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A Função do Belo Para Lacan

João Peneda

Em 2001 foi celebrado o centenário de nascimento de Jacques Lacan, figura emblemática não apenas da psicanálise francesa, mas internacional. Foi essa ocasião solene que Jacques Alain Miller escolheu a dedo para publicar a nova coletânea de textos intitulada de Outros escritos, originalmente pela Editora Seuil e traduzida para o português pela Jorge Zahar. O título escolhido foi forjado pela sutil retificação daquele que denominava a coletânea inicial de ensaios, organizada pelo próprio Lacan, em 1966, publicado também pela Seuil, intitulada Escritos e que foi igualmente lançada no Brasil pela Editora Jorge Zahar.

A edição brasileira de Outros escritos é muito bem cuidada, é bom que se diga logo de início, se inscrevendo na coleção ''Campo Freudiano no Brasil'', na qual se publica a obra de Lacan, isto é, não apenas os Escritos e os Seminários, mas outros de seus ensaios sob a forma de livros. Além disso, a tradução de Vera Ribeiro é cuidadosa, o que deve ser devidamente destacado, dada a dificuldade de se traduzir um autor de escrita enigmática e até mesmo hermética como Lacan. Acompanhada de algumas notas esclarecedoras de pé de página, que explicitam várias referências bastante francesas daquele e alguns jogos de palavra que lhe são característicos, a edição torna o texto bem mais digerível para o leitor brasileiro.

A coletânea, no entanto, reúne vários textos que já foram publicados quando Lacan era ainda vivo, com a exceção de dois. O que não retira, é claro, o valor da publicação, pois ela tem o mérito indiscutível de reunir o que estava disperso em diversas revistas, além de incluir o que não tinha sido anteriormente publicado. Nestes termos, já se constitui inequivocamente um clássico da literatura psicanalítica, se considerarmos a importância indiscutível nessa do pensamento de Lacan. Não reúne, contudo, tudo aquilo que este escreveu, ficando muita coisa que publicou ainda excluída e dispersa em revistas de difícil acesso. A leitura da biografia intelectual de Lacan, realizada pela historiadora E. Roudinesco, mostra aquilo que produziu e que não foi aqui incluído. Lamentamos a seleção e a exclusão destes textos neste Outros escritos. Lacan já é um clássico da tradição psicanalítica e os leitores, analistas ou não, gostariam de ter acesso à totalidade de sua produção e não apenas a uma seleção definida pelos critérios de seu organizador. Portanto, se repete aqui a mesma parcimônia que está presente também na publicação oficial da totalidade dos Seminários, de Lacan, que circulam apenas em edições piratas e que já provocaram muitas críticas das comunidades psicanalítica e intelectual, que querem ter acesso amplo, geral e irrestrito à obra de Lacan.

Além disso, a coletânea não se ordena segundo um critério estritamente cronológico, sendo os diversos textos dispostos numa seqüência que obedece a uma lógica ora conceitual, ora analítica. Seriam estas lógicas que dariam a tônica da organização, que subsumem então a linearidade cronológica da produção dos textos. Isso acontece até mesmo com os ensaios que se agrupam nas temáticas da institucionalidade e da política psicanalíticas. No que concerne a isso, a documentação referente à fundação, à organização e à dissolução da Escola Freudiana de Paris ocupa um espaço considerável no livro, assim como as preocupações iniciais de Lacan com a família, a psiquiatria social e a criminologia.

Entretanto, os textos aqui reunidos são francamente desiguais. Isso salta aos olhos do leitor imediatamente, já que convivem lado a lado textos mais e menos densos, indicando fôlegos teóricos diferentes. Com efeito, prefácios de livros e mesmo de obras de Lacan traduzidas para outras línguas, ao lado de ementas dos seminários proferidos, se justapõem com ensaios de maior calibre conceitual. Não se compreende bem inicialmente esta heterogeneidade. Para isso, necessário é a realização de um efetivo trabalho interpretativo sobre a ordenação proposta pelo coordenador da coletânea, isto é, quais foram os interesses que nortearam este na seleção e exclusão dos textos a serem inscritos na coletânea. Porém, antes de entrar aqui nesse ponto é preciso considerar que neste aspecto os Outros escritos não se assemelham em nada aos Escritos, onde a densidade e a homogeneidade teóricas dos textos são patentes. A escansão conceitual empreendida por Miller na organização do livro se faz então evidente, articulando a massa textual disponível segundo certas escolhas bem precisas.

Tudo isso nos conduz inevitavelmente para avaliarmos a composição da coletânea em pauta. A intenção primordial de Miller é a de pretender sustentar que a publicação deste Outros escritos não pode ser considerada similar ao célebre ''retorno à Freud'', realizado por Lacan nos anos 50, quando aquele tinha sido esquecido fundamentalmente pela comunidade psicanalítica e a psicanálise destituída de seus propósitos teóricos, de forma que a falsa psicanálise tenha engolido inteiramente a verdadeira. Pode-se ler à propósito disso, nesta edição, os ensaios ''A psicanálise verdadeira, e a falsa'' (1958) e o ''Discurso de Roma'' (1953).

Isso porque, de maneira diferente da posição anterior de Freud, o discurso de Lacan continuaria ainda vivo, isto é, não foi efetivamente superado como sujeito suposto saber. Como nos diz Miller no prólogo da coletânea: ''A acolhida dada a seus Seminários o atesta: eles são recebidos pelos praticantes e pelo público como livros de hoje, não de outrora.''

Vale dizer, Lacan é um autor ainda vivo e sua obra maior é o campo psicanalítico lacaniano existente, que coloca os seus textos na posição de sujeito suposto saber, que imanta a transferência de trabalho no campo em questão. Poder-se-ia dizer então que a reunião de textos de densidades teóricas tão diferentes não colocaria nenhuma questão específica, pois em cada um deles o mestre estaria sempre nos dizendo algo de fundamental, mesmo que ínfimo, que não poderia se perder e que deveria ser então resgatado. Porém, isso não é suficiente para nos responder sobre a lógica presente na composição do livro, já que não existe qualquer justificativa para o arquivo textual que foi excluído desta última coletânea.

Uma pista importante para isso nos é oferecida pela colocação do ensaio ''Lituraterra'' (1971) na posição de destaque nesta segunda coletânea, na abertura do livro, como que condensando nos seus enunciados o que existiria de fundamental na totalidade da obra. Lugar predestinado, nos diz Miller no prólogo. Este ensaio, portanto, seria a contrapartida, nos Outros ensaios, ao texto sobre o ''Seminário sobre a carta roubada'' nos Escritos. Este texto delineia o programa teórico de Lacan na sua coletânea inicial, configurando então o tom do livro, que se fundava nos conceitos de sujeito e de lógica do significante. Era o sujeito que estava enfim em questão, como nos disse então Lacan de maneira precisa e pontual. Lacan supunha então que uma carta chegaria sempre ao seu destinatário, na leitura que realizara do conto de Poe como cartografia que seria da experiência psicanalítica. Posteriormente, como se sabe, Derrida contestou frontalmente esta tese em ''O carteiro da verdade'', inscrito na obra intitulada Carta postal, enunciando que seria uma pretensão metafísica acreditar que a carta chegaria sempre ao seu destinatário. Parece-nos que, em ''Lituraterra'', Lacan não acredita mais que uma carta possa chegar sempre ao seu destinatário, enfatizando agora a importância do lixo que é imanente à experiência analítica. Isso porque a civilização (...) ''é o esgoto'', como nos diz literalmente na página inaugural deste ensaio.

Vale dizer, se o ensaio sobre o ''Seminário sobre a carta roubada'' é o que delineia os Escritos, isso implica dizer que é o sujeito e a lógica do significante que o funda que costuram a totalidade dos textos da coletânea inicial, enquanto que em Outros escritos o que está em pauta é o gozo, do qual o objeto A é apenas o eixo passível de ser elaborável no discurso, de forma que o objeto A não é real mas um mero semblante. Portanto, o real está excluído do sentido, até mesmo do ''sentido gozado'', como nos enuncia Miller. Todas estas novas proposições teóricas são francamente dissonantes com o ensino de Lacan nos Escritos, mas ocuparam um lugar fundamental no último ensino deste, mas que nunca foi transformado em texto. Por isso mesmo, seriam estas outras proposições que ocupariam a posição de ponto de fuga nesta nova coletânea, como nos diz Miller.

Assim, Miller organiza os Outros escritos segundo a interpretação teórica da obra de Lacan que nos propõe, procurando então esboçar os eixos constitutivos do último discurso de Lacan em oposição ao que estava presente nos Escritos. Daí porque o lugar proeminente atribuído no ensaio ''Lituraterra'' nesta outra coletânea, no qual o lixo, o gozo e o real se inscreveriam no mesmo comprimento de onda e ressoariam da mesma maneira, se opondo radicalmente aos registros do sujeito e do sentido presentes nos Escritos. Seria esta lógica que definiria os critérios de seleção dos textos seguidos por Miller na nova coletânea, o que justificaria as exclusões dos demais textos que realizou nesta.

Estaria aqui, portanto, a lógica que preside os Outros escritos, no qual Miller, como intérprete/herdeiro de Lacan, inflete o sentido do discurso do mestre, direcionando os possíveis conflitos de interpretação existentes no campo lacaniano. Seria isso, então, uma forma sutil de definir uma ortodoxia lacaniana, apesar de sua não consideração inicial, onde isso é refutado pelo organizador. Enfim, os Outros escritos seriam então literalmente escritos outros, sublinhando uma nova perspectiva para a obra de Lacan e uma intervenção no campo lacaniano pontuada pela leitura de Miller.

* Psicanalista, professor da UFRJ e da Uerj e autor de FREUD E A FILOSOFIA

 

 

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