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Pensamento antecipatório

MICHEL PLON *

     Por um momento, o do centenário de nascimento de seu autor, finjamos deixar de lado esta contribuição inegável, este refundamento do pensamento freudiano operado por Lacan, durante 30 anos, para manter o gume sempre afiado. Os psicanalistas de hoje se dedicam a manter viva, inclusive em sua dispersão associativa, essa palavra subversiva, ainda que o autor dos Escritos tenha dito - era maio de 68, dia 15 - em seu seminário sobre ''O ato psicanalítico'', que simplesmente a presença deles tornava ''completamente sem efeito'' o enunciado que ele se esforçava em articular; é bem verdade, acrescentava ele, que um ''pouquinho de recuo'' seria o bastante no futuro para assegurar que esse enunciado era suficientemente forte e para se convencer que havia nele uma ''coisa na qual é possível se encontrar, onde há um Norte, um Sul, um Leste e um Oeste''.

     Com a ajuda da metáfora, a questão se impõe: como entra essa afirmação de Lacan na geopolítica de nosso tempo? Essa interrogação exige que se recupere nesse pensamento o que está em sintonia com O mal-estar na civilização de Freud.

     Um quarto de século antes que os ''psis'' de todos os matizes começassem a tomar posições nos meios de comunicação para tentar assenhorar-se do futuro, Lacan inovou à maneira de Freud: menos para aplicar a psicanálise a esta matéria movediça que é a opinião dita pública do que para servir-se da perturbação desta com o objetivo de relançar seu pensamento. E profetizar em Televisão, em 1974, um retorno inegável do racismo, anunciando no mesmo impulso, ao final dessa intervenção, que seriam necessários ''dez anos'' para que o que ele escrevia então ''se tornasse claro para todos''. Ele tinha razão quando, depois de um longo suspiro, anunciava que seu pensamento já estava estava em curso, e evocando Freud ele lembrava ''que não é o mal, mas o bem, que engendra a culpabilidade''. Aí está a história política do século que terminou como testemunha.

     Felizmente, o pensamento lacaniano, apesar do esforço de alguns psicanalistas, ainda não se tornou catequese ou vulgata; sua leitura, hoje, talvez mais que ontem, quando a presença e a voz garantiam a transferência, somente se sustenta com um trabalho permanente. Esse pensamento incômodo difunde e transpira muito além dos cenáculos psicanalíticos, denunciando através de aforismos, que o tempo e o uso muitas vezes tornaram anônimos, as formas contemporâneas do mal-estar.

     Se é possível dizer do percurso freudiano final, aquele que depois do diálogo com Einstein, Por que a guerra? (1933), conduz a Moisés e o monoteísmo (1939), que ele antecipa a vinda do inominável, do crime indelével que será o Holocausto, deve-se reconhecer que o trilhamento lacaniano vem se inscrever no impossível do pós-Auschwitz: seu fraseado marca o ritmo da incontornável evocação, suas interpelações circunscrevem o que a razão não pode dizer.

     Afastando qualquer futuro ilusório, de dias radiosos - Lacan foi testemunha de que isso a alguns levou ao suicídio (Televisão) -, ele faz de seu pensamento uma muralha antecipatória contra esse desfraldar mercantil que preconiza a busca de uma felicidade adquirida como garantia de uma supressão definitiva do mal-estar. No todo, agora e sempre, emblemas de uma globalização anunciada como fim da história, forma renovada de uma barbárie cujo percurso silencioso já é designado pela pulsão de morte freudiana, Lacan propõe, mais do que opõe, a essa nova ordem da soberania, sua enunciação da falta-a-ser, do ''não-todo'', da hiância e da ausência, figuras novas da castração, obstáculos ou notas falsas que vêm perturbar os convites ao gozo sem limites.

     Abrindo este derradeiro discurso que precede de pouco a vinda de um pós-modernismo apregoador de um desencanto satisfeito de si-mesmo, Lacan, com Televisão, dá uma estocada - para se regozijar de que sua categoria de real encontre nela seu fundamento - na impossibilidade de um enunciado da verdade una: ''faltam palavras'', previne, ecoando, assim, ao Moisés de Schönberg, que também não as encontra e se lamenta da ausência delas. A ausência, adianta ainda Lacan, não é o inverso, o negativo ou o oposto do presente; ela constitui a parte desejante dele. Nesta recusa de tudo explicar, de dar resposta a tudo, demandas que se sustentam na crença numa possibilidade de dizer tudo, Lacan fundamenta o discurso do analista como resistência a esse discurso capitalista que faz do enclausuramento do eu o fundamento de seu ideal de rentabilidade e da rede internet, a garantia de uma transparência absoluta. É prática permanente dos contornos de um outro palco, o do inconsciente e de suas intrincações significantes, que oferece resistência tão bem a toda forma de triunfalismo anunciado: Marx, lembra Lacan, ainda em Televisão, fez do ''trabalhador ideal (...) a flor da economia capitalista, na esperança de vê-lo seguir o discurso do mestre: o que efetivamente aconteceu, ainda que sob forma inesperada''. Surpresas do inconsciente que, ignoradas, vocacionam o sujeito à repetição na ordem do terror e da crueldade.

     A quem não entende que essas dissonâncias continuam a ressoar, só resta a servidão voluntária alienada nas vertigens de um narcisismo esmaecido.

     A miséria e a opressão não são privilégio de nenhum dos quatro pontos cardeais. Massacres, pena de morte, torturas, estupros e escravidão atestam que o mal-estar persiste. Não é de se esperar ser possível dissolvê-lo ou encobri-lo por uma tecnologia ilusória.


* Michel Plon é psicanalista, autor, com Elisabeth Roudinesco, do Dicionário da psicanálise (Jorge Zahar Editor)

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