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11 de Setembro de 2001

Um Século Para Lacan

LENEIDE DUARTE
no@no.com.br

Se o século XX foi o de Freud e o da invenção da psicanálise, o XXI começa, pelo menos na França, com a celebração de Jacques Lacan como reinventor do divã. Nesta quarta-feira, o sofisticado canal franco-alemão Arte exibe “Jacques Lacan, la psychanalyse réinventée”, documentário que reúne em testemunhos e nas poucas imagens disponíveis vida e obra controversas de uma personalidade contraditória no ano que marca o centenário de seu nascimento e os 20 anos de sua morte. Teatral e grandiloqüente, ele soube como poucos dominar e desarmar platéias com fórmulas desconcertantes – "A mulher não existe" ou "O amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer", por exemplo – e, desta forma, consolidar um dos pensamentos mais influentes do pensamento francês.

A duas Elisabeths, Roudinesco e Kapnist, coube o desafio de, em 58 minutos, resumir o tanto quanto possível um pensador tão complexo e polêmico. O resultado é belíssimo e não exatamente surpreendente para quem assistiu a "Freud, a invenção da psicanálise" (exibido no Brasil pelo canal a cabo GNT), o primeiro trabalho em conjunto da dupla, que será reapresentado antes do "Lacan". Historiadora da psicanálise e analista, Elisabeth Roudinesco é autora da monumental "Jacques Lacan – Esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento", biografia que lhe valeu eterno confronto com Jacques-Alain Miller, genro e herdeiro de Lacan. Elisabeth Kapnist é conceituada documentarista e, desta vez, enfrentou não apenas as dificuldades inerentes ao tema, mas as obstruções dos herdeiros do psicanalista.

"Miller foi consultado sobre a possibilidade de usarmos imagens de 'Televisão' (célebre documentário em que Lacan desenvolve longamente suas idéias) mas não respondeu à nossa carta solicitando a permissão", conta Roudinesco, que ao lado de Kapnist recebeu no. em seu apartamento em clima de comemoração pelas primeiras críticas favoráveis ao filme. Por falta da autorização dos herdeiros, a versão final do documentário não inclui as importantes imagens de "Televisão".

No filme, Lacan aparece somente falando em Louvain, numa célebre conferência de 1972 em que, para variar, provocava a platéia: "Durante um certo tempo, acreditou-se que os psicanalistas sabiam alguma coisa... Isso já não é muito aceito... O cúmulo dos cúmulos é que nem eles próprios acreditam mais nisso... No que se enganam... Eles sabem um pouco... Mas exatamente como no caso do inconsciente, eles não sabem que sabem...", diz ele, entre pausas teatrais.

Roudinesco explica: "Em Louvain; vemos um Lacan dionisíaco, em 'Televisão' é o Lacan apolíneo que aparece. Queríamos mostrar as duas facetas". Os espectadores verão apenas o dionisíaco, um Lacan exuberante, que fala como um ator no palco diz seu monólogo, buscando a melhor entonação. As duas facetas de Lacan, que não puderam ser mostradas, são descritas brilhantemente por Philippe Sollers, num texto lido por ele próprio, especialmente para o documentário, que tem música original de Michel Portal.

Pontuado de depoimentos de filósofos (os franceses Jacques Derrida e Christian Jambet) e de psicanalistas (o francês Jean-Bertrand Pontalis, a inglesa Juliet Mitchell, a portuguesa Maria Belo e as francesas Elisabeth Roudinesco e Françoise Dolto), o documentário é admiravelmente claro e sucinto. Ao contrário do próprio Lacan, que é assim relembrado por Françoise Dolto, freqüentadora de seus seminários: "Quando eu o compreendia, o achava genial. O resto era mais um clima, talvez em lá menor".

"Desde que acabamos o 'Freud' decidimos que faríamos um terceiro episódio sobre a psicanálise. Adiei um pouco o projeto até ler a biografia de Lacan, de Elisabeth Roudinesco. Fiquei totalmente tomada pelo personagem e vi que o filme não deveria se parecer com os dois episódios de Freud, que ele precisaria de uma nova linguagem", conta Elisabeth Kapnist.

Com a dificuldade de imagens de Lacan, a realizadora se viu diante da única saída: exercitar toda a sua criatividade. E inventou um recurso que funciona prodigiosamente no filme. As fotos são deslocadas como num jogo de puzzle com a tela dividida em 16 quadrados em que falta sempre um para permitir o deslocamento dos outros. Assim, as fotos se superpõem, e vão revelando novas imagens.

Absolutamente extasiada pela coincidência, Kapnist soube pelo psicanalista Henri Rey-Flaud que, num trabalho sobre a psicose, Lacan comparou o funcionamento do cérebro ao "jeu de l'âne rouge" uma espécie de jogo semelhante ao que ela reproduz na tela, com a diferença que no jogo são as letras do alfabeto que se deslocam. Para Lacan, a psicose existe quando a pessoa imobiliza o quadrado que estava vazio e permitia o deslocamento das outras peças. Na psicose, não se pode mais fazer os quadrados se moverem.

Semana passada o documentário foi exibido para uma platéia de convidados que incluía Thibaud Lacan, filho do psicanalista mas não sua irmã, Judith, que é casada com Jacques-Alain. O casal Miller não foi convidado, mas Thibaud aprovou o resultado: para ele o filme atinge o objetivo de suscitar interesse pela obra de seu pai que, segundo ele, é conhecida hoje, mesmo que superficialmente, por qualquer pessoa culta.

"Os filósofos e psicanalistas que participaram do filme são suficientemente claros em suas intervenções, conviveram com meu pai e conhecem bem a teoria por ele criada”, disse Thibaud a no., que evitou afirmar que se considera um lacaniano. "Comecei a ler a obra dele aos 15 anos mas provavelmente não li tudo".

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