Revista Viver Mente&Cérebro "Coleção Memória da Psicanálise"

A ESTRUTURA DO PSIQUISMO
Lacan identificou na neurose, na psicose e na perversão três modalidades distintas de "falta" que determinam as formas de defesa contra o gozo do Outro

Por Laura Battaglia


     Há uma certa variação - relevante, diga-se de passagem - na maneira como as diferentes áreas de conhecimento, ou as diferentes linhas teóricas dentro das mesmas disciplinas, abordam as questões psíquicas, ou as chamadas "doenças mentais". Quantas são essas "doenças", como se originam, que conseqüências trazem àqueles que são acometidos por elas, se são ou não passíveis de tratamento ou de mudanças significativas, tudo isto remete a nosografias distintas, isto é, a diversas formas metodológicas de descrevê-las e também de tratá-las. É nesse sentido que referir-se às manifestações psíquicas como "quadro clínico" ou "estrutura clínica" são coisas distintas: enquanto o primeiro tem uma etiologia médica e baseia-se no conjunto visível e momentâneo das manifestações sintomáticas (objetivas e subjetivas) de uma doença, a segunda refere-se a uma dada ordenação e um dado relacionamento entre os vários elementos que compõem um conjunto - o psiquismo.
     Sem pretender traçar comparações entre quadro e estrutura clínica, meu objetivo aqui é descrever sucintamente o que é a estrutura psíquica, quais os elementos que a compõem e suas subdivisões. De qualquer modo, trata-se de um termo teorizado pela psicanálise, mais especificamente por Jacques Lacan.
     Sigmund Freud não se referiu em sua obra ao termo estrutura, mas afirmou inúmeras vezes que ainda não há, no ser humano quando nasce, uma unidade comparável ao "eu". O que há é um certo caos resultante de um corpo ainda fragmentado e descontínuo. Para Freud, essa unidade só pode ser apreendida a partir de um esquema mental.
     Lacan, por sua vez, afirmou que esse esquema mental não é um dado natural, mas antecipado para o bebê por um Outro antes mesmo de sua capacidade motora se expressar. (Outro, aqui, não como semelhante ou parceiro com quem o sujeito buscará identificar-se, mas como aquele que está para além de uma dimensão imaginária, sendo o portador de um tesouro de significantes. 1sto é, uma instância que é feita de palavras e que as porta até o indivíduo, permitindo-1he aceder às representações e assim estabelecer diferenças entre aquilo que aparente-mente - ou imaginariamente - pode parecer semelhante. Incluam-se aí a diferença entre os sexos e as gerações que estabelecem as relações de parentesco. Quem primeiro ocupa esse lugar de Outro, para a criança, é aquele que exerce a função materna.)
     Ou seja, a apreensão da imagem do corpo próprio e unificado é fornecida antecipadamente por um Outro ao bebê, permitindo que haja a instalação das experiências subjetiva e cognitiva nele. O corpo próprio não é um objeto físico-químico que responde natural e instintiva-mente ao mundo que o cerca (como seria adequado dizer a respeito do organismo), mas sim a partir da apreensão da própria imagem fornecida pelo exterior, a partir de uma perspectiva privilegiada e individualizada pela qual apreende também os objetos do mundo. Tal imagem, portanto, não é uma informação passiva dada ao indivíduo, ela é pregnante e tem uma importante função formadora. É ela que permite ao corpo sair do caos inicial de fragmentação e passar à unificação, tornando-se ao mesmo tempo lugar das representações psíquicas.
     A necessidade de Freud falar da representação psíquica e da formação de uma unidade chamada "eu" partiu de seu aprofundamento sobre as questões relacionadas à natureza e ao tratamento dos sintomas psíquicos, mais especificamente sobre a histeria, tema que havia muito já vinha lhe despertando a atenção. Descobriu, durante os atendimentos clínicos a suas pacientes histéricas, que estas, ao falarem, faziam desaparecer momentaneamente os sintomas ou então deslocavam-nos para o corpo. No entanto, o que de mais significativo ele escutou destas mulheres foi que seus sintomas estavam íntima e indissociavelmente ligados à sexualidade.
     Da teoria inicial sobre o trauma infantil da sedução perversa praticada por um adulto, passando pela formulação do trauma como psíquico, para finalmente chegar à teoria da estratégia do desejo insatisfeito, Freud percorreu um longo caminho até a construção da psicanálise propriamente dita. Nesse percurso, a questão central que o guiou foi o sintoma como defesa necessária contra uma representação sexual intolerável.

DESVIOS PERVERSOS E POLIMORFOS
     A sexualidade humana não tem por objetivo natural um único e estanque propósito de reprodução da espécie. Tampouco se exerce de uma maneira padrão. O homem não se relaciona sempre com alguém de sexo oposto; ele não visa necessariamente o prazer sexual sem sofrimento; a sexualidade não precisa se expressar por meio dos genitais, mas pode ser praticada por meio de outras partes do corpo, adornos ou adereços; seu início não ocorre numa idade ou situação predeterminada; a sexualidade sequer tem de ocorrer na relação ou na presença de um outro ser humano, podendo se dar com animais, objetos ou mesmo com o próprio corpo e imaginação. Em resumo, Freud não só constatou, mas teorizou a respeito da inexistência de um caminho natural para a sexualidade humana, que se manifesta por meio de desvios perversos e polimorfos. Não há portanto uma maneira única de satisfazer o desejo (sempre sexual), o que confere ao humano a sina de estar sempre insatisfeito frente a este.
     E em nome desses desvios que Freud falou em pulsão sexual (sempre variável, portanto exercida de formas parciais) e não em instinto (padrão de comportamento próprio de cada espécie animal). A libido é o que penetra, percorre e marca o corpo, sinalizando-o pela premência de ser satisfeito. Freud diz que, no início da vida de cada bebê, há um tempo mítico em que ele tem suas necessidades todas satisfeitas pela mãe, e que seria o retorno a essa experiência de satisfação que o indivíduo buscaria pelo resto de sua vida, sem jamais encontrar.
     Avançando na leitura particular que faz de Freud, Lacan nomeia gozo essa busca pela plenitude (como se fosse possível encontrarmo-nos com o objeto completo de satisfação!). Portanto, para ele, o Outro, a que nos referimos anteriormente, não só fornece a imagem ideal do corpo, como também o marca perpassando-o pela libido ou, dito de outra forma, pelas pulsões sexuais que o percorrem e nele entram pelos orifícios corporais, deixando marcas do gozo do Outro.

A IMAGEM UNIFICADORA DO CORPO
     O corpo é o lugar contínuo de introjeção de ideais de identificação e da sexualidade. Ele é objeto do Outro, ao mesmo tempo em que é lugar onde os objetos próprios se particularizam. O que a imagem unificadora do corpo faz é fornecer uma certa configuração da distribuição dos objetos, uma certa organização do espaço e do campo onde estes aparecem. A imagem fornece a representação de um campo visível, e não simplesmente a reprodução de propriedades naturais dos objetos.
     Essa imagem fornecida pelo Outro, marcada por sua sexualidade, e que é tão fundamental para a constituição do eu e do sujeito, revela, ao mesmo tempo, um drama: a imposição do desejo do Outro, em contraposição ao próprio desejo. Essa imagem fornece elementos para compreender o que Lacan denominou registro Imaginário, o campo dos ideais introjetados e sedimentados pelo Outro, o registro do engodo das imagens ideais e globalizadoras. O mundo objetal - do qual faz parte o próprio sujeito - é sempre constituído através do Outro, e é por isto que a percepção dos objetos é sempre conformada à imagem corporal.
     O drama fica ainda mais intenso se pensarmos que esse gozo - a marca da sexualidade do Outro no sujeito - é traumático. A própria sexuação no corpo ainda prematuro de um bebê é traumática, como um gozo enorme que o invade, tornando-se a expressão da função pervertida da sexualidade que a criança experimenta como sendo própria, e isso precocemente.
     Para escapar desse encontro constante com a imagem de si mesmo e do trauma sexual, isto é, para que o sujeito se salve da submissão ao Outro, é preciso que ele sustente o seu próprio desejo.
     Podemos entender desejo como a negatividade do mundo narcísico, isto é, como aquilo para o que não há objeto dado e conformado de satisfação plena, como fazem parecer as imagens ideais. O desejo é sempre de outra coisa, que não complementa a imagem e não satisfaz as pulsões - o desejo pressupõe a falta. Falta que, aliás, marca uma das diferenças entre Freud e Lacan: enquanto para Freud o desejo tem uma gênese empírica na perda da simbiose do bebê com sua mãe, para Lacan o desejo é a necessária relação do ser com a falta.
     O que dá forma a este desejo é a Lei, o que Lacan designou Simbólico, um registro psíquico ligado à função da linguagem. Não da linguagem comumente associada à comunicação de conteúdo, mas especificamente do significante como Lacan o toma da lingüística de Saussure: uma realidade psíquica produzida por uma imagem acústica. Freud deu à palavra sua importância para a criação e a dissolução dos sintomas, e Lacan reconheceu a primazia do significante não para os sintomas, mas sobretudo na constituição do aparelho psíquico. Mas dentre os significantes, Lacan destaca um que é fundamental: o Nome-do-Pai, o significante da castração que intercede em favor do sujeito, justamente salvaguardando-o de sucumbir ao gozo total do Outro.
     Para a lingüística de Saussure, o "significado" é um conceito, uma idéia referenciada à palavra, e não o objeto real a que se refere. Da mesma forma, o "significante" não é o som pronunciado ao se enunciar uma palavra, mas a sua imagem acústica. O significante e o significado têm absoluta independência um do outro, aparecendo como um par associado, mas não estanque e fixo.
     Já para Lacan, o significante não só é autônomo em relação ao significado, como também tem uma importância essencial que não pode ser igualmente atribuída ao significado: antes de querer significar o mundo, o que é relevante aos bebezinhos é a relação que eles mantêm com os fonemas. Diante da sustentação simbólica do Outro, os jogos vocálicos a que se entregam são visivelmente prazerosos e, como se verifica na análise pessoal a que se submetem os pacientes, esses jogos são fundamentais para a constituição do psiquismo.
     Freud, ao destacar a fala como instrumento fundamental do trabalho analítico, o fez subvertendo o conceito que se tinha na época dos atos falhos e correlatos, então entendidos como falhas de linguagem. Se era uma situação corriqueira não se considerar um lapso de linguagem, ou um ato falho, ou mesmo um esquecimento fatos reveladores e significativos, foi justamente aí, nesse campo, que Freud buscou a raiz de todo psiquismo. Uma palavra "mal empregada" não é casual ou desprovida de sentido para aquele que a proferiu, pois justamente ela revela um pouco daquilo que o recalque tenta encobrir: o desejo suscitado pela falta aberta no aparelho psíquico, quando da entrada da sexualidade nele. A forma de estas palavras se apresentarem na boca do falante (chistes, atos falhos, lapsos), constitui, juntamente com os sonhos, o que Freud denominou formações do inconsciente.
     E nesse sentido que toda palavra significante revela uma parte da verdade do sujeito, mas não toda, já que seu desnudamento total seria insuportável. É sempre preciso proferir outros "erros" para se configurar um tantinho mais dessa verdade psíquica. Assim, vai-se de uma palavra relevante a outra (ou, dito de um modo lacaniano, de um significante a outro), compondo uma rede de significações. Pode-se dizer, então, que os significantes dialogam entre si, deslizam de um a outro revelando sempre um sentido expresso e outro latente - este último só parcialmente clarificado pela emergência de um outro significante.
     Nessa formação em rede, nessa passagem de uma palavra a outra, Freud identificou dois mecanismos básicos (distintos, mas complementares): o deslocamento e a condensação, responsáveis pelas formações do inconsciente. Lacan, por sua vez, utilizando-se novamente de termos da lingüística, os denominou, respectivamente, metonímia e metáfora.
     O que tais palavras significantes não revelam - ao mesmo tempo em que mostram - é o buraco necessário aberto no psiquismo pela falta, pela precocidade e pela incompletude humana, pelo fato de o homem saber-se mortal sem poder evitar a chegada do fim da própria existência. O traumático existente no pulsional se dá justamente porque o significante não consegue assimilar toda libido no aparelho psíquico, deixando transparecer o furo, a insatisfação que a energia errante abre no corpo. Enfim, as palavras de certo modo substituem e mantêm um tanto distante o inevitável horror que o limite da vida reserva a cada um. São elas que tornam simbolicamente suportável o vazio inevitável da falta, isto é, são elas que tentam fixar a pulsão a um representante, dando-lhe direção. Esse tanto de fluxo pulsional, que permanece errante e sem representante, é o que causa o próprio aparelho psíquico, no sentido de que é um buraco Real que clama por um significante que o fixe a um objeto e por uma imagem que lhe dê consistência, mas tudo o que encontra é a marca de um objeto ausente (denominado por Lacan objeto a), o silêncio. Mas o Real é mais do que o objeto a; ele é o imponderável, o sem sentido que retorna incessantemente questionando o sujeito e sua existência.
     Estes três elementos - Real, Simbólico e Imaginário - são, para Lacan, absolutamente indissociáveis. Registros que se entrelaçam e, juntos, dão consistência e existência ao psiquismo.
     Na teoria lacaniana, portanto, o aparelho psíquico é uma estrutura única composta pelo Real e pelos registros do Imaginário e do Simbólico, que se configuram em torno do furo inicial, isto é, do objeto a. O que Lacan demonstra nessa articulação entre os elementos é que eles podem se compor de três maneiras diferentes, resultando em três "subestruturas" distintas, conforme o recobrimento que se dá a esse objeto a.
     Estas três subestruturas clínicas referem-se às três formas diversas de defesa contra o trauma, contra o gozo. São elas: a neurose (resultante do recalque); a psicose, (resultante da forclusão) e a perversão (resultante da denegação). Para cada uma delas, há uma modalidade distinta de falta, que são, respectivamente: a castração, a privação e a frustração.
     Dito de outro modo, a castração - que é a Lei, o que interdita o incesto, ou a ilusão de completude imaginária entre mãe e bebê - fundamenta-se pela falta de um objeto Imaginário. Ou seja, é uma ação Simbólica que rompe com a ilusão de uma satisfação plena e de um par complementar. O agente que opera este corte é um agente Real, encarnado pela mãe que introduz à criança um outro elemento (além deles dois), que lhes servirá de intermediário e marcará que entre um e outro há um abismo de incompreensão - este elemento é o significante Nome-do-Pai. Desse corte resultam a neurose e suas três derivações: a histeria (como insatisfação do desejo, em que a excitação sexual é desligada de sua representação, instalando-se no corpo), a neurose obsessiva (como impossibilidade de realização do desejo devido à permanência da excitação sexual no aparelho psíquico, mas deslocada de representação), e a fobia (como evitação do desejo, por conta da emergência da angústia resultante do confronto com o objeto do desejo do Outro).
     Já na privação o sujeito se ressente da ausência de um objeto Simbólico. Há uma ação Real, uma falta Real sobre a qual o Simbólico não tem efeito, deixando exposta a ferida de um furo aberto. A pulsão permanece errante sem fixação no organismo e o recobrimento significante necessário para dar-1he existência corporal não se apresenta de forma consistente para compor a rede de significações. O furo Real é, e o agente Imaginário não consegue aceder ao Simbólico recobrindo-o. O que resulta dessa ação é a psicose e suas variações: a paranóia (em que a ausência do Nome-do-Pai faz com que toda vez que o Simbólico é convocado a responder à invasão do Outro, o que surge em seu lugar é a alucinação como resposta Real, sendo caracterizada pelo delírio de grandeza e de perseguição e pela erotomania, ambos utilizados para tentar reinvestir os objetos e dar-1hes o contorno que o simbólico não deu); a esquizofrenia (onde não há, como na paranóia, o recurso do delírio; onde os objetos de perseguição são multifragmentados, invadindo maciçamente o indivíduo); e a psicose maníaco-depressiva (caracterizada pela confusão indissociável entre desejo e gozo).
     Por fim, a frustração, que é sentida imaginariamente pelo sujeito como um dano. Ele se sente lesado por não 1he ter sido dado (por "direito" incontestável) um objeto precioso e Real. Nesse plano, a reivindicação pelo "direito" não tem fim e não respeita leis e interdições - o agente Simbólico fica, assim, atado e sem ação efetiva que possibilite ao sujeito suportar a falta imposta pelo Real. Estamos aqui no domínio da perversão.
     Desse modo, a contribuição essencial (e diferencial) de Jacques Lacan à compreensão do aparelho psíquico, de seus acometimentos e seu tratamento, situa-se no fato de que, a partir de suas idéias, os fenômenos, comporta-mentos e as manifestações sintomáticas não são, em si, fatores determinantes sobre os quais se possa basear um diagnóstico clínico. E preciso, para tanto, escutar em cada sujeito a forma de o significante Nome-do-Pai operar e de a pulsão ser enredada e fixada na rede de representações, situando o significante e o objeto em relação ao Real, Simbólico e Imaginário.
     E a composição desses elementos que dará a dimensão da estrutura sobre a qual se deve operar, é o ponto de ancoragem diagnóstico. Os elementos estão todos presentes, restando saber como se articulam entre si e organizam o psiquismo próprio de cada um. Ou seja, o nascimento de um sujeito é algo datável, mas a constituição do sujeito se dá por um conjunto de fatores, numa dada composição, que permitem o seu surgimento, isto é, é estrutural.

WebDesigner Vitor Murata