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Publicado na Folha de S.Paulo, maio de 1988.

Lacan rumo à psicanálise
Renata Cromberg


Resenha da obra de Bertrand Ogilvie,
Lacan, a formação do conceito de sujeito (1932-1949), traduzida
por Dulce Duque Estrada. Jorge Zahar Editor, 136 páginas.

Renata Cromberg é
psicanalista, membro do Departamento
de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

     Obra de Jacques Lacan é daquelas que não podem ser ignoradas. Seus efeitos estão longe de poder ser reduzidos meramente aos consultórios psicanalíticos e à entourage institucional que os cerca. Através da sua penetração cultural, criou-se uma poeira mitológica que se é o desdobramento inevitável de um pensamento contundente, faz obscurecer, pelos efeitos que produz, a própria obra do autor. Será que há algo no movimento que percorre o pensamento de Lacan que produza efeitos tão dogmáticos como os que produziu?

     Neste contexto, a tradução do livro de Bertrand Olgivie, Lacan, a Formação do Conceito de Sujeito (1939-1949) é muito bem-vinda,. Como o próprio título aponta, este filósofo francês nascido em 1952 faz um recorte do início da obra de Lacan. A leitura da tese de medicina (Da Psicose Paranóica em suas Relações com a Personalidade) e dos trabalhos que dela dependem se impôs como decisiva tanto pode esclarecer o contexto teórico no qual Lacan efetuava certas escolhas, devolvendo-lhe assim sua significação histórica, como porque já continham o essencial da problemática por vir, podendo, portanto, ser considerados tanto uma via de acesso à obra como uma chave de leitura.

Arqueologia

     Olgivie faz uma arqueologia das questões que animaram Lacan. Seu percurso é, ao mesmo tempo, histórico e conceitual. Se Lacan vai inicialmente se dedicar a responder questões colocadas antes dele pela psiquiatria, é a partir deste e da filosofia que vai formulando suas próprias questões. Sua relação inicial com a psicanálise é apenas lateral, o que marcará nos seus trabalhos posteriores uma problemática e um estilo de questões bastante peculiares.

     Assim, a exposição segue uma dupla direção: por um lado, tentar restituir a história do percurso lacaniano; e, por outro, apenas em filigrana, colocar alguns marcos referentes à significação para a filosofia da teoria lacaniana. Mas que não se assustem os que olham com desconfiança a conjunção da psicanálise com a filosofia, pois não se trata, no caso do livro, de discussões empoleiradas sobre a psicanálise em geral ou a obra de Lacan em particular. Olgivie repudia a idéia de um privilégio ordenador da filosofia sobre a psicanálise. Neste sentido, seu estilo claro ajuda a impedir mal-entendidos. Os filósofos são convocados no seu texto de duas maneiras: para historiar as questões de Lacan, colocá-las no contexto teórico em que este efetuava suas escolhas ou, na medida em que é Lacan mesmo quem os convoca para formular suas próprias questões, buscar o vocabulário que precisa, livre para fazer dele um uso muito pessoal.

     Apesar de ser muito mais interessante deixar a psicanálise colocar suas próprias questões, Olgivie procura saber o que ela faz quando encontra problemas de uma semelhança espantosa com os dos filósofos. É o caso da questão do sujeito, que Lacan repõe com meios próprios na busca de identificar a causalidade psíquica em particular.

     Assim Foucault e Canguilhem auxiliam o autor a situar o contexto onde emerge a palavra delirante. Incompreendida pelo olhar organicista, ela será ouvida atentamente por Lacan, que buscará o que ainda o sujeito falante, ativo, que reinvindica. Inventando novos conceitos rumo a uma objetividade do subjetivo, é num terreno novo que a psicose vai aparecer necessitando ser compreendida no contexto social que lhe dá significação e pelo conflito vital disposto pela família em sua tensão original.

     Mas para abrir um novo continente e aplicar-lhe um modo de conceitualização diferente, é preciso uma revolução teórica na antropologia. Este será remanejada e mobilizada para apoiar a teorização da estrutura psíquica do indivíduo, e constitui o horizonte de inteligibilidade da psicologia concreta que Lacan quer afirmar. Os elementos deste remanejamento são extraídos da sociologia, etologia, linguística e da própria filosofia política.

Encontro com Freud

     É somente na terceira parte do texto que Olgivie descortina o encontro de Lacan com Freud. Antes, porém, faz questão de destacar a originalidade do projeto lacaniano, que consiste em abordar a questão da determinação própria do psiquismo pelo viés da trama filosófica que ela representa. É este ponto de vista, do qual Freud se manteve cuidadosamente à distância, que vai dar o aspecto particular da obra de Lacan, indissoluvelmente técnica e filosófica. Ele nunca elabora conceitos destinados à compreensão do que se passa nas curas e sua condução sem destacar,. ao mesmo tempo, as repercussões no campo filosófico. A invenção do conceito de estádio do espelho é o ponto fixo que Lacan precisa para se engajar num caminho que o fará retomar pouco a pouco a obra de Freud, deslocando-a. A partir daí torna-se possível o retorno a Freud. entre 1932 e 1949, Lacan procura de alguma forma tornar-se freudiano. Se, até a tese, ele demonstra que a gênese do sujeito parte do exterior, o estádio do espelho mostra que a questão do sujeito se inaugura nele mesmo.

     Se o trabalho efetuado por Olgivie faz emergir a necessidade intrínseca do dogmatismo, do materialismo e do determinismo no pensamento lacaniano, a clareza do seu estilo de análise, problematizador e nada dogmático, concede ao leitor o privilégio de encontrar um terreno profícuo para articular suas próprias questões, sem estar preso a dogmatismos, sem necessitar estar por dentro de modismos da escola. Olgivie recupera a velha idéia de que o rigor de um pensamento se segue pela trajetória das questões que o animam. Pois ele não surge do nada e seu destino não é o milagre. Trata-se pois de baixar a poeira mitológica para que a palavra possa recuperar sua luz essencial.


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