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O que Permanece em Lacan

Presidente da Sociedade Internacional de História da Psiquiatria e Psicanálise diz que obra foi exemplo de resistência cultural

RENÉ MAJOR

Reprodução
Lacan

     Qualquer que seja a polêmica que cerca a subversão que instauram em nossos hábitos, os grandes pensadores podem ser reconhecidos pela forma com que suas idéias e seu estilo impregnam de maneira permanente, muitas vezes sem que percebamos, a linguagem e a cultura. Neste sentido, eles são atemporais e não são ultrapassados. Foram ultrapassados Platão ou Aristóteles, Descartes ou Hegel, Nietzsche ou Freud, para citar apenas alguns? Eles não são superados, dirá Lacan: ''Deles também não se faz - que interesse haveria - um balanço. Deles, a gente se serve. A gente se move no interior deles. A gente se guia com o que eles nos deram como indicações.''

     Também é o caso para aquele cujo nome o historiador das idéias não poderia deixar de inscrever na série de pensadores - e Lacan não será dos menores - que souberam repensar a confiança na razão, instaurada pelo discurso das Luzes, para suscitar um profundo movimento de inquietude na linguagem, inquietude inscrita na própria linguagem e cuja importância universal não poderia ser reduzida ao sinal de uma época ou ao sintoma de uma crise. Desestabilizando até mesmo o princípio da razão a partir de uma lógica inconsciente, a reflexão da qual esta inquietação é portadora contribuiu amplamente para fazer aparecerem as questões que preocupam nossas sociedades, sejam elas os direitos progressivamente adquiridos pela mulher e pela criança, a família, o homossexualismo, a parentalidade ou aquelas que questionam todas as formas de violência, de crueldade ou de soberania, que subvertem tanto as fronteiras geopolíticas ou intra-urbanas quanto o enclausuramento no qual muito freqüentemente o pensamento está refugiado.

     A crise intelectual hoje encontra seus signos de reconhecimento em tudo o que tenta fazer esquecer aquilo que foi o tempo de Lacan, um tempo pós-sartriano de uma nova cultura filosófica, inaugurando uma responsabilidade do sujeito subtraída à velha autoridade da consciência, mas não a uma nova razão que não evita os paradoxos e as aporias no seio do pensamento. É preciso, hoje, lembrar o nome de Lacan e a promessa que está associada a ele, ou seja, de uma resistência cultural para a qual contribuem uma psicanálise, uma filosofia e uma literatura rebeldes a qualquer normalização mediática, acadêmica, moral ou política.

     Esta resistência ao retorno da ordem estabelecida da consciência clara, à irresponsabilidade de um neoconformismo e de uma comunicação transparente, pode até mesmo ser exercida contra os que, reivindicando Lacan, exercem uma censura através do aferrolhamento ortodoxo.

     Ninguém melhor que Lacan soube situar a psicanálise em relação à ciência moderna. Demonstrando que esta, ''nascida de Galileu, não pudera se desenvolver senão a partir da ideologia bíblica, judaica, e não da filosofia antiga e da perspectiva aristotélica'', ele enfatizava a contingência a partir da qual se formulam os enunciados da ciência; contingência infinita cujo ancoradouro no corpo e no pensamento não é outro senão a sexualidade, no sentido que a psicanálise a entende, intervindo para traduzir cada individualidade em uma lei tão necessária e tão contingente quanto as leis da natureza, aquelas mesmas às quais Freud queria aparentar suas descobertas. Enquanto o pensamento de Freud, herdado de seus estudos sobre a histeria, se desdobra na trajetória que vai da metáfora ao conceito, o pensamento de Lacan - para quem a loucura que habita o coração do homem deve se articular com a ciência - sustenta a aporia segundo a qual o discurso analítico deve poder explicar em sua teorização da experiência subjetiva as condições subjetivas dessa formalização. É sobre essa base que será cimentado, definitivamente, um pensamento contemporâneo da ciência que não exclui o sujeito do estudo de seu objeto.

     É apenas através do prisma deformante da imaginação que o sujeito, constantemente exposto a uma divisão interna, percebe o objeto de seu desejo. Quando ele se permite explorar e atravessar tudo o que sua história depositou em conta, na perspectiva que o outro se conforme ao lugar em que este imaginário o colocou, seu discurso se distancia da ''obscenidade'', do imaginário fora de lugar que se desvia sem cessar de sua relação com o outro, para reconhecer nessa relação tanto a familiar ''estranheza'' do outro quanto sua estranha ''familiaridade''. O que torna esse reconhecimento possível, no próprio lugar no qual a reiteração da demanda dirigida ao outro tenderia a ignorá-la, pressupõe a figuração do passado e do presente, de um passado ainda presente, em um Outro que possa se colocar no trajeto das representações ou da rede de significantes que se ligam à vida psíquica inconsciente. Vindo ocupar provisoriamente este lugar, já desenhada em filigrana em toda história individual, o analista se encarrega, portanto, de representar uma parte do sintoma, quando não o sintoma todo. Este axioma que assegura a liberação da relação analítica de qualquer relação simplesmente intersubjetiva, deveria fundar uma semiologia dessa relação, em constante variação, que a diferencie da nosografia médica ou psiquiátrica com a qual ainda mantém uma confusão homonímica. Eis aí uma direção do pensamento de Lacan que ainda deve ser avaliada e que deveria pôr um freio na distinção arbitrária entre o normal e o patológico, permitindo à análise escapar de todo propósito normativo, adaptativo, utilitário ou adaptado a qualquer objetivo sócio-político, deixando aos domínios jurídico e político o cuidado de se ocupar deles.

     A psicanálise encontra-se no texto que ela decifra, não importa se este texto seja científico, filosófico ou literário. A distinção desses gêneros é menos evidente, tanto do ponto de vida formal quanto semântico, do que costuma parecer. Essa questão do texto é trabalhada na obra de Lacan, sem cessar, tanto em sua leitura dos filósofos quanto dos textos considerados como pertencentes ao universo literário. Quer se trate da leitura de Freud ou de Sófocles, de Poe ou de Joyce, uma lógica do significante interrompe qualquer semantismo ingênuo, qualquer fixação do sentido a um ''querer dizer'', para demonstrar ''a prevalência do significante sobre o sujeito''. A cena da escrita, como tal, produz o que há de mais analógico à cena analítica. Nada determina, a priori, em um caso ou no outro, a identidade do narrador, a dos personagens e o lugar do autor na estrutura de ficção que lhes é comum, nos efeitos de verdade e de real que esta fição-verdade engendra. Qualquer tese de um sentido determinado é incerta, condicionada ao próprio sentido da demanda de sentido.

     Se é preciso dizer em duas palavras - como fui convidado a fazer - o que permanece de Lacan, o que ficou de definitivo e que, portanto, exige uma ida aos seus Escritos e seus Seminários, é a leitura do mundo desvendada pela leitura de Lacan como leitura do próprio inconsciente; leitura de uma abundância inesgotável de significações que, sem ser ordenadas em um sentido, convidam o leitor a inventar e reinventar constantemente ''sua'' gramática e ''sua'' retórica, como o que acontece mais de uma vez, mas cada vez sendo uma única vez. Lacan convidou, portanto, a psicanálise - isto é, todos os que, desde Freud, não pensam mais como antes - a reinventar incessantemente a língua na qual ela fala do mundo.

     René Major é presidente da Sociedade Internacional de História da Psiquiatria e da Psicanálise, autor de Lacan avec Derrida (Mentha) e Depuis Lacan (org. Patrick Guyomard et René Major (Aubier)

* Traduções de Leneide Duarte

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