Free Hosting

Free Web Hosting with PHP, MySQL, Apache, FTP and more.
Get your Free SubDOMAIN you.6te.net or you.eu5.org or...
Create your account NOW at http://www.freewebhostingarea.com.

Cheap Domains

Cheap Domains
starting at $2.99/year

check

Revista Viver Mente&Cérebro "Coleção Memória da Psicanálise"

O DISCURSO LACANIANO
Com axiomas e aforismos enigmáticos, os escritos e seminários de Lacan têm como constante referência a três registros: real, simbólico e imaginário

Por Oscar Angel Cesarotto


     Através das décadas, de viva voz ou no deslizar da pena, a presença de Jacques Lacan foi marcante para seu público os psicanalistas, que acompanhavam o exercício ininterrupto de sua lucidez implacável.
     Mas eles não eram os únicos destinatários de suas palavras, prontas para acordar os dorminhocos e os conformados. A qualquer um elas poderiam dizer respeito, desde que admitisse uni saber em ato que o colocasse em causa.
     Frutos de urna verve ímpar, sua lábia e seu carisma fizeram escola, pela inteligência das suas afirmações. Suas idéias, proferidas em alto e bom som, levaram a psicanálise para além de territórios nunca antes trilhados, questionando mentalidades e potencializando a ciência do inconsciente.
     Seus axiomas, formulados com todas as letras, mais de uma vez atingiram domínio público, circulando de boca em boca como colocações magistrais. Contudo, corno a celebridade tem um preço, alguns dos seus achados terminaram virando clichês, trivializados pela repetição indiscrimrnada.
     As frases que, ao longo de seu ensino, Lacan utilizou uma ou mais vezes, destacam-se dele, seja por compactar articulações precisas, ou pelos enunciados, sagazes e heurísticos. Tais características tornam muitas delas altamente valiosas, pela densidade dos seus argumentos. Algumas inclusive, foram levadas pelos ventos da oralidade, que as disseminaram a céu aberto, fora do território restrito dos analistas, na extensão da psicanálise que permeia a vida cotidiana do mundo ocidental.
     Não obstante a difusão, a divulgação e até a popularidade, parâmetros de certo sucesso, são insuficientes para prever o futuro desses dizeres. Para os que sabem ler e ouvir nas entrelinhas, a criatividade lacaniana deixou traços no linguajai contemporâneo. Enunciados certeiros, ditos espirituosos frases feitas ou tiradas memoráveis, depois repetidas por tantos outros. Muitas são afirmações taxativas, peças calibradas de concisão doutrinária, organizadoras de um sistema de pensamento.
     Suas elaborações comprovam que o interesse maior passava pelo estorço de formalização, na procura de uma transmissão cada vez mais eficaz da psicanálise. O ponto extremo dessa tendência foram os matemas, a tentativa criar, por meto de fórmulas algébricas, unidades conceituais exatas, na pretensão de promover urna literalidade inequívoca.

LACAN FALOU E DISSE
     Frase de efeito, efeito garantido? As formulações Lacan, às vezes, parecem aforismos, forjados nos moldes do enigma, premeditados para causar espécie. Pela própria natureza do seu speech, foi mentor de assevera contundentes que em situações corriqueiras e foi contexto enfrentam o risco da degradação, atingir nível do lugar-comum.
     Entretanto a solidez de sua produção intelectual funciona como antídoto contra a entropia teórica de chavões e bordões. No consultório, em silêncio, ocupava o lugar do sujeito suposto saber, suporte da transferência. Em público, discursava e perseverava, ao longo dos anos, firmando suas idéias perante uma audiência que esperava, dele, um saber exposto e magistral.
     Seu legado demanda e exige uma leitura minuciosa. Rios de tinta, oceanos conceituais, marés epistemológicas. Algumas pontuações, como ilhas de raciocínio, ganham relevo na superfície textual, sintetizando, em poucas palavras, os problemas cruciais da psicanálise.

o O sintoma é a inscrição do simbólico no real.
o Não há Outro do Outro.
o A lei do homem é a lei da linguagem.
o O eu é o sintoma humano por excelência.
o Uma psicanálise é o tratamento que se espera de um analista.
o O desejo é a essência da realidade.
o O real é impossível.
o O psicanalista faz parte do conceito de inconsciente.
o Desidero é o cogito freudiano.
o A lei e o desejo recalcado são uma só e mesma coisa.
o O real é o que responde ao acaso.
o Não cederás no que tange ao teu desejo.
o A mulher não existe.
o O enigma é o cúmulo do sentido.
o Não há relação sexual.
o O desejo é sua interpretação.
o Não há, na análise, outra resistência que a do analista.
o O inconsciente é o significante em ação.
o O bem-dizer não diz onde está o Bem.
o A transferência é a realidade do inconsciente posta em ato.
o O amor é dar o que não se tem.
o O olhar é o avesso da consciência.
o A psicoterapia conduz ao pior.
o Deus é inconsciente.
o A verdade tem estrutura de ficção.
o O que não veio à luz no simbólico, aparece no real.
o Um significante é o que representa um sujeito para outro significante.
o O inconsciente é o significante em ação.
o O sintoma é a estrutura.
o Não há metalinguagem.
o Penso onde não sou - sou onde não penso.
o Não retroceder frente à psicose.
o A transferência é uma relação essencialmente ligada ao tempo e seu manejo.
o O estatuto do inconsciente é ético, e não ôntico.
o O analista só se autoriza por ele mesmo.
o O inconsciente é a condição da lingüística.

     Essas são apenas as mais conhecidas. Cada uma poderia ser tema de um seminário. Várias foram, e tantas outras ficaram para a posteridade como charadas teóricas, nada banais, sempre instigantes.

A ESTRUTURA DO INCONSCIENTE
     A obra de Lacan desdobra-se em duas perspectivas diferentes, porém simultâneas. Na vertente da escrita, tudo o que foi redigindo e publicando a partir do começo de sua carreira, ainda na psiquiatria, e depois, já na psicanálise. No exercício da oratória, a seqüência dos seminários, conferências e intervenções, cujo resultado, sua peroração ao vivo, também ficou como letra impressa.
     Seus seminários e textos guardam estreita relação, via de regra sendo os segundos as conseqüências dos primeiros. Assim, os mesmos temas, uma vez elaborados na frente dos seus discípulos, eram vertidos em artigos que, mais tarde, seriam compilados com a denominação genérica de Escritos. Dessa maneira, se alguma vez o destinatário de sua prédica centrava-se tão-só nos seus ouvintes, espectadores de sua performance, o aspecto literário deixou, logo depois, todos os interessados em seu ensino situados no papel de leitores.
     Com a herança de Freud como pano de fundo, há uma constante no discurso de Lacan que atravessa diversas épocas, adotando, em cada momento de sua teorização, novas precisões, sem nunca ter sido abandonada como pedra de toque. Trata-se da referência onipresente, implícita ou explícita, aos registros de imaginário, simbólico e real.
     Estas são as dimensões do espaço habitado pelos seres falantes, como é revelado pela experiência analítica. Cada uma das três categorias é autônoma e diferente das outras, embora todas elas estejam amarradas de forma interdependente. Podem ser assim definidas:

REAL, SIMBÓLICO E IMAGINÁRIO
     O imaginário inclui duas acepções. Por um lado, quer dizer falso e, por este viés, aponta à ilusão de autonomia da consciência. Por outro lado, tem a ver diretamente com as representações e as imagens, as matérias-primas das identificações.
     Na teoria freudiana, corresponde ao plano do narcisismo, compreendendo a etapa intermediária entre o auto-erotismo, e as relações objetais da libido. Seria o momento fundamental da cristalização da imagem do corpo, dando lugar à instalação da matriz do ego no psiquismo.
     Fora desse âmbito, os humanos só existem porque falam, O registro do simbólico tem, na linguagem, sua expressão mais concreta, regendo o sujeito do inconsciente. Ela é a causa e o efeito da cultura, onde a lei da palavra interdita o incesto e nos torna completamente diferentes dos animais.
     Nos trabalhos de Freud, a importância do simbólico pode ser encontrada nos textos que ilustram o funcionamento do inconsciente, onde a casuística prova a maneira como é estruturado. Mas também naqueles outros que discorrem sobre o Complexo de Édipo, por ser a função do pai ligada a esse registro.
     O real, como terceira dimensão, é sempre aludido pela negativa: seria aquilo que, carecendo de sentido, não pode ser simbolizado, nem integrado imaginariamente. Aquém ou além de qualquer limite, seria incontrolável e fora de cogitação. A reflexão a seu respeito traz de novo o velho problema da incompatibilidade cognitiva entre o sujeito e o objeto. Relação impossível, por ser o segundo sobre determinado, e o primeiro, subvertido pelo seu desejo.
     Na metapsicologia, trata-se da base pulsional do isso (ou id), em cima da qual se organiza o aparelho psíquico. Para Freud, a diferença sexual anatômica era a referência mor. Todavia, foi o lugar outorgado ao trauma nos começos da psicanálise: aquilo que, por irromper de repente e sem razão, não permite nenhuma defesa eficaz.
     Os três registros estão presentes desde o início do ensino de Lacan, até suas últimas intervenções. São as coordenadas da análise e os alicerces de Lima outra psicopatologia. Esses conceitos, originários da clínica, também têm incidências em outras disciplinas, como por exemplo na psicologia, na lingüística, na filosofia e na semiótica. A divisão subjetiva e a dialética do desejo provocaram urna ruptura epistemológica nos diversos saberes correlatos. Ainda é cedo para se perceber o alcance de sua incidência no questionamento das humanidades.
     Entretanto, e quase por acaso, Lacan achou um objeto formal apto a reunir seus preceitos, o chamado nó borromeano, construído por três círculos, entrelaçados e inseparáveis. Sua propriedade única consiste em que, cortando um deles, qualquer um, os outros dois não ficam juntos.
     Se, desde os primórdios, era dito analogicamente que os registros estavam enlaçados, lacrados, mais tarde foi encontrado, na topologia, o modelo adequado para que a afirmação deixasse de ser apenas retórica, transformando-se em algo real, um nó de verdade.
     Em certa época, Lacan admitiu ter sido estruturalista, acrescentando em seguida que sua estrutura particular era esse nó. Embora conhecido tradicionalmente por tecelões, marinheiros e escoteiros, seu nome deriva do brasão que ornamentava o escudo de armas de uma nobre família do norte da Itália, os Borromeos.
     Esse nó é útil para perceber a concatenação dos registros e suas lógicas recíprocas, e evitar que sejam considerados separadamente, pois funcionam em uníssono. Assim mesmo, tendo cada um o devido status, nenhum deles tem mais ou menos hierarquia que os outros, atuando de maneira conjunta.
     A topologia teve uma grande importância ao longo do percurso, ocupando cada vez mais tempo e espaço nas lições do seminário. Para Lacan, não havia divórcio entre o prolongado trabalho com os nós e a prática analítica.

A SUBVERSÃO DO SUJEITO
     O inconsciente, a pulsão, a transferência e a repetição, os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, precisam ser pensados à luz dos registros. O fio condutor é a noção de sujeito.
     Esse substantivo é propenso ao mal-entendido, conseqüência da sua pertinência simultânea a outros contextos, o filosófico, o jurídico, o gramatical etc. No psicanalítico, e a despeito de todos os anteriores, não designa concretamente substância alguma, nem identifica ninguém. Esse termo é utilizado numa versão diferente da habitual. Não seria sinônimo de pessoa, ou indivíduo, e muito menos poderia ser confundido com a consciência.
     Quando alguém, falando, pretende se expressar e se fazer entender e, de repente, na sua fala, tropeça numa palavra, ou a troca por outra sem perceber, ou utiliza uma expressão que, por ter mais de um significado, produz no interlocutor uma impressão diferente da que tentara transmitir, eis aí o inconsciente em ação.
     Na surpresa de um lapso de língua, quem foi que se manifestou? A racionalidade do falante não se reconhece naquela palavra que, inesperada e inoportuna, acabou sendo ouvida. Talvez revelasse um anseio que, mesmo inadmissível, torna evidente outro querer determinando o que foi dito.
     Podem-se estabelecer dois momentos, antes e depois do ato falho. Previamente, o locutor expressava-se fluente, dono de si. E depois da locução impensada, quando foi dito algo inimaginável, quem disse fica em pauta, ultrapassado pelo significante. Disso decorre um par de conclusões. Primeira: a intencionalidade foi superada pelo dizer, e quem falou não fica indiferente perante o fato. Segunda: denomina-se sujeito 'a capacidade da linguagem que, enunciando mais que o esperado, indica um desejo do qual não se tinha notícia.
     O sujeito é determinado pelo Outro, nome dado a tudo aquilo pelo qual ninguém chega a dominar plenamente os efeitos das suas palavras e atos; o resultado final de sua atividade é sempre algo distinto daquilo que foi visado ou previsto.
     Os seguintes postulados, de implicação recíproca, são o pano de fundo de todas as articulações lacanianas:
     - O inconsciente está estruturado como uma linguagem.
     - A linguagem é a condição do inconsciente.
     - O inconsciente é o discurso do Outro.
     - O desejo do homem é o desejo do Outro.
     Essas afirmações balizam os registros e funcionam como as referências imprescindíveis na dialética do desejo. Na dependência do dizer, o simbólico. Nas miragens do eu, o imaginário. Na emergência sem mediação, o real como causa. Em todos os casos, a alteridade radical da outra cena.
     Ainda hoje, a psicanálise não dispõe de nenhuma ontologia, embora precise levarem consideração as vicissitudes do ser, ao mesmo tempo falante, sexuado e mortal. Para tratar dele, Lacan cunhou um neologismo, aproveitando as facilitações de sua língua natal: parlêtre.
     Esse significante concentra uma pluralidade de sentidos: parler (falar), lettre (letra), être (ser). Designa aquele que é pelo simples fato de falar, obrigação exclusiva da nossa espécie. Toda e qualquer naturalidade desaparece na cultura e até a sexuação vira um processo abstrato, em que o simbólico molda o imaginário, nem sempre coincidindo com a biologia.
     A transliteração do termo tem prós e contras. Em português não existe nada parecido, e a invenção se torna necessária: falesser. Esta condensação resgata a fala e o ser, e ainda, o falo. Por acréscimo, introduz a finitude. E ainda pode ser lida e escandida como um mandato: Fale, ser!
     Em Função e campo da palavra e da linguagem em psicanálise, escrito fundamental datado de 1953, Lacan escrevia:
     "O inconsciente é o capitulo da minha história assinalado por um branco, ou ocupado por um logro, um capítulo censurado. A verdade, porém, pode ser reencontrada; amiúde, já está escrita em outro lugar. Isto é:
     o nos monumentos, e isso é o meu corpo, quer dizer o núcleo histérico da neurose onde o sintoma mostra a estrutura de uma linguagem, para ser decifrado como uma inscrição que, uma vez recolhida, pode ser destruída se perda grave;
     o nos documentos dos arquivos, também, e são as lembranças de minha infância, impenetráveis, quando não reconheço sua proveniência;
     o na evolução semântica, e isso responde ao repertório e 'as acepções do vocabulário que me é particular, assim como o estilo de vida e o caráter;
     o na tradição, e ainda nas lendas que, sob uma forma heróica, veiculam minha história;
     o nos rastros, finalmente, que conservam inevitavelmente as distorções, necessárias para a conexão do capítulo adulterado com os capítulos que antecedem e sucedem, cujo sentido será restabelecido pela exegese."
     Em outras palavras, tudo aquilo que, fartamente, a associação livre prove: os sintomas, as recordações que encobrem, os mitos individuais e até o estilo e os tropos do discurso pessoal. Caiu na rede da escuta, é significativo.
     Mas nem tudo é significante, pois o real, furando a trama do simbólico, é o limite de qualquer significação.

PSICANÁLISE EM EXTENSÃO
     O lacanismo, historicamente, costuma ser escandido em quatro períodos. Primeiro, o épico, a saga da reconquista teórica do retorno a Freud. Depois, o neoclássico, quando se pensava que a consistência dos conceitos precisava ser incrementada, para melhorar o original. Mais tarde, o kitsch, reproduzindo o estabelecido, até o extremo da repetição em série. Por último, na atualidade, o tempo do paradigma, no qual é necessário aprofundar e consolidar a perspectiva do edifício conceitual e suas inúmeras linhas de fuga.
     Mais de duas décadas atrás, o velho analista mergulhava num merecido sono sem sonhos, depois de uma longa vida e uma extensa produção. Ainda vivo, e até o limite da sua sabedoria, continuava a pensar e reformular as idéias e os conceitos que a sua lavra aquinhoara para benefício da psicanálise, mas também para glória e desafio do pensamento ocidental.
     Finda a sua existência, acabaram as criações, pelo menos aquelas que, na transferência, se esperava dele, mestre por obra e graça. Um capítulo da gesta do movimento psicanalítico assim foi encerrado. O seguinte, a partir de então, e para todos os efeitos, se denomina pós-lacanismo, ressalvando que esse termo, mais do que uma mera denominação cronológica, alude a certa superação, e talvez a um questionável progresso, em relação à época anterior.
     Hoje, a disseminação da orientação lacaniana é um fato incontestável, pois muitos são os analistas que se referenciam, em diversos países, congregados em instituições locais e transnacionais, embora sejam bastantes aqueles que mantêm algum tipo de liberdade associativa. O epicentro continua sendo Paris7 no entanto, faz tempo que deixou de ser uma Meca.
     Em priscas eras, não resultava fácil nem possível o acesso aos seminários datilografados; agora a maior parte deles já foi editada, em versões oficiais ou piratas. Junto com eles, enorme quantidade de bibliografia a respeito, livros, revistas, artigos etc. Inclusive, a tarefa ininterrupta do legatário teórico, Jacques-Alain Miller, estabelecendo, comentando, elucidando e parafraseando os textos básicos, constitui, per se, uma bibliografia paralela, não independente, porém correlata. Outrossim, existem vários dicionários na praça, bastante confiáveis. Para completar, o discurso universitário, até certo ponto e de manei;a limitada, começa a admitir a competência do saber lacaniano. A edição digital da totalidade dos escritos democratizou a leitura, favorecendo os estudos cronológicos.
     Tudo isso pintaria um quadro otimista, com a expansão daquele ensino extrapolando fronteiras e polinizando as mais diversas epistemes e disciplinas, fecundando mentes esclarecidas e arrebatando corações propícios. Mas talvez não seja assim, por ser nesse momento pós-lacaniano que a batalha contra o obscurantismo está sendo travada, sem que se saiba, de fato, qual será o seu desfecho.
     O século XX acabou e, na alvorada do terceiro milênio, o inconsciente se encontra sob fogo cruzado, atacado pelo capitalismo predatório, o mal-estar na cultura, a sociedade depressiva, as religiões totalitárias, o consumismo gozoso, e o discurso da ciência, mais cego do que nunca. Lacan disse, alguma vez, que a psicanálise era um sintoma da civilização e que chegaria um dia em que essa última se curaria dela. Paranóia ou profecia?

ENCORE
     Assim caminha a humanidade. Os irmãos Marx, famosos no seu tempo, então e hoje provocam gargalhadas em série com seu humor fora de série. Nem Lacan ficava sério. Mais, ainda: via neles um paralelismo didático.
     Harpo era o real, pura pulsão acéfala. Imprevisível, caótico e desmedido, sua mudez o eximia da enunciação, da lei e da ordem. Chico representava o imaginário, as pompas do eu, a vaidade e o desconhecimento, sendo, ao mesmo tempo, cordato e insensato, inteligente e tolo, sempre agindo como mediador. No simbólico, Groucho, bom de bico, não dava ponto sem nó em pingo d'água, com seus trocadilhos e sua relação com o inconsciente.
     Era uma fraternidade topológica e anárquica, a serviço do riso e do levantamento do recalque. Karl, o patriarca do clã, ficaria orgulhoso dos seus longínquos parentes e de suas irreverentes contribuições teóricas. Lacan também.

WebDesigner Vitor Murata