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O Estado de São Paulo – Domingo, 4 de Abril de 2004

Conservador, mas também revolucionário

É como Elizabeth Roudinesco, autora da biografia ‘Jacques Lacan’, define o pensador francês

REALI JR. - Correspondente

     PARIS – Na opinião de Elizabeth Roudinesco, autora da biografia Jacques Lacan (Companhia das Letras, 564 págs., R$ 58,50), o psicanalista foi pessoalmente um conservador, mas sua obra é revolucionária. De acordo com ela, "não se pode enterrar Lacan só porque não concordamos com os excessos do lacanismo". Nesta entrevista ela fala sobre a importância de Lacan e sua influência no Brasil.

     Estado – Lacan teve grande influência no momento intelectual francês nas décadas de 60 e 70. Vinte anos após sua morte, seu nome e sua influência parecem ter refluído um pouco. A que atribui esse fenômeno?

     Elizabeth Roudinesco – Devo dizer que se Lacan não tivesse existido, pessoas como eu teriam feito outras coisas e não se interessariam pela psicanálise. Antes de Lacan esse era apenas um problema médico e não dos intelectuais. Lacan faz parte, por sua obra, do patrimônio, como Foucault, Althusser. E só a história dirá quem é o maior. A meu ver, o maior pensador entre eles foi Foucault. Lacan foi o maior na psicanálise, mas sua obra ficou inacabada, enquanto Foucault talvez tenha sido o mais importante, sua obra abrangeu os mais diversos campos. O que você chama de refluxo está relacionado ao fato de esses anos 70 estarem ligados à existência de pensadores que encarnaram um ideal de rebelião. Lacan foi um conservador em matéria política, muito mais do que Foucault, mas ele deixou uma obra subversiva em relação à teoria. Ele foi tão subversivo quanto Freud e suas idéias comprometem todas as ortodoxias dominantes, mesmo não tendo sido um libertário. Hoje nos encontra mos num período de normalização absoluta. Esse período é contestado, mas por pessoas que só querem a normalização. Por isso recomendo prudência e acho que não podemos enterrar Marx, mesmo reconhecendo os fracassos do comunismo. Da mesma forma, não se pode 'enterrar Lacan só porque não concordamos com os excessos do lacanismo. Estou convencida que o contexto internacional e o triunfo da globalização vai nos levar a novas formas de oposição a esse conformismo e liberalismo dominantes.

     Estado – No Brasil, o pensamento lacaniano parece agora confinado ao meio psicanalítico, sem tanta penetração cultural, ou pelo menos sem a mesma exuberância anterior. Ele não estaria enfrentando a concorrência de outros modos de pensar, mais adequados e contemporâneos, ou simplesmente os tempos são medíocres demais para suportar um pensamento tão complexo quanto o dele?

     Elizabeth – Vejo o que se passa no Brasil de uma forma diversa. A grande diferença com a França é que o pensamento de Lacan é o mesmo de Freud. Lacan é o renovador de Freud. A característica no Brasil é que não houve essa penetração na cultura literária, pois não existem grandes filósofos no Brasil. Os grandes filósofos são alemães e gregos. Nós somos os herdeiros e estou de acordo com Derrida quando ele afirma que a filosofia é grega. Lacan conseguiu nos tirar dessa Situação. Se a penetração de Freud foi feita pelo meios literários, a de Lacan ocorreu mais pelo meio filosófico. No Brasil, não houve uma implantação na cultura filosófica. Apesar disso, há algo de fundamental que existe no Brasil, mas que não existe na Europa. E nos departamentos de psicologia que se ensina a psicanálise e essa é a grande força do Brasil. Freud e Lacan penetraram radicalmente toda a intelectualidade francesa Na França, Freud é reconhecido como um pensador do nível de Einstein. Se a França é freudiana isso se deve a Lacan, a Foucault, a Jacques Derrida e aos surrealistas. Essa é, sem dúvida, a exceção francesa. O único país que ligou as grandes descobertas intelectuais e filosóficas a problemas políticos.

     Estado – A senhora não acha que o endeusamento de Lacan pelos lacanianos acabou prejudicando o progresso do pensamento psicanalítico? Digo isso porque o fascínio com o personagem e com um pensamento complexo como o dele acabou por gerar mais imitações e paráfrases que desdobramentos criativos. O que pensa a respeito disso?

     Elizabeth – O problema é que Freud sempre foi um clássico e Lacan, ao contrário, é progressista. Um mestre barroco. Freud também provocou ódios a exemplo de Lacan. A psicanálise suscita ódios. O sexo e o desejo suscitam ódios. A grande diferença é que Freud foi um burguês clássico, um homem que permaneceu casto até os 40 anos, o que pode parecer insensato, pois ao mesmo tempo elaborou uma teoria sexual incrível. Já Lacan foi um homem de nosso tempo, um burguês transgressivo, um homem ligado às tradições da família, mas que teve ódio da família. Ele era um conservador, convencido de que a família é necessária, mas ao mesmo tempo, o lugar de todas as psicoses. Ele viveu essa situação na própria família.

     Estado – Como vê a maior difusão das idéias de Lacan na América Latina, especialmente no Brasil e Argentina, do que em países da Europa? Haveria uma explicação para isso?

     Elizabeth – É preciso levar em conta que na América Latina toda cultura intelectual é um espelho da Europa. A Argentina foi a primeira a despontar, mas hoje esse país atravessa uma fase de declínio se comparado ao Brasil. Isso porque a psicanálise é ensinada nas universidade brasileiras, nos departamentos de psicologia.

     Estado – E nos Estados Unidos, como a senhora analisa a posição de Lacan?

     Elizabeth – Lacan foi um fracasso nos EUA. Lá, é estudado como um pensador francês nos departamentos de literatura e filosofia. Na área clínica ele não passou e hoje existem poucos lacanianos clinicando. Não há uma escola lacaniana e só existem alguns grupúsculos lacanianos. Não existe, por exemplo, o que existe no Brasil. Na psicanálise norte-americana há uma distinção entre clínicos que não leram Freud, não leram ninguém, e só fazem terapias e os universitários que não são psicanalistas e se interessam mais pela obra de Freud. Mesmo os que escrevem livros interessantes sobre Freud não são psicanalistas.

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