Freud e Lacan


     Quando Jacques Lacan nasceu, em 13 de abril de 1901, a Interpretação dos Sonhos já havia sido publicada. Em 1981, ano de sua morte, Freud já havia se tornado há muito um ícone da contemporaneidade e a psicanálise já fora completamente incorporada na cultura.

     Lacan se formou psiquiatra na tradição órgano-dinâmica francesa de Clérambault, e encontrou a psicanálise na elaboração de sua tese de 1932, Da Psicose Paranóica em suas Relações com a Personalidade. Nesse trabalho de conclusão de sua formação psiquiátrica, vemos o jovem Lacan recorrer a Freud para discutir o delírio que conduz a paciente Aimée a uma tentativa de homicídio, e os mecanismos psíquicos que promovem essa passagem ao ato.

     Diferentemente de outros autores que desenvolveram seu trabalho a partir da teoria freudiana, Lacan não foi seu discípulo direto. Freud esteve presente no Congresso de Psicanálise de Mariembad, em 1936, onde Lacan apresentou um trabalho sobre os mecanismos envolvidos na estruturação do eu, sua teoria do "estádio do espelho". No percurso de sua mudança para a Inglaterra, Freud esteve em Paris hospedado pela princesa Marie Bonaparte. Em nenhuma dessas ocasiões, embora tenham estado próximos, parece ter havido qualquer encontro entre ambos.

     Freud foi, sem dúvida, um homem que despertava paixões. Seu relacionamento pessoal com vários de seus contemporâneos é pontuado por momentos de grande aproximação, fascínio mesmo, seguido por crises de decepção profunda e rupturas irreconciliáveis. Breuer, Fliess, Jung, Adler e outros fazem parte dessa série de transferências não resolvidas.

     A situação de Lacan é bem diferente. Freud já era um nome consagrado quando Lacan iniciou seu percurso. Freud viveu em Viena e Londres, Lacan nunca residiu fora da França. Nesse distanciamento têmporo-espacial, o que encantou Lacan não foi a pessoa de Freud, mas sua obra, seus escritos.

     Assim, se por um lado Lacan foi amigo pessoal de Georges Bataille, Claude Lévi-Strauss, Alexandre Kojève, Jean Hypollite, Maurice Merleau-Ponty, Salvador Dali e um assimilador de muitas dessas idéias contemporâneas à teoria psicanalítica, por outro, sempre se manteve fiel à praxis instituída por Freud.

     Lacan se dizia freudiano. Opunha-se, com tal declaração, às psicoterapias de base analítica, e principalmente a toda corrente de pensamento que se desenvolveu a partir dos trabalhos de Anna Freud, nas décadas de 1940-1950, sobretudo nos EUA, que se chamou Ego Psychology. Essa linha de orientação considerava a análise do ego e dos seus mecanismos de defesa prioridades do trabalho analítico, visando com isso a um possível reforço egóico que possibilitaria ao indivíduo lidar melhor com seus impulsos e com as frustrações causadas pelo meio externo.

     A crítica lacaniana fundamental sobre esse posicionamento é que, ao privilegiar os aspectos adaptativos do ego, seus autores foram se afastando mais e mais dos fundamentos da psicanálise e conferindo a sua prática um caráter quase comportamental, já que sua meta apontava para a adequação do indivíduo aos valores sociais vigentes.

     Fazendo contraponto a esse posicionamento que desvirtuava a psicanálise de seus propósitos originais, Lacan elaborou sua teoria sobre a proposta básica de um retorno a Freud, inclusive ao Freud da primeira tópica, da teoria do inconsciente, de suas formações, de seus mecanismos de funcionamento e expressão, conceitos negligenciados por muitos dos pós-freudianos. De certo modo, Lacan os resgatou ao lançar mão da linguística, do estruturalismo, da topologia e de outros instrumentais teóricos de seu tempo para desenvolver uma releitura e uma reordenação dos conceitos fundamentais da psicanálise.

     Apesar da fama de hermetismo de seu estilo, a intenção de Lacan era a de esmiuçar tais conceitos, desenvolvê-los e torná-los passíveis de uma transmissão o mais objetiva possível. Lacan escreveu muito menos do que falou. Boa parte de sua obra, tal como a temos disponível hoje, é transcrição dos seminários proferidos ao longo de quase três décadas. Em todo esse período, embora mude o enfoque dado às várias questões trabalhadas e sofistique mais e mais seus conceitos e sua linguagem, o referir-se a Freud é uma constante em seu discurso.

     Ser freudiano é, nesse sentido, manter viva "a peste" que a psicanálise inoculou na cultura de nosso tempo: o conceito de inconsciente, isto é, a idéia de que há no ser humano uma força de natureza sexual, que atua à revelia da boa adaptação moral e social, e que é impossível de ser totalmente capturada pela consciência-de-si, tornando-nos seres inevitavelmente cindidos e nunca apoiados completamente em nossa auto-imagem.

     Esse caráter subversivo da psicanálise foi o ponto que Lacan sempre manteve como referência. Ele está presente nos primeiros trabalhos já citados de sua juventude, se mantém ao longo dos primeiros tempos de seu ensino, nos primeiros seminários onde abordava pontualmente os conceitos freudianos, e continua mesmo depois de 1964, ano de sua expulsão da IPA (International Psychoanalitical Association).

     Ora, se o núcleo da teoria freudiana é a afirmação do inconsciente como uma falta de saber, como um ponto de interrogação que persiste sempre ao ser humano sobre si mesmo, manter acesa a chama da psicanálise é jamais ceder à tentação de pôr um ponto final nessa teoria. Supor a Freud um saber completo sobre o psiquismo é equipará-lo a um deus e sua prática a um dogma religioso que fornece todas as respostas. O verdadeiro posicionamento psicanalítico é, portanto, o de uma constante revisão.

     Freud, aliás, fez isso com sua própria teoria ao longo de toda a vida. Sem jamais ter renegado o que escreveu num dado momento, acrescentou inúmeras notas de rodapé a edições posteriores de seus primeiros trabalhos, exibindo uma rara fidelidade ao espírito da ciência. E, de certo modo, parece que é com esse espírito freudiano que Lacan mais se identificou.

     Poderíamos, de um modo muito simplificado, resumir a obra de Lacan a uma tentativa de traçar com a maior precisão possível os limites da especificidade da psicanálise em seus aspectos teórico, técnico e ético. Nesse trabalho, nos deparamos o tempo todo com o fio da navalha que separa o saber-possível-de si do não-saber-insuperável que a estrutura humana comporta.

     Essa posição de "douta ignorância", de um sábio não-saber, é aquela que o analista deve manter ao escutar seu analisando. Foi a posição que Freud sempre manteve diante de seus pacientes e também de suas próprias formulações teóricas. Essa concepção impede que qualquer estudo de caso se reduza a uma teoria, a uma generalização.

     O que de mais freudiano Lacan evidencia é que o objeto da teoria psicanalítica é a revelação desse particular absoluto de cada sujeito, cujo conhecimento, entretanto, nunca é completo, total, fechado. Não há ponto final possível, apenas ponto e vírgula, ou reticências...

     Um analista é, nessa perspectiva, alguém que se tornou capaz, através da prórpria análise, de permanecer nessa posição insólita que conjuga o desejo de saber à noção do limite do saber de si. É nesse ponto que, para Lacan, está o final de análise. Não se trata portanto de uma identificação com um dogma ou um conhecimento absoluto, nem de um conformismo depressivo diante da incompletude, mas da possibilidade de uma saída criativa e particular para uma questão impossível de ser respondida no campo da generalidade.

     Não é esse, afinal, o desenlace da própria transferência de Lacan para com Freud? Sem se deixar capturar pelo fascínio da imagem de Freud, Lacan pode mantê-lo sempre como um Outro, uma referência... mas um Outro cujo saber pode ser questionado.

     Já nos últimos tempos de sua vida, Lacan dizia manter com Freud uma transferência negativa. Nomeava assim seu posicionamento de sempre colocá-lo a prova, sem no entanto jamais romper com ele. Talvez por isso a teoria lacaniana seja a mais freudiana das concepções psicanalíticas contemporâneas, e talvez também por isso sua elaboração permaneça viva mesmo após o desaparecimento do homem Jacques Lacan.

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