=================

:: PRINCIPAL

=================

JACQUES LACAN

:: BIOGRAFIA
:: CRONOLOGIA
:: LIVROS
:: TEXTOS
:: VOCABULÁRIO

=================

SIGMUND FREUD

:: BIOGRAFIA
:: TEXTOS
:: LIVROS

=================

:: SOBRE LACAN
:: TEXTOS
:: ARTIGOS
:: ENTREVISTAS
:: INDICAÇÕES
:: PENSAMENTOS
:: LINKS

================

:: GRUPOS E-MAIL
:: CONTATOS

================

 

Intelectual Delirante ou Genial?

PAULO STERNICK *

     Teimoso repúdio e fanática adesão marcaram as principais reações do mundo psicanalítico a este furacão intelectual que responde pelo nome de Lacan. Chato, cansativo, barroco, enrolado, dotado de exuberante racionalidade; ao mesmo tempo talentoso, instigante, engraçado, surpreendente e capaz de pensar a psicanálise de forma inusitada, fertilizando-a com a lingüística e a filosofia - este homem arrogante e extravagante produziu obra que tem ocupado corações e mentes de não poucos analistas e pensadores em todo mundo. Nem sempre, porém, tem sido possível que psicanalistas se mantenham psicanalistas também diante de seus mestres. Uma relação de transferência ao autor e ao texto obscurece o discernimento e favorece a subserviência a um pensamento único - tão mais intensa quanto maior é a força reveladora do mestre e menor a capacidade do discípulo de pensar e aprender com a própria experiência (o estímulo a isso deveria ser, eticamente, a melhor lição de um verdadeiro mestre).

     Lacan, embora pensador inigualável, não conseguiu se livrar da ''tendência fatal à construção de sistemas'' (como diria Hannah Arendt a respeito dos filósofos). Apesar de leitor de Heidegger, passou lotado pelas advertências que este fazia contra as armadilhas da relação mestre-discípulo e ignorou a idéia, a propósito de Nietzsche, de que ''o pensar tem o caráter de um retrocesso''. Um intelectualismo hipertrofiado adornado com pretensões de autocondecorado rigor e certeza seduziu hesitantes atores de uma profissão impossível e achou solo fértil nas universidades e nos colégios que se criaram em torno de seu pensamento. Aos espíritos inquietos e críticos, e também aos mais órfãos e desorientados diante de confusos divãs, surgiu como um profeta da crítica (fundamentada) a uma psicanálise desviante (medicalizada e psicologizada, adaptativa e normalizadora). E o ''único'' a apontar a autêntica pátria do inconsciente (já, a partir dele, decretado como constituído da mesma matéria da linguagem), com seu tesouro de significantes.

     Foram-lhe atribuídos poderes extraordinários e imperiais, tais como o de supostamente saber a última palavra a respeito de como se faz (ou não se faz) um psicanalista, ou como este deve (ou não deve) trabalhar para se manter em área freudiana.

     Com suas fórmulas, matemas e aforismos (tediosamente repetidos e imitados por discípulos mimetizados) à frente de uma teoria que parece situar-se num território duplamente ocupado pelo delírio e pela ciência, Lacan, como nenhum outro autor de psicanálise, revelou, com seu próprio exemplo (e o de parte de seus seguidores) que a disciplina da psicanálise é disputada tanto pela busca da verdade psíquica quanto pelo risco do obscurantismo. Nesse caso, de todo jeito, ele nunca esteve sozinho. Todo grande autor de psicanálise, seja ele Freud, Melanie Klein ou mesmo W.R. Bion são, simultaneamente, trampolim e obstáculo para um pensar teórico e clínico que aproxime o psicanalista da alma (seele) humana, e - enfim! - da verdade inconsciente de seu analisando.

* Paulo Sternick é psicanalista, editor de Gradiva (http://www.gradiva.com.br/) e membro da Société Internationale dHistoire de la Psychiatrie et de la Psychanalyse

 

WebDesigner Vitor Murata

Free Web Hosting