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Desejo como Poder

Antonio Quinet

No centro da teoria lacaniana há uma crítica ao mal-estar na sociedade de consumo

     O conceito de gozo em Lacan corresponde ao que Freud descreve na segunda tópica como o para-além do princípio do prazer, e seus conceitos de masoquismo primordial, repetição, supereu, angústia, benefício do sintoma, reação terapêutica negativa e a pulsão de destruição - todos sucedâneos da pulsão de morte. O campo do gozo é, antes de tudo, um campo operatório e conceitual ''aparelhado'' pela linguagem. Os aparelhos para tratar o gozo são os laços sociais, que Lacan denomina ''discursos''. Trata-se de um discurso sem palavras, que vai para além das enunciações, Mesmo que não se diga nada, no momento em que se está dentro de uma relação com outra pessoa, se está inserido num discurso em que os atos importam mais do que as palavras. E aí aparecem modalidades de gozo distintas.

     O campo do gozo com seus discursos é a resposta de Lacan ao mal-estar na civilização elaborada depois do movimento estudantil de maio de 1968 na França, que se caracterizou pela contestação geral da autoridade. Assim, retoma Freud que afirmou ser a relação entre as pessoas a maior fonte de sofrimento humano. O mal-estar é representado nos discursos por um elemento heterogêneo, o ''objeto a'', que expressa a parte excluída da linguagem e aquilo que a civilização exige que o homem renuncie, ou seja, os objetos de suas pulsões. Esse objeto recebe o nome de objeto ''mais-de-gozar'', extraído do conceito marxista de mais-valia.

     Os quatro discursos - Os laços sociais e os atos ''os quatro discursos'' são ditos ''do mestre, do universitário, do analista e da histérica'' que correspondem às práticas de governar, educar, psicanalisar e fazer desejar. O poder, o saber, o sujeito e o gozo estão presente em todas essa práticas, porém de modos distintos. São laços sociais estruturados em torno da relação do agente e de seu outro (o parceiro), revelando a ''verdade'' a partir da qual cada agente se autoriza a agir e inscrevendo o que é esperado que o comandado, o outro, produza. O governante, no discurso do mestre, se autoriza a partir de sua subjetividade, esperando obter do governado a produção de objetos (manufaturados ou industrializados) para usufruir: objetos de gozo. O educador, no discurso da universidade, se autoriza do autor, da bibliografia, para impor o saber ao outro (o estudante) objetivado, produzindo por mais paradoxal que seja, um revoltado, um contestador, um cara-pintada. O analista, em seu discurso, se autoriza do saber do inconsciente para obter do sujeito-analisante sua pura diferença, sua particularidade. O desejante, no discurso histérico, que também podemos chamar de ''o provocante'', se autoriza de seu gozo impelindo o outro elevado à categoria de mestre a produzir um saber sobre sua verdade sexual.

     Os quatro discursos determinam quatro distintas formas de ato: o ato governamental, o ato educativo, o ato histérico e o ato analítico. Cada modalidade de ato é caracterizado por seu agente: a lei, o saber, o sintoma e o objeto a. O que caracteriza um governo não é o que dizem os políticos, mas sim seus atos. O AI-5 pode ser considerado um paradigma do ato instituinte do discurso do mestre como ditatorial. O ato de educar é o tratamento do outro objetivado pelo saber: o que pode ocorrer na sala de aula, na administração, na mesa do bar, no consultório do analista. O setting não define o discurso, as palavras pronunciadas tampouco, e sim o ato. O ato histérico é fazer desejar, o que mostra algo que todos vivemos, ou seja, que cortejar, seduzir, atrair, azarar, faz laço social. O ato é sempre histérico quando produz no outro o desejo, inclusive o desejo de saber, e promove a verdade do gozo sexual. O ato analítico ocorre nesse laço inédito em que são promovidas a desidentificação aos ideais do Outro e a libertação do sujeito do poder mortífero das palavras. O tratamento do outro também varia: no discurso universitário, o outro é tratado como um objeto, como o estudante que ali está apenas para aprender. O ato legal ou de comandar visa o outro como um escravo, um operário, um trabalhador. O ato histérico se dirige ao outro como um mestre para estimular seu desejo. O ato analítico trata o outro como um sujeito.

     O mal-estar é o produto dos discursos dominantes em nossa civilização: discurso do mestre, do universitário e do capitalista (variante atual do discurso do mestre).

     O discurso do mestre é o laço civilizador que exige a renúncia pulsional, promovendo rechaço do gozo que retorna sob a forma do supereu, do qual o sentimento de culpa do sujeito é o índice que se manifesta através do olhar que vigia e da voz que critica. O discurso do mestre produz os dejetos da civilização - o que escapa à simbolização - sob a forma de mais-de-gozar. Ao se tomar a civilização através do que ela produz, Lacan chega a denominá-la de cloaca, a ''cloaca máxima''.

     Tecnologia - Lacan acrescentou aos matemas dos quatro discursos, um matema para o discurso do capitalista que cria um sujeito, cuja causa de vida são os objetos de consumo produzidos pelo saber científico-tecnológico financiado pelo capital. Os imperativos do consumo, da moda, do utilitarismo e do capital não deixam espaço para a falta e o desejo do sujeito - eis porque Lacan diz que esse discurso rejeita a castração, conceito freudiano que aponta que somos e seremos sempre sujeitos incompletos, faltantes e faltosos, inscritos na diferença dos sexos. É um discurso sem lei, que não tem regulação alguma e que, longe de regular as relações entre os homens, segrega. Sua única via de tratar as diferenças é pela segregação imposta pelo mercado, determinando os que têm ou não acesso aos produtos da ciência. Daí a proliferação dos sem: terra, teto, emprego, comida, documentos, etc.

     A sociedade regida pelo discurso capitalista se nutre da fabricação da falta de gozo, produzindo no lugar de sujeitos, insaciáveis consumidores. Estas relações sociais não estão centradas nos laços com outros homens, mas com objetos.

     O mal-estar da civilização dominada pela ciência, como a nossa, se apresenta hoje como doenças predominantemente oriundas do discurso do capitalista, a nova e hegemônica modalidade do discurso do mestre. São essas doenças que o psicanalista é chamado a tratar. O discurso capitalista efetivamente não é exatamente um laço social na medida em que oferece ao sujeito tão somente um gadget, um objeto de consumo curto, rápido e descartável. Esse discurso promove, assim, um autismo induzido e um empuxo-ao-onanismo, fazendo a economia do desejo do Outro e estimulando a ilusão de completude não mais com a constituição de um par, e sim com um parceiro conectável e desconectável ao alcance da mão. Isso pode efetivamente levar à decepção, à tristeza, ao tédio e à nostalgia do Um, em vão prometido, ou a diversos tipos de toxicomanias, entre as várias doenças do discurso capitalista. O discurso do analista se coloca como a modalidade de tratamento do mal-estar que considera o outro como um sujeito - sujeito do inconsciente, do desejo, mas também de direito e da história.

     Contra o imperativo do discurso capitalista, a psicanálise propõe essa falta que se chama desejo, sempre singular e plural, e a gestão não do capital financeiro, mas do capital da libido que por definição está sempre no negativo. E contra a segregação que dele deriva, ela traz a ética da diferença.

     A mulher não existe - É ainda no campo do gozo que Lacan proporá as fórmulas da sexuação e as diferenças entre os gozos masculino e feminino, teorizando este último como um gozo para-além da linguagem, fora das amarras do falo, que longe de ser complementar, é suplementar ao gozo fálico. Os gozos não se complementam. Entre o homem e a mulher há um mal-entendido dos gozos. (Aliás é o que a patologia da vida cotidiana dos casais nos mostra, não é mesmo?) E a sexualidade feminina é abordada não pelo que as mulheres têm a menos, e sim pelo que elas têm a mais - um Outro gozo, comparado ao dos místicos. Isto por que as mulheres não estão totalmente submetidas à lógica fálica e sim à lógica do não-todo (pas tout). Elas são ''não-todas'', não totalmente inscritas no reino do falo. Assim, é do lado feminino que Lacan encontra a objeção ao falicismo, o qual constitui um universo fechado que forma uma totalidade, um ''todo'' a partir de uma exceção, o Pai, que funda a regra que governa os homens e regula seu gozo fálico. A mulher não constitui um universo, daí Lacan afirmar que ''A Mulher'' não existe (o famoso éternel féminin é uma quimera). O que existe são mulheres, que só podem ser contadas uma a uma, o que é bem diferente do batalhão masculino sob a égide de uma figura paterna idealizada ou ditatorial. O Outro gozo, o feminino, do qual as mulheres quase nada falam, aponta a radicalidade de uma outra lógica que não escapou ao movimento feminista na França e nos Estados Unidos. É uma lógica para-além do falo, uma lógica do Outro, da ''Heteridade''. E do qual ainda não extraímos todas sua conseqüências para pensarmos as instituições e mesmo a sociedade.

     Assim, o campo lacaniano é um campo aberto a tudo que diz respeito ao gozo, podendo ser uma fonte para se pensar as questões cruciais do sujeito e da civilização, como por exemplo, responder a Derrida que, em seu discurso endereçado aos analistas nos Estados Gerais da Psicanálise em julho último em Paris, declara que a psicanálise é hoje a única disciplina que pode responder à questão da crueldade psíquica, apontando que a saída se encontra na abertura ao outro, ou seja na forma de tratamento que se dá aos parceiros dos laços sociais.

     Nascido com o século que podemos chamar de freudiano, Lacan não só soube dar à psicanálise um lugar na cultura, fazendo-a dialogar com outros saberes, como mostrou que ela opõe uma resistência à cultura dominante totalizadora e totalitária que segrega, discrimina e exige do sujeito seu assujeitamento aos ideais e imperativos de sua época. Que este século que se inaugura com o centenário de nascimento de Lacan possa voltar fazer valer a psicanálise como a peste que Freud pretendeu trazer para as Américas.

 

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