira de Lévi-Strauss) como estrutura formal; depois, mostra-se que as estruturas do inconsciente não são da ordem do significado, tal como a gramática não é um discurso, embora não haja discurso sem gramática.

     O interesse pela linguagem não se limita a uma busca dum modelo; significa que, sendo instrumento de cura, é sobretudo o princípio do seu poder: não é somente modelo, mas fundamento constitutivo da sua eficácia. R assim que Lacan mostra que Freud fundou uma ciência, não relegando a psicanálise para uma simples técnica – uma ciência nova com um objeto novo: o inconsciente.

     Se é ciência, deve corresponder à estrutura epistemológica de qualquer ciência: ela «possui uma teoria e uma técnica (método) que permitem o conhecimento e a transformação do seu objeto numa prática específica; como em qualquer ciência constituída, a prática não é o absoluto da ciência, mas um momento teoricamente subordinado: o momento em que a teoria tornada método (técnica) entra em contacto teórico (conhecimento) ou prático (a cura) com o seu objeto próprio (o inconsciente)».

     Uma psicanálise como mera técnica representa, segundo Lacan, um desvio ao espírito de Freud, porquanto, sem um objeto definido, apenas pode aspirar a resultados pontuais; reduz-se a um rito mágico; esvazia os conceitos psicanalíticos da afetividade que os informa e transforma-se numa «ciência do eu», e sobretudo do eu do analista. «Uma técnica se transmite aí, de um estilo enfadonho, mesmo reticente na sua opacidade, e que qualquer arejamento crítico parece transtornar. Na verdade, tomando o jeito dum formalismo levado até ao cerimonial e, de tal modo, que se pode perguntar se não cai na mesma aproximação com a neurose obsessiva, pela qual Freud visou de modo tão convincente o uso, senão a gênese, dos ritos religiosos»[2].

     A sexualidade – o falo[3] –, como significante primeiro do inconsciente e motor da vida psíquica do indivíduo, através dum discurso cuja sintaxe é diversa da do discurso consciente, é preterida por tais práticas, patenteando-se aí um dos mais graves desvios da teoria de Freud.

     Deste modo, a prática analítica comum tem descurado «os segredos teóricos» da psicanálise. «Freud disse e repetiu – escreve Althusser – que uma prática e uma técnica, ainda que fecundas, não poderiam merecer o nome de científicas, a não ser que uma teoria 1hes conferisse, não por simples declaração, mas por fundação vigorosa, o direito. A primeira palavra de Lacan é de tomar esta palavra à letra. E dela tirar a conseqüência: voltar de novo a Freud para buscar, discernir e apreender nele a teoria de que tudo o resto, tanto a técnica como a prática, surgiu por direito» ”. «Voltar de novo a Freud» – como Lacan preconiza – significa um retorno ao estudo da fala na linguagem e do significante que se constitui no sujeito.

     A linguagem preexiste com a sua estrutura ao ingresso nela de cada sujeito, num momento do seu desenvolvimento psíquico; o sujeito participa num discurso universal, no qual o seu lugar singular está já inscrito desde o seu nascimento, pelo menos na forma do seu «nome próprio». Por isso Lacan apresenta uma concepção da condição humana não propriamente binária (natureza e cultura) mas antes ternária (natureza, sociedade e cultura), na qual a cultura se reduz porventura à linguagem – fator que distingue a sociedade humana das sociedades animais naturais ”.

     Compreende-se assim que Althusser insista na obra científica de Lacan, escalpelizando as práticas psicanalíticas «reconhecidas» mas suspeitas. Segundo ele, a «Razão Ocidental» não autorizaria que «após anos de desconhecimento, desprezos e injúrias», se viesse a concluir «um pacto de coexistência pacífica com a psicanálise», senão condicionando-a às suas próprias ciências e mitos: à psicologia, quer ela seja behaviorista (Dalbiez) ou fenomenológica (Merleau-Ponty) ou existencialista (Sartre) ; à bioneurologia, mais ou menos jaksoniana (Ey) ; à «sociologia» de tipo «culturalista» ou «antropológica» (dominante nos E.U.A.: Kardiner, M. Mead, etc.) e à filosofia (cf. a «psicanálise existencial», etc.). A estas confusões e mistificações da psicanálise, como disciplina reconhecida oficialmente, à custa de «alianças-compromissos selados com categorias imaginárias de adopção», os psicanalistas subscreveram-nas – «demasiado felizes por deixarem finalmente o seu gueto teórico. Não se acautelaram contra o rodeio suspeito desse compromisso, «crendo que o mundo se rendia às sua razões», quando eles mesmos se rendiam às razões deste mundo, «preferindo as suas honras às suas injúrias» ”.

     O espírito freudiano deve haurir-se de preferência na sua Metapsicologia, onde se encontram delineados os princípios teóricos da psicanálise, e não tanto na obra analítica do fundador desta ciência que, por ser sobretudo de índole descritiva, é também demasiadamente circunstancial; ora fundamentar uma teoria numa casuística conduz, por regra, a mistificações: não é a via própria da ciência.

     Lacan interpreta a psicanálise em termos de cultura e não de natureza: novo encontro com Lévi-Strauss; ao liberar pela palavra, a psicanálise põe o indivíduo em relação com uma cultura.

     Se é de rejeitar qualquer paralelismo valorativo entre a criança, o primitivo e o neurótico, há contudo uma confluência nas relações com a Lei – o Simbólico. A criança não pode dar razão da Lei à qual obedece, tal como o primitivo ignora a razão profunda das regras que regulam as uniões entre primos cruzados, ou o neurótico não sabe explicar as situações ou manifestações que irresistivelmente assomam. Na verdade, como diz Lacan, eles são habitados pelo significante: a função simbólica sobredetermina.

B/ INSISTÊNCIA DA CADEIA SIGNIFICANTE

     No intuito de ilustrar a eficacidade do simbólico e o estatuto do significante tem interesse demorarmo-nos um pouco na interpretação lacaniana do conto de Edgar Poe, que Baudelaire traduziu por La Lettre volée, com a qual Lacan abre a série de trabalhos que reuniu nos Ecrits, atribuindo-1he «o privilégio de abrir a sua seqüência apesar da diacronia desta». A palavra circula por cada um dos participantes e atua. transformando-se: desenvolve-se segundo um jogo específico; ora, a combinatória de elementos como um jogo sem centro implica a referência a um plexo de relações. A suspeita deve recair sobre qualquer verdade que se oculte na evidência dum discurso.

     A noção do «significante flutuante», como excesso de significante não ainda utilizado para significar, havia sido explicitada por Lévi-Strauss; assim, a autonomia do significante por relação com o significado passa por tal concepção. No entanto, o domínio de aplicação não é agora a etnologia; a sua aplicação à psicanálise explica as transformações que Lacan introduz; com efeito, a ordem simbólica será agora substantivada, suportando-se como tal e não sendo mais suportada por nada.

     Se para P. Ricoeur o símbolo freudiano significa sempre e acaba por remeter para uma transcendência, Lacan mostra em La Lettre volée a supremacia da cadeia significante, e que a verdade reside num vaivém entre os que a dizem: «A nossa pesquisa, diz Lacan, conduziu-nos a reconhecer que o automatismo de repetição (Wiederholungszwang) toma o seu princípio naquilo que designá-mos por insist8ncia da cadeia significante».

     Invoquemos sucintamente a encenação da trama. As cenas são fundamentalmente duas: a primeira – a «cena primitiva» –, da qual a segunda pode ser considerada como a repetição.

     A «cena primitiva» desenrola-se na antecâmara real: a rainha recebe uma missiva, mas tem que a dissimular entre outros papéis, pois o rei entra; poderia ser um documento comprometedor para a honra ou segurança da rainha. O ministro, que entra também, nota o embaraço da rainha e adivinha a possível causa; tira do bolso uma carta de semelhante aparência, finge 1ê-la e troca-a pela primeira. A rainha viu a artimanha, mas dissimula a sua perplexidade, para não provocar as suspeitas do rei. Ela sabe, pois, que o ministro possui a carta e o ministro sabe também que a rainha observou o seu gesto.

     A segunda cena, com um trajeto paralelo à primeira, é dalgum modo a sua «repetição», o que manifesta já um gênero de insistência intersubjetiva, que ocorre no gabinete do ministro. Então, Dupin, enviado pelo Prefeito da polícia, faz-se anunciar ao ministro; a polícia, aproveitando as freqüentes saídas do ministro, há dezoito meses que rebuscava os seus aposentos, sem contudo encontrar a carta. Recebe a Dupin com uma insolência ostentada, e o visitante, com o seu olhar encoberto por óculos escuros, acaba por se aperceber dum documento amarrotado, como que abandonado – o que constitui a mais eficaz das dissimulações. Dupin convence-se que está aí o documento procurado; finge esquecer--se da tabaqueira e retira-se. A seqüência desta segunda cena apresenta Dupin que volta no dia seguinte, trazendo um documento que simula o aspecto da carta. Um incidente na rua, previamente preparado, leva o ministro à janela. Dupin aproveita o ensejo para se apoderar da carta, substituindo-a por outra, semelhante na aparência.

     Vários aspectos se podem apresentar e que caracterizam este encadeamento de situações, a que Lacan dedicou um seminário. Primeiramente, a segunda cena (e a sua seqüência) está em simetria inversa com a primeira; contudo, algo é diferente: o ministro não sabe que a carta foi substituída, enquanto a rainha o sabe. No entanto, a carta que desencadeou toda esta situação dramática é, para Lacan, um significante; um significante a que corresponde certamente um significado; o significado (o símbolo) permanece subjacente e oculto, como a parte imersa dum iceberg, ou ainda, como «o fogo central da terra», através dos dados refúlgidos da linguagem. Todavia, a carta, enquanto significante, não faz chegar a sua mensagem sem percorrer um certo trajeto, instaurando um movimento intersubjetivo, de que o lugar de articulação é a cadeia significante.

     Também ao longo de todos esses deslocamentos, cada qual foi alternadamente representado através dum olhar diferente e simbólico: o rei nada viu; a rainha viu mas não podia intervir; a polícia, rebuscando, não viu a missiva que estava à vista; o ministro não viu a manobra de Dupin.

     E a partir da trama intersubjetiva que Lacan se esforça por nos fazer compreender o que Freud reconheceu como «automatismo da repetição». Para Lacan, o que interessa é a maneira como os sujeitos se revezam nos seus deslocamentos, no decurso dessa repetição intersubjetiva. Constata-se afinal que o seu desloca-mento é determinado pelo lugar que vem a ocupar esse significante; isso manifesta o automatismo da repetição ". Lacan atende à peculiaridade dos olhares que observam uma carta que circula através duma cadeia, perante a cumplicidade de uns e o despercebimento de outros, dissimulada sob vários significantes, mas cujo significado – a mensagem – permanece oculto, embora suposto como objeto de cuidados para a rainha.

     Todas as deslocações giram em torno dum significante – um documento escrito –, em que cada personagem conhece sucessivamente as aparências mas ignora o conteúdo. Eis o que ilustra a supremacia do significante, isto é, da linguagem retórica e ideológica, patenteada pelos substitutos da carta.

     Ilustra-se o lugar do inconsciente, simultaneamente próximo e remoto. «O inconsciente, a partir de Freud, é uma cadeia de significantes que algures (noutra cena, escreve ele) se repete e insiste para interferir nos cortes que lhe oferece o discurso efetivo e a cogitação que ele informa» “. Se para Lévi-Strauss o inconsciente é «um sistema simbólico», também para Lacan «o homem fala mas é porque o símbolo o fez homem». Com efeito, o significante circula: o rei não o vê, a rainha não pode dizer nada, o ministro não sabe como proceder, a polícia não o vê primeiramente: «o Inconsciente é o Outro». A verdade do inconsciente é que o homem é habitado e transformado pelo significante.

     Ilustra-se igualmente a cadeia da linguagem, até nos seus aspectos (nos seus substitutos) retóricos e ideológicos: esse significante circula, efetua um trajeto e, no seu percurso, é mudado por substitutos. Na narrativa, todos entram em jogo. Há uma verdade que aflora e se oculta; isso esclarece a recorrência de Lacan a Heidegger e ao termo άληθής. Há uma verdade que deslumbra: é evidente, oculta-se e ninguém a vê. Ela estava em lugar bem visível, onde todos a podiam ver, mas onde ninguém a vê. Edgar Poe refere um «outro lugar», Freud diria uma «outra cena». É neste jogo que Lacan ilustra a relação de significante e significado. O deslocamento do significante determina os sujeitos em seus atos, destinos, e ninguém poderá eximir-se a esta lei: «A carta, tal como o inconsciente do neurótico, não o esquece. Esquece-o tão pouco que ela o transforma».

     O «verdadeiramente verdadeiro» reconhece-se por certos indícios, estranhos e singulares; a carta circula, mas ficam pequenos «restos», alguns traços, certas suspeitas, aliás significativos da sua mensagem autêntica. O método da suspeita inscreve-se na indagação da verdade. As palavras e os escritos, que circulam entre os humanos, não são desvelados por uma via de tipo fenomenológico; não é a atividade da consciência – o cogito – que elucida acerca do verdadeiro: «a ordem do símbolo não pode ser concebida como já constituída pelo homem, mas como constituinte».

     Na narrativa, o sujeito não é autor mas ator, impossibilitando-se uma representação lógica da consciência. Na cadeia intersubjetiva, de que a carta é o significante, intervêm vários sujeitos: o rei, o detentor da autoridade, isto é, o lugar da Lei e da ordem (política, religiosa e moral), perante a qual se situa a mensagem comprometedora da carta e a atuação dos diversos intervenientes. Afinal, acabam por circular várias simulações: três significantes portanto, sendo o significado de um deles expresso em linguagem metafórica, cujo sentido não se divisa facilmente, permanecendo a mensagem insistentemente oculta:

... Un dessein si funeste
S'il n’est digne d’Atrée, est digne de Thyeste “.

     Lacan procura mostrar que o automatismo da repetição toma o seu princípio na insistência da cadeia significante. Com efeito, o significante antecipa-se sempre ao sentido; há sempre um deslize incessante do significado por relação ao significante. Esta primazia atribuída ao significante, em cuja cadeia insiste o sentido antes de se manifestar, contesta o primado da consciência e os fundamentos das filosofias da consciência: a referência primordial não é ao sujeito constitutivo mas ao desenvolvimento dum discurso.

     «O inconsciente é o Outro» pressupõe a referência a um aquém onde o reconhecimento do desejo se enlaça com o desejo do reconhecimento que brota das estruturas profundas da cultura e da linguagem; somente com o surgimento desta emerge a dimensão da verdade. «Também quando nos propomos – escreve Lacan – entender a maneira como Martin Heidegger nos descobre no termo άληθής o jogo da verdade, dispomo-nos a encontrar um segredo onde esta tem sempre iniciado os seus amantes, e de que eles se asseguram que é no que ela se esconde, que ela se lhes oferece o mais verdadeiramente».

     Por outro lado, a cadeia significante é correlativa da ek-sistência, isto é, «do lugar excêntrico» do sujeito. O lugar que ocupa o sujeito do significante é excêntrico por relação ao que o sujeito do significado ocupa; a questão, afinal, é saber «se quando falo de mim sou o mesmo de quem estou falando».

     Há, portanto; uma carta que está aí, na presença da sua“ ausência, através das dissimulações introduzidas no movimento intersubjetivo; assim, Lacan diz que o «significante é unidade de ser único, não sendo por sua natureza, símbolo senão duma ausência» “.

     A insistência no significante e no seu encadeamento mostra que a relação significante-significado não se exerce segundo uma correspondência biunívoca, mas de um modo esquivo, fugidio e flutuante. Lacan afirma que é «a lei própria a esta cadeia que rege os efeitos psicanalíticos determinantes para o sujeito: tais como a rejeição ou repúdio (Verwerfung), o recalcamento (Verdrängung), a própria (de)negação (Verneinung),– precisando com o acento que aí convém que esses efeitos seguem tão fielmente o deslocamento (Entstellung) do significante que os fatores imaginários, apesar da sua inércia, apenas fazem aí figura de sombras e de reflexos».

     Se o inconsciente é o discurso do Outro, isto significa que o Outro não é somente a outra pessoa, mas o ordenamento da linguagem, que transmite e dissemina a cultura no sujeito; e se a «ordem do símbolo não pode mais ser concebida como já constituída pelo homem, mas como constituindo-o» ’º, é que a função simbólica verdadeiramente sobredetermina. Ela caracteriza-se como sendo um conjunto diacrítico de elementos inarticulados, como tais privados de sentido, mas que constitui uma estrutura articulada e autônoma: é uma combinatória, uma ordem sem origem. O seu não sentido é o próprio do inconsciente. A partir de Freud, como refere Lacan, «o centro do ser humano já não está no mesmo lugar que toda uma tradição humanista 1he assinalava», a subjetividade realiza-se na e pela intersubjetividade.

     Sabe-se, como diz A. Hesnard, «que muito se tem abusado da fala, mas sabe-se também que ela pode facilmente ocultar a verdade, da qual é, todavia, o principal veículo, em particular enquanto necessidade social e, mais profundamente, como exigência de comunicação. Freud conhecia o seu valor primordial (...). Foi a técnica da linguagem na sua forma de fala, que mais eficazmente atraíu a investigação de Lacan. Depressa discerniu que na linguagem, como no sonho, jaz a articulação do ser e do desejo humanos. Desejo que Freud ensinava como inextinguível, jamais satisfeito inteiramente nas suas inúmeras formas, e que interroga a semântica da linguagem». A ordem simbólica antecipa-se, pois, por relação aos sujeitos por ela envolvidos, segundo um jogo de significantes, de natureza inconsciente.

C/ A LINGUAGEM E O ALGORITMO SAUSSURIANO

     A unidade do signo lingüístico representa-se, segundo Saussure, sob a forma duma relação entre o significante e o significado, conforme referimos no início deste trabalho. O signo lingüístico é o resultado da associação entre o significante e o significado.

     Lacan retoma o algoritmo saussuriano, mas interpreta-o diversamente; "esse algoritmo é o seguinte:

que se lê: Significante sobre significado, correspondendo o sobre à barra que separa as duas etapas". De articulação, a barra torna-se censura; o significante S é uma unidade de ser único, apenas sendo, por sua natureza, símbolo duma ausência; o significado s é o sentido da nossa experiência, o recalcado separado do significante, pela censura da barra. Como diz Lacan, "há a dificuldade fundamental que o sujeito encontra no que tem para dizer; a mais comum é a que Freud demonstrou no recalcamento, isto é, essa espécie de discordância entre o significado e o significante, que determina qualquer censura de origem social". A linguagem pode significar outra coisa do que aquilo que efetivamente enuncia: significante e significado constituem, portanto, duas redes cujas relações não coincidem. A rede do significante é, para Lacan, "a estrutura sincrónica do material da linguagem, enquanto cada elemento aí toma um emprego exato, por ser diferente dos outros" ": o uso e a definição de cada um dos elementos está determinado pela oposição dos outros; a rede do significado corresponde ao "conjunto diacrónico dos discursos concretamente pronunciados, o qual reage historicamente sobre a primeira, do mesmo modo que a estrutura desta comanda as vias da segunda. Aqui o que domina, é a unidade da significação, a qual se reconhece não se resolver nunca numa pura indicação do real, mas reenviar sempre para uma outra significação".

     Em Saussure, o significante aparece sob a barra e todos os seus esquemas são, neste aspecto, equivalentes:

     Roland Barthes inverte o esquema saussuriano, apresentando-o assim: «Sa/Sé»; contudo, Barthes interpreta-o em termos saussurianos. Ora, com Lacan, há quatro aspectos distintivos, acerca do algoritmo:

     1. O desaparecimento duma correspondência entre os termos inscritos sobre e sob a barra; o significante é constituído "por uma corrente com níveis múltiplos (cadeia metafórica): significante e significado estão numa relação flutuante e só "coincidem em certos pontos de ancoragem".

     2. Desaparecimento da elipse saussuriana, que indicava a unidade estrutural do signo lingüístico. Com efeito, a lógica fundadora da teoria lacaniana manifesta-se pelo algoritmo assim transformado; se Saussure coloca o significado em primeiro lugar por relação ao significante, Lacan confere primazia ao significante. A unidade estrutural do signo é desfeita, pois a elipse que figura na fórmula de Saussure, desaparece agora; realça-se, deste modo, a autonomia do significante. "Com a segunda propriedade do significante de se compor segundo as leis duma ordem fechada, afirma-se a necessidade do substrato topológico de que o termo de cadeia significante, que habitualmente uso, dá uma aproximação: anéis cujo colar se sela no anel dum outro colar feito de anéis".

     3. Substituição na fórmula saussuriana da expressão "duas faces" do signo por "duas etapas". A significação deixa de consistir na relação entre significado e significante como Saussure propôs; ela complexifica-se: o significante entra em relação com outros significantes - qual cadeia de significantes -, intervindo na significação um jogo entre significantes, qual jogo inconsciente: a significação deixa de ser imediata; "donde o poder dizer-se que é na cadeia do significante que o sentido insiste, mas que nenhum dos seus elementos consiste na significação de que é capaz no próprio momento".

     4. Enfim, a insistência na barra que separa o significante S (maiúsculo) do significado s (minúsculo e em itálico) tem também "um valor próprio (que não tinha evidentemente em Saussure): representa o recalcamento do significado".

     Com Saussure, era a relação constitutiva do signo lingüístico e a sua indissociabilidade que prevalecia, como o ilustra claramente o exemplo do verso e anverso duma mesma folha de papel, ou ainda a duplicidade de flechas de sentidos inversos que enquadram o esquema do signo. Com Lacan interpõe-se uma barra resistente à significação, o que altera profundamente a concepção de Saussure. O que é inicial em Saussure é a relação; agora Lacan introduz uma resistência na transposição da barra. Se Lacan tanto insistiu na barra do algoritmo, é que ela indica a resistência à significação; se na língua manifesta o desvio do espírito na busca do sentido, na psicanálise simboliza o recalcamento do significado.

     Segundo Lacan, a "rede do significado é o conjunto diacrónico dos discursos concretamente pronunciados"; esta referência aproxima-se um tanto do estatuto da fala que, em Saussure, é uma variação efetiva, pessoal da língua (ou código); com efeito, o conjunto dos significados não se comporta passivamente perante a "rede dos significantes". Em suma, a análise lacaniana postula o código da língua. Não obstante, o significado não se traduz por uma referência nítida à coisa representada ou imaginada: o significado permanece flutuante; o conjunto ao qual se conecta não tem propriamente coerência; ou a sua coerência advém-lhe da "rede dos significantes. Em suma, a análise lacaniana postula - como já pretendeu mostrar o seu seminário La Lettre volée - a supremacia do significante.

     A emergência duma ciência não se traduz simplesmente com o mero tratamento dum novo objeto empírico, mas com a determinação duma conceptualidade que lhe corresponda; é esta determinação que Lacan interpreta como a posição inaugural dum algoritmo: "Para apontar a emergência da disciplina lingüística diremos que ela se situa, como é o caso de qualquer ciência no sentido moderno, no momento constituinte dum algoritmo que a funda". O algoritmo, segundo a interpretação de Lacan, visa destruir a alusão representativa do signo: traduz o signo enquanto não significa segundo o modo de representação do significado pelo significante. Nenhum dos conceitos da teoria saussuriana desaparece; simplesmente o sistema é subvertido.

     Neste sentido, o conceito de letra alude a esse "suporte material que o discurso concreto" manifesta, no circuito específico dos significantes que o sujeito põe em ação: a "palavra viva" resulta da cadeia de significantes, do "deslizamento original" de um no outro. No domínio psicanalítico, a articulação língua/fala reveste-se duma concepção em que a estrutura precede o sujeito e em que este esta envolvido nessa estrutura; por isso "o inconsciente está estruturado como uma linguagem"; o que a letra indica é o resultado sintomático atual e individual do sujeito, na sua língua e no seu contexto cultural. Referir a materialidade significa que a linguagem não é visualizada com origem na idealidade do sentido ou na materialidade simplesmente somática. Explicita-se ao mesmo tempo a determinação da linguagem no inconsciente: este deixa de ser visto segundo a óptica estreita de sede dos instintos; contudo referir a materialidade da linguagem não significa o uso de categorias do materialismo clássico; não se trata dum gênero de materialidade substancial: "a letra é material, mas não substância".

     A letra traduz "o suporte material que o discurso concreto vai buscar à linguagem. Esta simples definição supõe que a linguagem não se confunde com as diversas funções somáticas e psíquicas que a servem no sujeito falante". Deste modo, o sujeito colhe, aquando do ato de elocução (que é o ato de relação com outrem), do material constituído que lhe fornece a linguagem; por outro lado, o sujeito apenas entra na transindividualidade enquanto para tanto está já implicado num discurso suportado, isto é, também ele determinado pela instância desta materialidade singular que é a letra O sujeito inscreve-se, já pelo seu nome, no movimento universal do discurso. Como escreve Lacan, "a referência à experiência da comunidade, assim como à substância desse discurso, não resolve nada. Porque essa experiência toma a sua dimensão essencial na tradição que instaura esse discurso. Esta tradição, muito antes que o drama histórico se inscreva nela, funda as estruturas elementares da cultura. E essas mesmas estruturas revelam uma ordenação das trocas que, ainda que inconsciente, seria inconcebível fora das permutas que a linguagem permite". Com efeito, a linguagem é também constituinte da cultura.

     O inconsciente, apenas como sentido, não tendo uma letra (a linguagem nas suas transcrições culturais) não se constitui como objeto de ciência. A descoberta freudiana, como Lacan o recorda, parte da histeria, da inscrição duma letra num corpo: "A fala, com efeito, é dom de linguagem, e a linguagem não é imaterial. E corpo subtil, mas é corpo. As palavras são tomadas em todas as imagens corporais que cativam o sujeito; elas podem engrossar o histérico (...)". É, portanto, o significante que se localiza na letra, que aí encontra a sua inscrição material. Localização e materialidade: tais são as características da letra, sempre inscrita no corpo, ela mesma sempre corpo '. A letra mostra o lugar em que o encadeamento de significantes se fixou: é um sintoma, ou o resíduo dum drama.

     O significante, que Saussure pôs em correlação com o significado no algoritmo do signo lingüístico, não existe agora com vista a uma significação imediata: não existe para significar o significado. A barra passou de traço de ligação para ilustrar a barreira resistente à significação. O sujeito torna-se, então, não o "titular" da significação mas instrumento da linguagem; é subvertida toda a tradição filosófica do sujeito enquanto autônomo e livre. A subjetividade não é causa da cadeia dos significantes mas o seu efeito; se subjetivo quer dizer "o ponto de vista do sujeito sobre si mesmo", que vai da expressão dos seus estados de alma à introspecção mais minuciosa, então o sujeito de que fala Lacan só é subjetivo num campo preciso da sua estrutura, aquele onde existe uma imagem de si mesmo - o campo do Eu; mas a totalidade das instâncias que o determinam transbordam esse campo. A cadeia de significantes manifestam o sujeito, mas somente e na medida em que o produzem.

     O sujeito do discurso concreto está não somente submetido à linguagem como estrutura, mas ainda, e até previamente, à realização do discurso do Outro na sua própria linguagem: "Que a questão da sua existência banhe o sujeito , o suporte, o invada, até o rasgue em todos os sentidos, é o de que as tensões, as oscilações, os fantasmas que o analista encontra, lhe testemunham; é ainda necessário dizer que é a título de elementos do discurso particular, onde esta questão se articula no Outro. Porque é em virtude desses fenômenos se ordenarem nas figuras deste discurso que eles têm fixidez de sintomas, são lisíveis e se resolvem quando são decifrados" Com efeito, não há sujeito que não seja, para Lacan, já e sempre sujeito social, isto é, sujeito de comunicação em geral.


2. O acesso ao simbólico

     A linguagem, como vimos, constitui o sujeito pela ordem simbólica; ela transcreve-o por uma corrente de significantes, a partir da infância; os significados somente são variações individuais e apenas adquirem sentido integrados na coerência da "rede significante".

     Desde 1936, Lacan analisa, no que denomina estádio do espelho, um momento genético primordial, como o primeiro esboço do eu; em Le stade du miroir comme formateur de la fonction du Je, insiste na importância da eficacidade simbólica, ligada ao papel da imago.

     Tal como em Lévi-Strauss, é pela instauração da ordem simbólica que se opera a passagem da existência meramente natural para a cultural; esta ordem é formalmente análoga à ordem da linguagem. A primazia do significante, que Lacan sustém, resulta do passo da natureza à cultura, da animalidade à humanidade. A ordem simbólica - a ordem da linguagem - não permite um acesso direto do sujeito a si mesmo, mas sempre por uma relação mediada. O acesso ao simbólico depende sobretudo da resolução do Édipo; ai, Lacan distingue dois momentos: a fase pré-edípica, que corresponde à linguagem imaginária, e a fase edípica na sua resolução, que concerne já a linguagem simbólica.

     Do ponto de vista da estrutura do indivíduo, aquilo que Lacan chama "estádio do espelho" assinala um momento fundamental: primeiramente, a criança toma consciência do seu corpo, concebido como objeto exterior; todavia, num segundo momento, ela tenta agarrar essa imagem, mas descobre que nada há por detrás do espelho: este eu "refletindo-refletido" não remete para qualquer objeto exterior; por fim, compreende que não somente o outro do espelho é uma imagem, mas que essa imagem é a sua. A análise lacaniana torna compreensível a angústia que surge na relação com a mãe, simples reflexo do seu próprio corpo, o "outro" do espelho que nunca pode ser possuído. Assim, o infans (o que ainda não fala), através dum semelhante (a sua imagem, ou a da mãe, ou de outro menino) estabelece uma relação dual e imediata; é a fase do narcisismo primitivo.

     Por outras palavras, a criança confunde-se com a sua própria imagem-objeto, indistinção entre sujeito e objeto, entre eu e tu; com efeito, a subjetividade implica separação de termos e não identificação. "A assunção jubilatória, diz Lacan, da imagem especular pelo ser ainda submergido na impotência motriz e a dependência da amamentação que é o pequeno homem nesse estádio infans, parecer-nos-á manifestar desde então numa situação exemplar a matriz simbólica onde o eu se precipita numa forma primordial, antes de objetivar-se na dialética da identificação com o outro e da linguagem lhe restituir no universal a sua função de sujeito"; a criança percepciona na imagem especular uma forma (Gestalt) em que antecipa - e daí o seu júbilo - uma unidade corporal que lhe falta: identifica-se com essa imagem. A relação dual e imaginária, como se manifesta no "estádio do espelho" (entre os seis e os dezoito meses), identifica os dois elementos do algoritmo saussuriano; na ordem imaginária não se dá uma distinção entre significante e significado.

     "O que eu denominei - escreve Lacan - o estádio do espelho tem o interesse de manifestar o dinamismo afetivo por onde o sujeito se identifica primordialmente com a Gestalt visual do seu próprio corpo: ela é, por relação com a incoordenação ainda muito profunda da sua própria motricidade, unidade ideal, imago salutar". O espelho fornece-lhe uma imagem adequada do seu eu que, através dela, se descobre. O jovem chimpanzé, ao ver-se ao espelho, desinteressa-se rapidamente da sua imagem; a criança, ao contrário, a partir dos seis meses, sente alegria em contemplar-se. Encontramos as primeiras manifestações desta situação na captação do sentido do espaço; no espelho, a criança estabelece uma relação entre o organismo e a realidade: "A função do estádio do espelho reconhece-se desde então para nós como um caso particular da função da imago, que é de estabelecer uma relação do organismo à sua realidade - ou, como se diz, da Innenwelt à Umwelt". Nesta fase, a criança opõe-se a si mesmo, narcisisticamente, ao mesmo tempo que se sente atraída pela sua imagem; ao olhar para o espelho (ou para o outro), encontra nele a presença plena do seu eu.

     Esta experiência organiza-se em torno de três tempos fundamentais: inicialmente tudo se passa como se a criança percebesse a imagem do seu corpo como a dum ser real que ela se esforça por apreender; isto é, há "uma confusão primeira entre si e o outro", contusão largamente confirmada pela relação estereotipada que a criança mantém com os seus semelhantes. O segundo momento constitui uma etapa decisiva no processo de identificação: a criança descobre que o outro do espelho não é um ser real mas uma imagem; o seu comportamento mostra que ele sabe doravante distinguir a imagem do outro, da realidade do outro. O terceiro momento põe em relação dialética os dois momentos anteriores, não somente porque a criança se assegura que o reflexo do espelho é uma imagem, mas sobretudo porque "adquire a convicção que apenas é uma imagem que é a sua"; "a imagem do corpo é, pois, estruturante para a identidade do sujeito que aí realiza a sua identificação primordial"

     Lacan analisa, pode-se dizê-lo, os dois momentos fundamentais de manifestação da pessoa: a vivência do espelho (stade du miroir) e a situação de Édipo. Contudo, na fase eclípica, a ordem simbólica manifesta-se já enquanto discurso, como linguagem determinante e criadora de significados. O complexo de Édipo significa "o que o sujeito pode conhecer da sua participação inconsciente no movimento das estruturas complexas da aliança, verificando os efeitos simbólicos na sua existência particular do movimento tangencial para o incesto, que se manifesta desde o surgimento duma comunidade universal".

     Na verdade, a relação dual é profundamente transformada com a aparição dum terceiro elemento - que se revela como símbolo da interdição; o pai priva a criança do objeto do seu desejo e proibe-lhe a posse da mãe: afinal, impõe-lhe a Lei, que é Palavra também reconhecida pela mãe; passa-se da relação diádica mãe-filho, para uma relação triangular pai-mãe-filho, efetuando-se assim a descoberta da sociedade e, por oposição, a do próprio eu. "E no nome do pai que é necessário reconhecer o suporte da função simbólica que, desde a orla dos tempos históricos, identifica a sua pessoa à figura da lei"; o nome do pai, segundo Lacan, aparece como termo mediador, é o "portador da Lei": inscrevendo-se no discurso do pai, a criança conquista a sua identidade. E o momento da privação e da ruptura da dualidade imaginária: o filho é privado do objeto do seu desejo - que é a mãe - e, ao mesmo tempo, a mãe é privada do seu próprio objeto desejado - o falo sob a imagem do menino; se a figura do pai não intervém na vida psíquica do filho, torna-se problemática a superação da fase do imaginário e de enleio dos fantasmas.

     Para que prevaleça a Lei, requer-se o reconhecimento da aceitação do pai - simbolizado pela metáfora: Nome-do-Pai. O pai é o Outro que intervém, com efeito, na relação especular e aí introduz a ordem simbólica; esta é interpretada pela criança como interpelação da Lei da ordem, reconhecendo não ter já o mesmo direito que seu pai sobre a mãe. A criança identifica-se com o pai, como o detentor do falo e objeto do desejo da mãe. A identificação pela qual a Lei da Ordem se introjeta na consciência do filho proporcionar-lhe-á um nome, isto é, uma supremacia do significante sobre o significado: a criança acede, pois, à sociedade, à cultura, pela linguagem. E ao perceber que o "tu" que para ele é o pai - ou a mãe - é um "eu" na comunicação com a mãe, tal como a mãe é um "eu" quando se dirige ao pai. e, portanto, que o "eu" e o "tu" são permutáveis, são relações e não termos, que o sujeito entra no circuito da troca.

     O "espelho", esse momento da primeira relação a si, que é também uma relação com um outro, detém um valor exemplar no que diz respeito ao desenvolvimento, onde, afinal, haverá bem pouco de "espelho" e de "estádio"; lugar de nascimento e de estrutura definitiva representa uma das características peculiares do ser humano - a "separação", que voltará a surgir, com novas formas, na obra lacaniana, e, portanto, designada com termos afins.

     A imposição da Lei e a identificação com o pai implica a passagem do "ser" ao "ter" e conduz à busca de objetos cada vez mais distantes do objeto do seu desejo. O desejo da união à mãe é recalcado e trocado por um substituto - o nome -, o símbolo. Para Lacan é incontestável que a verdade da análise se encontra no discurso intersubjetivo; ela não está dada duma vez por todas, mas vive da repetição, revive-se em cada nova situação de Édipo e repete-se em cada nova fase do processo da gênese humana: "E em todas as fases genéticas do indivíduo, em todos os degraus da realização humana na pessoa, que se encontra esse momento narcísico no sujeito, num antes em que deve assumir uma frustração libidinal e num depois onde se transcende numa sublimação normativa".

     A sociedade tem, portanto, uma referência simbólica de origem: proibindo o incesto, o pai instaura a Lei; o nome é a referência indicativa da inserção na ordem simbólica. Se o Édipo para Freud significava o encontro primeiro da diferenciação sexual, para Lacan é esse mesmo encontro mas implicado no acesso à ordem da linguagem.

     Toda a relação dual imaginária (a criança e a mãe) é sem saída: ela cria um mundo fechado que não suporta a existência dum rival; a entrada do pai, que desfaz essa relação imaginária, permite à criança abrir-se ao Outro, inscrever-se no universo da cultura e da linguagem; sem a intervenção do simbólico, sob a forma da Lei, a relação imaginária poderia tornar-se patológica. E, pois, o simbólico que regula os efeitos determinantes para o equilíbrio do indivíduo (rejeição, recalcamento, denegação).

     A lei primordial que proíbe o incesto é uma lei de linguagem: triunfo da cultura configurada numa linguagem, sobre a natureza. O estádio do espelho aparece, de algum modo, como um gênero de operador semântico-sintáctico. segundo um enfoque bem diverso das teses naturalistas e organicistas; perfaz a mesma revolução copernicana que Lévi-Strauss efetuou com a tese sobre a proibição do incesto, apresentando-se como lei enigmática geradora da "troca" e instauradora duma nova ordem - a da cultura.

     A cisão no sujeita surge como um dos efeitos deste acesso o simbólico; mediante o nome que a sociedade lhe atribui, o sujeito é representado por um substituto, por um significante. O sujeito fica mediado, no registro do simbólico, pela palavra (pronome pessoal, nome próprio, etc.), pelo que a subjetividade aparece traduzida por dois "eus": o existencial e o simbólico; assim se patenteia aqui o paradoxo da linguagem: representa por um lado o sujeito, oculta-o por outro. A análise do estádio do espelho contrapõe-se, portanto, a uma filosofia do cogito: não é por um ato reflexivo, mas por uma imagem, que o eu adquire a unidade daquilo que "eu sou". A linguagem inconsciente é um discurso composto por uma variedade de significantes que, em virtude das leis de combinação e de substituição, vai formando um texto fragmentado e descontínuo, de difícil leitura, cujo sentido se encontra na sua dimensão sincrônica.

     Por outro lado, o sujeito toma-se indivíduo: a individualidade significa a impossibilidade de coincidência do "eu", sujeito do enunciado, e do "eu", sujeito da enunciação; daqui a alienação. O "eu" experimenta uma carência de ser e intentará satisfazê-la por uma série de identificações contínuas.

     Transitando do estádio de ser o falo da mãe, no que está envolvido pela relação dual imaginária, à fase de ter um desejo fundamental por uma demanda (declínio do Édipo), e isso por intermédio duma identificação com o pai, como sendo aquele que detém o falo, o sujeito interioriza a Lei com vista à liberação da sua personalidade. "A lei primordial, diz Lacan, é aquela que regulando a aliança, sobrepõe o reino da cultura ao reino da natureza, votada à lei do acasalamento. (...) Esta lei faz-se conhecer suficientemente como idêntica a uma ordem de linguagem. Porque nenhum poder sem as denominações do parentesco está em posição de instituir a ordem das preferências e dos tabus que prendem e entrançam, através das gerações, o fio das linhagens". A inscrição nominal não se funda, portanto, na anterioridade da comunidade ou da sociedade relativamente ao indivíduo, mas antes na anterioridade da linguagem por relação ao indivíduo; esta posição lacaniana compreende-se com esta referência implícita a Lévi-Strauss: "Daí resulta que a dualidade etnográfica da natureza e da cultura está em vias de se substituir por uma concepção ternária - natureza, sociedade e cultura - da condição humana, de que é bem provável que o último termo se reduza à linguagem, ou seja, ao que distingue essencialmente a sociedade humana das sociedades naturais". Daí que, para Althusser, resida aqui o núcleo original da obra de Lacan: a passagem da existência (no limite puramente) biológica para a existência humana opera-se sob a Lei da Ordem, que denomina Lei da Cultura e que se confunde na sua essência formal com a ordem da linguagem; o "todo dessa passagem" apenas pode apreender-se pela "linguagem recorrente".

     Deste modo, pode-se afirmar que a obra de Lacan, como a de Lévi-Strauss, constitui um verdadeiro "tratado acerca da omnipresença do discurso humano". O inconsciente é aquela parte do discurso que não está à disposição do sujeito para restabelecer a continuidade do discurso consciente. A verdade escapa ao sujeito e desliza por entre o automatismo da repetição.


3. O desejo e a ordem do simbólico

     Lacan afirma, após Freud, que é necessário sempre buscar no sintoma, não somente o significante mas a expressão do desejo que o significante esclarece; isto, particularmente no discurso onírico - via por excelência do inconsciente. Assim, "a satisfação da necessidade somente aparece aí como o logro onde a demanda de amor se esmaga, remetendo o sujeito ao sono onde ele assedia os limbos do ser, deixando-o nele falar. Porque o ser da linguagem é o não-ser dos objetos, e que o desejo tenha sido descoberto por Freud em seu lugar no sonho, desde sempre o escândalo de todos os esforços do pensamento para se situar na realidade, basta para nos intruir". Se o ser da linguagem, como escreve Lacan, é o não-ser dos objetos, ele eterniza o desejo: substitui a coisa por um símbolo. Com efeito, o desejo articula-se na linguagem, mas está sempre aquém duma equivalência correspondente com a dinâmica do desejo.

     Na verdade, para Lacan, a necessidade tem a sua origem numa tensão interna do organismo e satisfaz-se com um objeto específico; é essencialmente fisiológica. O seu lugar é o da experiência e não o da análise; contudo, a necessidade pura é inexistente: ela está, de algum modo, sempre envolvida de demanda e de desejo. Por outro lado, a demanda tem características próprias que são consideradas por Freud ao nível da frustação (embora não tenha utilizado o termo). A demanda, diz Lacan, refere-se a algo que já não consiste simplesmente em satisfações que solicitava: "ela é demanda duma presença ou duma ausência"; ela é, pois, demanda de amor. Ela põe em relação dois indivíduos, menos para obterem uma satisfação do que para grangearem afeição.

     Então, o desejo está ligado com a recordação de satisfações anteriores e realiza-se na fantasia, na alucinação, no sonho. Nasce do afastamento entre a necessidade e a demanda. O desejo não se satisfaz de modo nenhum com um objeto independente do indivíduo, como ocorre com a necessidade: o desejo não é um simples apelo ao Outro enquanto Outro, uma simples demanda de amor.

     A necessidade é, de si, biológica: esgota-se com a sua efetivação; ora o desejo transcende esse nível e o seu retorno é inevitável: é sempre índice duma ausência. O que caracteriza o desejo é que ele radica no imaginário do sujeito: é desejo dum Outro, desejo de fazer reconhecer pelo Outro o seu próprio desejo: é o que significa a expressão bem conhecida de Lacan: "O desejo do homem é o desejo do Outro".

     A elaboração do sonho é alimentada pelo desejo; o que o sujeito cria com o sintoma é a verdade do que o desejo foi na sua história. O desejo é, assim, inextinguível: provoca e condiciona a "insistência" dos desejos particulares; ele regula a repetição. "Ao incondicionado da demanda, o desejo substitui a condição "absoluta": esta condição esclarece, com efeito, o que a prova de amor tem de rebelde para a satisfação duma necessidade. É assim que o desejo não é nem o apetite da satisfação nem a demanda de amor, mas a diferença que resulta da subtração do primeiro à segunda, o próprio fenômeno da sua clivagem (Spaltung)".

     O desejo, após a ruptura da relação dual inicial, que desencadeou uma "divisão" (clivagem) no sujeito - representado por um substituto, um nome, um significante - aliena-se, vivendo prisioneiro da imagem do seu eu. Que no complexo de Édipo - conforme à interpretação althusseriana de Lacan -a criança se torne criança humana, pondo à prova do Simbólico os seus fantasmas imaginários, e acabe por ser e aceitar-se como é -, isto é, menino ou menina entre adultos, com os seus direitos de criança nesse mundo de adultos, e possuindo, como qualquer criança, o pleno direito de se tornar um dia "como o pai" (um ser humano masculino, tendo uma mulher e não já somente uma mãe), ou "como a mãe" (um ser humano feminino, tendo um marido e não somente um pai) - isso é apenas o termo da longa marcha forçada em direção à infância humana.

     Que, neste último drama, tudo se "jogue na matéria de uma linguagem anteriormente formada, que, no complexo de Édipo, se centra totalmente e se ordena em torno do significante falo - insígnia do Pai, insígnia do Direito, insígnia da Lei, imagem fantasmática de todo o Direito - eis o que pode parecer espantoso ou arbitrário, mas todos os psicanalistas o atestam como um fato de experiência.

     A última etapa do complexo de Édipo, a "castração", pode disso dar a idéia; quando o menino vive e resolve a situação trágica e benéfica da castração, aceita não ter o mesmo Direito (falo) do pai e, particularmente, não ter o Direito do pai sobre a mãe, que se revela então dotada do intolerável estatuto de dupla ocupação, mãe para o menino, mulher para o pai; mas assumindo não ter o mesmo direito que o pai, ganha aí a segurança de ter um dia, mais tarde, quando for adulto, o direito que lhe é agora recusado, por falta de "meios". Quando, pelo seu lado, a menina vive e assume a situação trágica e benéfica da castração, aceita não ter o mesmo direito da mãe, aceita portanto duplamente não ter o mesmo direito (falo) que seu pai, pois que a mãe não o tem, ainda que mulher, porque mulher, e aceita simultaneamente não ter o mesmo direito que a mãe, isto é, não ser ainda uma mulher, como o é a mãe.

     Portanto, onde "uma leitura superficial e orientada de Freud" apenas vislumbrava "a infância feliz e sem leis", uma espécie de estado da natureza escandido somente pelos estádios de aspecto biológico, ligados ao primado funcional duma parte do corpo humano, lugares de necessidades "vitais" (oral, anal, genital), Lacan mostra a eficácia da Ordem e da Lei, que espreita, já antes do nascimento do pequeno humano, se apodera dele desde o primeiro vagido, para lhe assinalar o seu lugar e a sua função. Entre a necessidade e o desejo inconsciente não há continuidade de essência; o desejo é determinado no seu ser equívoco (a sua "ausência de ser", diz Lacan) pela estrutura da Ordem.

     O Édipo vem a reforçar esta condição, que obriga o indivíduo a uma sublimação pela via do simbólico, pela sujeição ao princípio da realidade e à normatividade social. A criança realiza uma série de identificações a ideais diversos, pelos quais acede à plena cidadania e ao título societário (status); é a passagem do "ser" ao "ter" (lugar social), após a "divisão do sujeito" inicial (o "eu" existencial e o "eu" simbólico): o indivíduo tende a modelar-se por referência ao outro ou contra o outro (agressividade).

     Nesta perspectiva, Lacan critica não somente os que atribuem ao falo um conteúdo biogenético, mas também os que consideram o simbólico como simples instância das significações, situada a nível de consciência vivencial. O imaginário resultante das conjunturas da própria história, apenas adquire significação na medida em que é organizado pelo inconsciente; a instância do simbólico é, pois, do domínio do inconsciente. "A relação simbólica, afirma Lacan, é eterna. E não somente porque é preciso que haja aí três pessoas: ela é eterna enquanto o símbolo introduz um terceiro elemento de mediação, que situa as duas personagens em presença, as faz passar para um outro plano, e as modifica". Pela linguagem, abre-se a passagem, para o indivíduo, do imaginário ao simbólico. O desdobramento no espelho, operação do imaginário descrita por Lacan e pela qual o infans (o que não fala) se identifica consigo mesmo e assim se separa de sua mãe, inaugura a etapa da cultura, cujo desenvolvimento se inscreve no simbólico.

     Lacan mostra-se também estruturalista neste aspecto: como Lévi-Strauss, sobrepõe à ordem do real e à ordem do imaginário, uma terceira ordem - a do Simbólico. Enquanto para Freud o simbólico é utilizada pelo indivíduo para chamar à consciência elementos recalcados, o simbólico, segundo Lacan, é já constitutivo do indivíduo; enquanto torna possíveis as relações humanas, o simbólico faz com que o sujeito seja aquilo que é: com efeito, o indivíduo já está inserido num universo simbolizado.

     Não é ele que cria e domina os símbolos, mas ele é deles tributário, de modo inconsciente. A diferença entre a simbólica de Freud e o simbólico de Lacan, é que neste último caso o acento põe-se não sobre a relação entre o símbolo e o que é simbolizado, mas sobre a articulação num sistema dos símbolos entre si. Os elementos de ordem simbólica não têm designação extrínseca nem significação intrínseca, mas um sentido posicional e localizado.

     O real, em si mesmo, não é separável de um certo ideal de unificação ou de totalização: o real tende para "fazer um": é "um na sua 'verdade'"; desde que se manifestem dois em "um", em que há desdobramento, surge o imaginário; o pai real é um, mas a imagem de pai é sempre dupla em si mesma, segundo uma lei dual: ela é projetada pelo menos em duas pessoas, assumindo uma a imagem de pai de brincadeira (pai-cómico) e outra a de pai de trabalho (e de ideal). "O imaginário, afirma G. Deleuze, define-se por jogos de espelhos, de desdobramento, de identificação e de projeção invertidas, sempre no modo do duplo. Mas talvez, por seu lado, o simbólico seja três. Não é apenas o terceiro para além do real e do imaginário. Existe sempre um terceiro a procurar no próprio simbólico; (...) terceiro simultaneamente irreal e, no entanto, não imaginável".

     Daí que Lacan, mais tarde, venha a escrever. "O Outro não se adiciona ao Um. O Outro apenas se diferencia dele. Se há alguma coisa por que ele participa do Um, não é por adicioná-lo a si. Porque o Outro - como lhe disse, mas não estou certo de que tenham ouvido - é o Um-a-menos". Estas palavras, pronunciadas num dos seus seminários publicados, acentuam que o Outro, portanto, o Terceiro, não se obtém com a soma de Uns, não é o que vem depois, não é o que se adiciona.

     O Outro é o Outro da linguagem, o Outro do discurso universal, o Terceiro de qualquer lugar ou, em termos de uma teoria de comunicação, é o lugar do "código". Assim, Deleuze afirma que "num certo sentido, os lugares só são preenchidos ou ocupados por seres reais na medida em que a estrutura for "atualizada". Mas, num outro sentido, podemos dizer que os lugares já estão preenchidos ou ocupados por elementos simbólicos ao nível da própria estrutura; e são as relações diferenciais desses elementos que determinam a ordem dos lugares em geral. Há, portanto, um preenchimento simbólico primário, anterior a qualquer preenchimento ou ocupação secundária por seres reais".

     Por um lado, a determinação entre necessidade, demanda e desejo, como acima vimos, mostram já como Lacan supera o empirismo; todavia, por outro lado, se a alteridade simbólica para que se torne significante requer as dimensões do real e do imaginário, a articulação simbólica é condição para que haja "alteridade significante". A dimensão do simbólico transporta, pois, uma certa plenitude: isso se manifesta na referência essencial que Lacan postula duma articulação dos elementos simbólicos, isto é, dum sistema estruturado, que fora já clarificada por Lévi-Strauss; não há elemento simbólico isolado: cada um deles se inscreve num sistema.

     [1]A este propósito, também W Reich, já noutro extremo, porventura influenciado pelo "inconsciente coletivo" de Jung, faz depender o processo psicanalítico da tensão da libido social; assim, as neuroses individuais, por exemplo, dão-se por apropriação e d psiquismo individual existe enquanto é dinamizado pela classe. As estruturas do Eu acabam por corresponder às da sociedade (Superego - classe dominante, Id - classe dominada), e os instintos de vida e de morte, a libido social, à luta de classes.
     [2]Escritos, 244. Há, pois, orientações pós-freudianas que minimizam a Metapsicologia e limitam a psicanálise a uma simples técnica de cura, a uma espécie de procedimento mágico.
     [3]O falo não é nem o órgão real nem a série de imagens associadas ou associáveis: é o "falo simbólico"; mas é da sexualidade a que se faz referência, contrariamente às posições, sempre renovadas em psicanálise, para minimizar essas referências; significa o órgão simbólico que funda a sexualidade na sua totalidade, como sistema ou estrutura. em relação ao qual "se distribuem os lugares ocupados de modo variável pelos homens e pelas mulheres, e também as séries de imagens e realidades" (Cf. G. Deleuze, op. cit., p. 327).

 

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