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Texto da Revista Psicologia Ciência e Profissão, 2004, 24 (1), 64-73

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Reflexões Sobre a Violência e o Homem Contemporâneo

Lara Cristina d’Avila Lourenço

Psicóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP / Ribeirão Preto).

Mestre em Epistemologia da Psicologia e

da Psicanálise pela Universidade Federal de São Carlos.

Doutoranda em Tópicos Históricos e Culturais da Psicologia

pela Universidade de São Paulo (USP / Ribeirão Preto).

Bolsista pela CAPES.


RESUMO: Esta resenha propõe uma reflexão sobre a violência subjacente a determinadas situações humanas. Para tanto, foi feita uma análise do homem ocidental contemporâneo e de suas formas de vida, baseada em idéias das teorias psicanalíticas de Freud e Lacan e nas perspectivas de Heidegger e Merleau-Ponty. Nosso raciocínio parte do pressuposto de que a civilização só é capaz de inibir a agressividade do homem mediante promessas que o favoreçam. Assim, perguntamo-nos: que promessas são feitas hoje? Essa questão orienta nossas hipóteses sobre o homem atual, entre elas, a de que hoje há uma reificação da condição humana.
Palavras-Chave: agressividade, civilização, homem, Psicanálise.

     Atualmente, a violência tem estado no foco de nossas preocupações. É importante, então, conjeturarmos sobre algumas formas de manifestação e fatores propiciadores da violência hoje. Neste trabalho, abordamos alguns fenômenos cuja violência nem sempre é considerada como tal. Com esse propósito, fazemos uma breve reflexão sobre a essência do homem ocidental contemporâneo, porquanto acreditamos que diferentes interpretações do homem e da verdade fundam as características de épocas diversas. Admitimos que o resultado de tal investigação é mais o levantamento de algumas questões que julgamos pertinentes do que propriamente a apresentação de conclusões. 

     Diante da opinião de Gadamer (Juranville, 1987), segundo a qual não podemos ter uma atitude objetivante a respeito da tradição porque estamos inseridos nela, aludimos à tese heideggeriana, que postula a idéia de que, através de um pensamento autêntico, o homem pode compreender a época em que vive, época que é, ao mesmo tempo, realizada e sofrida por ele.

     O homem moderno já se sabe desprovido de atributos absolutos capazes de determinar o curso de sua vida de forma clara e contínua. Não há mais consenso sobre sua definição: ele não é mais somente criatura divina, não é mais guardião dos valores morais, não é simples máquina biológica.

A análise freudiana da agressividade na civilização: o jogo entre promessa e sacrifício

     Pensamos que a Psicanálise só pode surgir a partir desse momento de indefinição sobre a essência humana, diante do qual não recua ao considerar no homem um conflito fundamental entre duas sintaxes diferentes: a consciente e a inconsciente. Freud modifica o lugar da subjetividade ao reconhecer nela um não saber que sabe fazer, ou seja, ele retira do sujeito a autoridade da razão consciente, que Descartes havia proposto, porém sem transformá-lo em caos. A teoria psicanalítica, ao descrever o funcionamento inconsciente, aceita a lógica dos paradoxos da vida humana. 

     Como observa Merleau-Ponty (1960/1991), a teoria freudiana traz para a essência humana o corpo e o espírito não como dualidade, e, sim, como dialética. No homem freudiano, a carne ganha contornos a partir de suas relações com os outros; é uma carne que não só se encontra inserida nas relações sociais, como também as determina. Nessa dialética, não há lugar para a certeza absoluta. 

     É de acordo com essa lógica que Freud (1929/1980), em O Mal-estar na Civilização, afirma que, no aparelho psicofisiológico do homem, não há nada preparado para a obtenção da felicidade. Esta é apresentada apenas em momentos efêmeros, causados, na maior parte das vezes, pela cessação ou livramento da dor. Conforme o que comunica em Inibições, Sintomas e Ansiedade (Freud, 1926/1980), dor e ansiedade são justamente as sensações provenientes da incapacidade inata do aparelho psíquico em dominar adequadamente os estímulos internos e externos. 

     Tal condição faz da existência humana algo frágil e nada confortável. Estamos sempre ameaçados por perigos: somos sujeitos à fúria da natureza, à decadência de nosso corpo (que, muitas vezes, precisa utilizar-se da dor como sinal para se proteger), às dificuldades de nossos relacionamentos com os outros (Freud, 1929/1980).

     A proposta ideal da civilização é a proteção contra tais perigos. A civilização providencia as religiões com seus deuses protetores, oferece o progresso científico e estabelece regras para os relacionamentos (regras que, como nota Freud, embora causem sofrimento aos indivíduos, possibilitam a vida em comunidade). Obviamente, toda essa promessa de proteção é feita sob a exigência de sacrifícios. Devemos sacrificar nossos impulsos mais primitivos, quais sejam, nossa agressividade e nossa libido.

     Visando a esses sacrifícios, a civilização incentiva os sentimentos de identificação. Identificado com o próximo, não posso atentar contra a sua imagem, daí o mandamento: Amarás a teu próximo como a ti mesmo! Vale lembrarmos que Freud (1929/1980) se detém diante dessa ordem, argumentando que ela é totalmente contrária às tendências do homem. Afinal, argumenta o autor, se o amor é algo precioso, como dá-lo a qualquer um que se aproxime? Além disso, a agressividade, que caminha ao lado do amor, habita tanto no sujeito quanto no próximo, e, por isso, ambos recuam, temerosos com o afrontamento. Freud constata que a impossibilidade de tal mandamento ser efetivado traz justamente seu alcance no tempo.

     Sobre a força dos mandamentos, lembramos ainda mais uma observação freudiana segundo a qual proibições poderosas só podem ser dirigidas contra impulsos igualmente poderosos, isto é, só precisa ser proibido aquilo que é fortemente desejado. Por isso, referindo-se ao mandamento: Não matarás!, Freud (1915/1980) conclui pela nossa sede de matar.

     É importante recordarmos que a energia dos impulsos faz com que, mesmo quando inibidos ou transformados em seus opostos, eles irrompam em determinadas situações. Sabemos que não há proibição suficiente para impedir tais episódios, uma vez que, para a Psicanálise, a própria lei (que proíbe a violência) tem suas origens nos interesses violentos de um grupo de indivíduos. A respeito da lei, Freud diz: “Estaremos fazendo um cálculo errado se desprezarmos o fato de que a lei, originalmente, era força bruta e que, mesmo hoje, não pode prescindir do apoio da violência” (Freud, 1933[1932] / 1980, p. 251). 

     Pelos propósitos da civilização, a libido desenfreada é delimitada pelos ideais de ternura e pelas tentativas de normativização do amor. Conforme o autor (1921/ 1980), é a inibição dos impulsos sexuais que permite a união permanente entre as pessoas. Isso porque, quando satisfeitos, tais impulsos são facilmente enfraquecidos ou extintos, ao passo que, inibidos em seus objetivos, podem durar. Dessa forma, os impulsos sexuais são mesclados aos componentes afetivos necessários ao laço mútuo entre os indivíduos de um grupo.

     A agressividade, proibida de exteriorizar-se livremente, deve voltar para seu lugar de origem, isto é, contra o próprio sujeito. Esse é o fundamento, segundo Freud (1929/1980), do sentimento de culpa tão imprescindível à sobrevivência da civilização, pois, quanto mais culpa um indivíduo sente, maiores são suas auto-exigências morais. Em outros termos, conforme aumentam as renúncias pulsionais, maiores são as exigências do superego.

     Dessa maneira, aprendemos desde muito cedo a aceitar as privações sobre o fundo de promessa. As ordens parentais, e, posteriormente, as ordens estatais e religiosas, são obedecidas em troca das promessas de amor, proteção e ideais de felicidade. Desiste-se dos desejos mais primevos e suportam-se as mais severas punições na esperança de um futuro promissor.

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