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100 anos de Lacan, o outro Pai da Psicanálise


     Paris - Vinte anos depois de sua morte, a figura do doutor Jacques Lacan continua amedrontando, muito embora já se tenha acalmado a febre - para não dizer a histeria - que abalou Paris na década de 70. Mas essa calma não significa desinteresse. Não observamos qualquer rejeição ao pensamento de Lacan. Ao contrário. Mas seu pensamento é abordado de maneira mais grave, menos carnavalesca, menos mundana e menos frívola, do que anteriormente.

     Não foram raras as interpretações do discurso lacaniano nestes últimos 30 anos. Elas formam um Himalaia, embora algumas dessas explicações do pensamento lacaniano continuem obscuras e tenebrosas: estágio do espelho, economia do desejo, o simbólico e o imaginário, etc.

     Tive a oportunidade de ser recebido por Lacan em 1966, quando ele publicou seu primeiro livro, Ecrits, que reunia seu ensinamento oral. Até então, Lacan havia se dirigido apenas aos médicos, em seus "seminários" no Hospital Sainte-Anne.

     Em 1966, quando Lacan publicou Ecrits, embora tivesse 65 anos, era ainda um desconhecido (exceto para os especialistas). Depois do aparecimento de Ecrits, a glória circundou imediatamente sua cabeça. E ele ficou muito feliz com isso. E houve um surto de loucura em Paris. A moda estava em festa: os "seminários" não eram mais realizados em um hospital, mas na École Normale Supérieure - uma multidão de senhoras e de poetas de vanguarda ali se amontoava todas as quartas-feira. Lembro-me disso muito bem. E Lacan falava.

     Preleções - Eu assisti a algumas dessas preleções. Havia 300, 500 ouvintes. Havia atropelos e os lugares eram disputados. As pessoas tornavam-se rudes como lobos. Fosse lá onde fosse, ligavam seus pequenos gravadores para poder ouvir de novo o discurso quantas vezes fosse necessário para compreender algum trecho. Alguns entusiastas fechavam os olhos e balançavam a cabeça, com um sorriso de êxtase nos lábios.

     Foi então que eu quis entrevistar Lacan (para o Le Figaro Litteraire). Foi preciso uma luta de esgrima. Ao telefone, ele me fez diversas perguntas para decidir se eu era digno de vê-lo. "Você sabe o que Freud entende por instinto?" "É legítima uma leitura psicanalítica de Edgar Poe?" Coisas desse tipo...

     Não respondi nem bem nem mal. Depois de uns cinco ou seis telefonemas, ele me declarou "bom para o serviço" e obtive o direito de vê-lo. "A que horas?", perguntei. "Às 9 horas da noite, tal dia." Cheguei pontualmente.

     Ele me recebeu em sua casa, na Rue de Verneuil. Lacan tocou um sininho para chamar a criada e ela lhe trouxe um ovo cozido em água quente. Fiquei observando enquanto comia seu ovo cozido. Que mais podia fazer? Ver o pensador descascar o ovo era uma das chances de minha vida. E pensei: Não seríamos, nós dois, dignos de uma tela de Rembrandt ou de uma gravura de Dürer? Correu tudo bem. Lacan fez um esforço enorme para se mostrar claro. Eu passei uma parte da noite em seu escritório. Ele era muito alegre. Rimos bastante. No fim, ele propôs que eu voltasse uma segunda vez para completar algumas idéias.

     Resumo aqui o que ele me disse. Meio século após a morte de Freud, havia se depositado sobre sua obra uma poeira mortal. E Lacan simplesmente soprou essa poeira. Lacan restabeleceu a verdade de Freud, uma verdade "violenta, escandalosa e devastadora", insistia ele. O próprio Freud mediu essa violência. Ao chegar aos Estados Unidos, Freud disse a Jung: "Eles não sabem que nós lhes trazemos a peste." De acordo com Lacan, é por isso que, tanto nos Estados Unidos quanto na França, todos se esforçam por apagá-lo, atenuá-lo, por amaciar os aspetos mais desconcertantes, mais perigosos do freudismo. 

     Lacan se considerava apenas um simples leitor de Freud, mas um leitor escrupuloso, cuidadoso e intrépido. Explicou-me então a insipidez que afetou a psicanálise, mesmo enquanto Freud ainda vivia. Voltemos às origens. Quando se fez a primeira leitura de Freud, o que aconteceu? (...) Bem depressa se percebeu que o nível de elaboração ao qual havia chegado o pensamento desse descobridor genial não combinava com o de seus leitores. Então, os leitores buscavam um reconhecimento de Freud e, para isso, se entregavam a uma exegese apologética de sua obra, tentando assim justificar e depois desculpar seus textos, embotar seu gume afiado... Seus alunos valorizaram tudo o que ligava Freud ao que já se conhecia antes dele... "Tais esforços resultaram no pior" (todas as frase que eu coloco entre aspas são de Lacan e foram revistas na época pelo próprio Lacan).

     Lacan vangloriava-se pessoalmente de não ter "adoçado" o pensamento de Freud. "Eu juro que um texto de Freud não tem nada desse ruído suave..." No caso de Lacan, a grande vantagem nessa leitura, feita com grandes olhos abertos, foi a de ele ter encontrado Freud somente depois de estar bem avançado na carreira de psiquiatra. 

     Mas como Lacan bifurcou para a psicanálise? Foi por meio de sua tese, La Psychose Paranoiaque dans ses Rapports avec la Personnalité (A psicose paranóica em suas relações com a personalidade), em 1930 (Esta tese encantou os surrealistas e inspirou muito especialmente a pintura do surrealista Salvador Dalí).

     Lacan compreendeu, portanto, que a psicanálise é um aparelho dotado de uma força terrível. Continuou lendo Freud e trabalhando. Esperou 20 anos para romper brutalmente com a sociedade psicanalítica de Paris. Por que essa ruptura/ Porque Lacan se obstinava em exigir que Freud fosse decifrado, não em diagonal, para se encontrar nele o que já se sabia, mas, ao contrário, como se explora uma terra desconhecida e às vezes terrível. 

     Ao mesmo tempo, Lacan forjou instrumentos intelectuais para essa releitura de Freud: freqüentou a robusta filosofia da Idade Média (lógica, casuística, escolástica). Seguiu os cursos de Alexandre Kojeve (introdutor de Hegel na França). A partir de Kojeve, ele encontrou alguns intelectuais invulgares: 

     Georges Bataille, Raymond Aron... Sejamos mais breves. A idéia mestra de Lacan é a de que não se poderá entender nada de Freud se não se perceber que Freud é um "lingüista". 

Gilles Lapouge

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