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Herdeiros Assumiram Posição Servil


Inquietação do mestre foi substituída pela repetição obscurantista dos enunciados de Lacan, mal-digeridos pela maioria dos seguidores

JOEL BIRMAN *

Reprodução

     A condição de possibilidade do ato de psicanalisar é que o analista tenha como horizonte a subjetividade de seu tempo, nos dizia Lacan, em 1953, em Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. Enunciava assim, em alto e bom som, no calor de sua primeira ruptura institucional, que a prática da clínica implicava numa sintonia fina do analista com as vicissitudes de sua época. O analista, deveria, portanto, estar inscrito nos registros teórico, social e político do seu contexto histórico, para não ser condenado aos infortúnios da surdez e à impossibilidade de atingir o seu alvo.

     Foi em decorrência disso que Lacan construiu o seu percurso teórico, reinventando a psicanálise. Reivenção aparentemente paradoxal, já que implicou no ''retorno a Freud''. Isso porque na aurora dos anos 50 o movimento psicanalítico internacional tinha se transformado no coveiro do discurso freudiano, amesquinhando Freud numa triste figura embalsamada e numa simples peça de museu, silenciando então a vitalidade de seu pensamento. Inserida que foi no campo da medicina, a psicanálise se transformou numa especialidade da psiquiatria e numa modalidade supostamente profunda da psicologia. Forjado pela alquimia iconoclasta do surrealismo, que elevou a histeria à condição da maior invenção estética do século (Breton), Lacan afirmou que a psicanálise não seria uma modalidade da medicina, nem tampouco de psiquiatria e de psicologia. Não poderia ser também um discurso a ser inscrito na fenomenologia e no existencialismo sem perder seu viço e a especificidade, como se regozijavam então parcelas significativas da comunidade analítica, já que isso poderia conferir uma aura de nobreza para o que existia de bastardo na psicanálise. Não se tratava de nada disso. O que se impunha como imperativo era a restauração do continente do inconsciente (Althusser) nesta terra crestada pelo esquecimento.

     Para isso seria preciso enunciar novamente que o inconsciente não apenas se fundaria como também funcionaria como linguagem. A lingüística de Saussure serviu de leme nesta viagem marcada pela incerteza, após ter sido inscrita por Levi-Strauss na antropologia social como a disciplina piloto no campo das ciências humanas. Com efeito, assim como a cultura foi concebida por aquele como um sistema de trocas e de signos, da mesma forma a subjetividade seria fundada na linguagem. Esta produziria a divisão do sujeito, para sempre clivado em territórios psíquicos inconciliáveis, polarizado que seria entre os registros do inconsciente e da consciência. A contrapartida disso seria a tensão permanente existente entre o eu e o outro, constitutiva da dialética do reconhecimento. A resultante maior desse processo foi uma leitura da subjetividade na qual essa foi definitivamente retirada dos impasses insuperáveis do individualismo, na medida que pela linguagem o diálogo incessante entre indivíduo e sociedade se tornara consistente. O psíquico não seria mais então o campo da pura interioridade que se contraporia ao da exterioridade, sendo assim superada a oposição entre dentro e fora. Daí, enfim, o belo e conciso enunciado de Lacan de que o inconsciente seria uma construção transindividual, isto é, de algo que transcenderia o indivíduo e o eu.

     Namoro com a lingüística - A linguagem assumiu ainda outros acordes paradoxais, polarizada que foi entre as recentes seduções da cibernética e o fascínio antigo da poiesis. Se pela primeira era possível conceber uma matematização das seriações em cadeia do inconsciente, catalisada pela lógica e pela topologia, pela segunda era possível indicar o que existia de imprevisível nos atos de palavra. Existiria assim um muro da linguagem, que tornaria opaco o discurso e as mensagens. Seria possível assim pontuar o sujeito na sua errância, nos intervalos presentes entre significantes, apresentando-se aquele apenas pontualmente nas suas aparições fugidias nas aberturas e fechamentos do inconsciente. Com isso, o registro do significante avolumou face ao do significado, subvertendo a teoria do signo de Saussure.

     Transposta que foi para o território diabólico do inconsciente, a lingüística se transformou inapelavelmente em lingüisteria. Daí porque a formulação brilhante de Lacan, de sabor francamente anticibernético, segundo a qual a função da linguagem é a de produzir evocação e não a de comunicar informação. Tudo isso permitiu enunciar, enfim, que a psicanálise seria um saber de ordem conjetural, sendo, pois, a interpretação analítica uma conjetura com franco sabor ficcional.

     Para costurar tudo isso, no entanto, foi necessário atravessar a cartografia tortuosa e árida da filosofia, apesar de podermos considerar Lacan como um antifilósofo, como Badiou. Hegel lhe indicou os caminhos iniciais para esboçar as diferenças entre os registros do simbólico, do imaginário e do real, assim como de introduzir a dialética do senhor e do servo para repensar a experiência psicanalítica.

     A transferência foi então delineada como experiência trágica, polarizada que seria entre os infortúnios da servidão e o infalível destronamento do senhor. A morte como problemática crucial do sujeito se delineou aqui com toda a sua agudeza, de forma que a vontade de destruição seria o único aguilhão possível para que o sujeito não sucumba na mais abjeta servidão. A compulsão à repetição se inscreveria nos interstícios dessa dialética, oscilando sempre entre as repetições do mesmo e da diferença, como único catalisador possível para que o sujeito pudesse se retirar da servidão.

     Filosofia do desejo - Heidegger ensinou a Lacan a condição excêntrica da existência, permitindo pensar na porosidade constitutiva do inconsciente, na alternância existente entre dentro e fora, delineando assim a dialética infinita entre o sujeito e o outro. A concepção do tempo centrado no futuro permitiu uma outra leitura do desejo, no qual o tempo verbal do futuro do pretérito como antecipação do futuro, no presente, permitiria ao sujeito uma outra relação com as marcas do passado.

     Kant, finalmente, indicou a impossibilidade de apreensão da coisa, desenhando um destino inexorável para o sujeito falante no qual a perda fundamental do gozo seria a condição fundamental para as incertezas do desejo. Com isso, o imperativo da lei fundaria a ética do desejo, impondo ao sujeito a não abrir mão das exigências desse para não ser condenado à culpa.

     Porém, isso não é tudo. O esforço para colocar a psicanálise no horizonte da subjetividade contemporânea tinha como pressuposto daquela o mal-estar na civilização (Freud), no qual a humilhação do pai estava no seu cerne. Daí adviriam os sofrimentos psíquicos e os impasses da liberdade. Seria nesse território perpassado pelo horror que a psicanálise deveria intervir para sustentar a subjetividade desejante. Seria por ter essa finalidade quase impossível que a psicanálise deveria ter sempre um encontro com o sujeito marcado pela radicalidade, isto é, nas bordas entre a vida e a morte.

     Assim, o percurso teórico de Lacan foi sempre marcado pela coerência com os seus pressupostos e com a sua aposta ética do que deveria ser a finalidade do estranho ofício de psicanalisar. Por isso mesmo, afirmou para os seus discípulos em Caracas que, se esses eram lacanianos, ele continuaria de sua parte sendo freudiano. O que implica dizer que foi em nome disso que rompeu diversas vezes com suas teorias, além das instituições de que participou, para sustentar os desafios ético e político da psicanálise. É o mínimo reconhecimento que devemos ter para com Lacan no centenário de seu nascimento, pelo que trouxe de contribuições efetivas para a psicanálise e para a cultura ocidental em geral.

     Mumificação - Por isso mesmo, é bastante estranho que uma aventura intelectual dessa envergadura encontre um desdobramento melancólico numa parcela importante de seus herdeiros, que se restringem a repetir literalmente as fórmulas do mestre sem se deixarem sacudir pela inquietação genial e pela curiosidade insaciável que era a sua marca inconfundível. Parece-me que essa literalidade é o caminho trágico para a mumificação de Lacan e para o silenciamento da potência de seu pensamento. Este foi devorado pelos discípulos, certamente. Porém, a sua carne perdeu o sabor, infelizmente, pois foi retirada dela a vivacidade de sua seiva, isto é, daquilo que proporcionava a luxuriante festa de seu saber e o que existia de gostoso nas entranhas criativas do mestre. A resultante disso é a servidão que se alastra, de maneira assustadora, numa parcela substancial de seus herdeiros, que se revela pela repetição obscurantista dos enunciados de Lacan. Pode-se dizer mesmo que pela canibalização sôfrega de que foi objeto Lacan ficou entalado na garganta, mal-digerido que foi, perdendo-se assim a gostosura da genialidade do francês.

     Suponho, por tudo isso, que é urgente um retorno a Lacan, da mesma forma como este promoveu o célebre retorno a Freud, para restaurar a vitalidade do pensamento psicanalítico e a reinvenção da psicanálise. Para isso, no entanto, é preciso ficar atento às novas formas que assumiu o mal-estar na atualidade, para continuarmos a ficar à altura de atingir o horizonte da subjetividade de nosso contexto histórico, como pôde fazer Lacan no seu percurso. Seria preciso, enfim, retomar o bonde chamado desejo, parafraseando o belo título de Tenesse Williams, para que a psicanálise não perca o bonde da história.

* Joel Birman é psicanalista

 

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