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Da foraclusão do Nome-do-Pai à foraclusão generalizada: considerações sobre a teoria das psicoses em Lacan

AUTORA: Cristine Lacet
Instituto de Psicologia - USP

1. A falta do significante primordial

     Trataremos do conceito de psicose em Lacan a partir da evolução do conceito de mecanismo de foraclusão em seu ensino, o que tem como uma de suas implicações o acompanhamento correlativo de seus avanços acerca da noção de suplência. Pois, se, num primeiro momento, a suplência é pensada em relação à verwerfung inaugural e referida à estrutura psicótica, com a generalização da foraclusão como função do inconsciente, como falha estrutural no Outro, núcleo real do sintoma, podemos pensar numa clínica de suplências que se estende à neurose e à perversão.

     No Seminário 5 - As Formações do Inconsciente, Lacan (1957-1958/1999) formaliza o conceito de foraclusão do Nome-do-Pai, tal como já vinha desenvolvendo desde o Seminário 3 - As Psicoses (Lacan, 1955-1956/1992) e no texto "De uma Questão Preliminar a Todo Tratamento Possível da Psicose" (Lacan, 1958/1998), quando foi assim nomeado.

     Nesse último texto, define a foraclusão como o mecanismo que estaria na origem da estrutura psicótica - estabelecendo, aí, uma clínica diferencial em relação à neurose, cujo mecanismo fundante é o recalque - e que consistiria na rejeição do significante do Nome-do-Pai para fora do registro do simbólico, sendo esse fracasso da metáfora paterna, essa falha na operação de castração, o que conferiria à psicose sua condição essencial.

A verwerfung original será tida por nós, portanto, como foraclusão do significante. No ponto em que, veremos de que maneira, é chamado o Nome-do-Pai, pode pois responder no Outro um puro e simples furo, o qual pela carência de efeito metafórico, provocará um furo correspondente na significação fálica. (Lacan, 1958/1998, p. 564)


     Os significantes foracluídos, diferentemente do que ocorre no recalque, no qual são reintegrados ao inconsciente via simbólico, retornam de fora pela via do real, como é o caso dos fenômenos alucinatórios.

     No Seminário 5, Lacan estabelece o significante do Nome-do-Pai como aquele que fundamenta a Lei, que representa o Outro do Outro. O Outro é entendido como tesouro significante e garantido pela Lei para exercer sua função. Trata-se, portanto, de um Outro completo e consistente. Dito de outra forma, a função do pai é central na questão do Édipo; o pai, aqui, não só é visto como pai simbólico, mas mais precisamente como metáfora, cuja função no complexo de Édipo é substituir o primeiro significante (o materno) introduzido na simbolização.

     É o que propõe, já no Seminário 3:

O complexo de Édipo quer dizer que a relação imaginária, conflituosa, incestuosa nela mesma, está destinada ao conflito e à ruína (…) é preciso aí uma lei, uma cadeia, uma ordem simbólica, uma intervenção da ordem da palavra, isto é, do pai. Não o pai natural, mas do que se chama o pai. A ordem que impede a colisão e o rebentar da situação no conjunto está fundada na existência desse nome do pai. (…) Essa Lei fundamental é simplesmente uma Lei de simbolização. É o que o Édipo quer dizer. (Lacan, 1955-1956/1992, pp. 100-114)


     Considerando-se a psicose como portadora de uma falha simbólica estrutural, a noção de suplência, nesse momento, pode ser entendida como algo que metaforiza a função paterna foracluída, como é o caso da metáfora delirante. Apesar de não se referir à escrita de Schreber, formalmente, como exercendo função de suplência, refere-se a sua língua fundamental como uma rede de natureza simbólica que impediria a dissolução total de seu imaginário.


2. Da relação do psicótico com a linguagem


     Lacan, no Seminário 3, é enfático ao afirmar que, para que se estabeleça um diagnóstico de psicose, é necessária a presença de distúrbios na ordem da linguagem.

Como não ver na fenomenologia da psicose que tudo, do começo ao fim, se deve a uma certa relação com essa linguagem (…) que fala sozinha, em voz alta, com seu ruído, seu furor, bem como com sua neutralidade? Se o neurótico habita a linguagem o psicótico é habitado, possuído pela linguagem. (Lacan, 1955-1956/1992, p. 284, grifo nosso).


     E do que se trata?

     Ao considerar a constituição do sujeito e sua determinação pela linguagem, Lacan propõe a bejahung, afirmação primordial, valor de símbolo - ou dito de outra forma, o consentimento de que a palavra não é coisa -, como a operação que possibilita o acesso ao simbólico: à articulação da cadeia significante, ao equívoco fundamental do significante, ao fato de um significante se remeter sempre a outro e da palavra, em seu caráter metafórico, ser organizada pelo princípio de substituição.

     Nesse sentido, o complexo de Édipo, enquanto lei de simbolização, produz três registros que dizem desse equívoco fundamental da linguagem: a) Verdichtung: é a lei do mal entendido, do equívoco significante, diz do fato de uma fala poder ter vários sentidos ao mesmo tempo, por exemplo, um homem pode ocupar uma posição feminina numa relação simbólica, mas permanecer homem no plano imaginário e no real, denotando que há a possibilidade de se ocupar dois lugares numa relação simbólica; b) Verdrängung: trata-se do recalque, de um impossível no plano da significação, embora a cadeia significante continue correndo para fazer valer sua dívida através do sintoma neurótico. Nesse sentido, a neurose é uma palavra que se articula; c) Verneinung (negação): aquilo que é da ordem do discurso vem à tona por uma via articulada simbolicamente. Tomemos o exemplo de Freud, em seu artigo A Negação, no qual se utiliza do enunciado "não é a minha mãe" para dizer que essa frase significa justamente o oposto do que enuncia. Essas leis de simbolização se explicitam na relação do sujeito com o Outro no esquema L e, daí, podemos admitir que a palavra traz e atualiza a castração:


     Na psicose não ocorre a bejahung, o acesso ao simbólico, no que ele aponta para as leis de alternância e equívoco da cadeia significante. O édipo, enquanto lei de simbolização, também fracassa, o significante do Nome-do-Pai não se inscreve como falta simbólica no Outro, deixando de intervir como corte na relação imaginária do sujeito com o outro, fixando o psicótico, por um lado, numa posição de objeto falta-a-ser da mãe e, por outro lado, deixando-o fora do gozo fálico (Lacan, 1955-1956/1992).

Resposta ao enigma do desejo da mãe, a metáfora paterna é a invenção de sentido para dar conta do segredo desse vaivém, presença-ausência do Outro (…) sempre atravessado pela diferença, pelo corte e pelo limite - nomes próprios da castração - o sentido é a fronteira onde vem se instalar a significação fálica, significação genérica e prototípica que com suas leis gerais e conceitos universais constitui uma superfície de consenso, fundamento de uma realidade compartilhável. Realidade mágica, efeito de uma ilusão apaziguadora que reduz e simplifica, sob a primazia do falo, a diversidade exuberante de mundos e significações possíveis. (Santos, 1991, p. 16)


     O psicótico se situa fora da lógica fálica, principal conseqüência da operação da metáfora paterna, aquela que condena o neurótico a girar em torno de um centro único, medida de todas as coisas: o falo, que, do ponto de vista simbólico, partilha e alinha os sexos e que, do ponto de vista imaginário, aponta para o desejo, se inscreve como objeto de desejo do Outro.

     Quando a significação fálica não advém, cria, no discurso, conseqüências avassaladoras para o sujeito, que fica sem rumo frente a uma enxurrada de significações que não lhe bastam: os significantes correm fora da cadeia, o sujeito permanece na errância, sem o arrimo do significante; as leis de simbolização (verdichtung, verdrängung e verneinung) não operam na psicose; o sujeito não é barrado, tal como indica a linha que liga S-A no esquema L (para a psicose), que não é interrompida. O psicótico, portanto, não suporta o não sentido, o fato de o significante não dizer tudo, seu equívoco, seu princípio de alternância. Ao se deparar com esses fenômenos que são a própria estrutura do significante e da linguagem, o psicótico se utiliza das palavras numa tentativa de burlar as leis do símbolo, através dos fenômenos de linguagem que constituem o texto delirante. Não há meia verdade, o psicótico coloca uma palavra como verdade absoluta na boca do Outro, não há verdade para ser revelada e, frente a esse fenômeno bruto, o psicótico fica numa atitude de perplexidade, antes de conseguir restituir uma ordem (quando o faz), o tratamento delirante.

a) Da perplexidade: o fenômeno psicótico e o ser tagarelado ou as vozes.

     A lei do homem é a lei da linguagem e uma falha na inscrição da função significante resulta em marcas sobre o funcionamento da linguagem. Na psicose, a questão da estruturação da linguagem incide na forma como a língua é usada. Não há ponto de basta no discurso psicótico. "O ponto de basta ou capitoné, refere-se ao cruzamento do eixo sintagmático e paradigmático na rede, em que, pelo deslizamento dos significantes, produzem-se os sentidos, sempre a posteriori, pelas operações de pontuação ou de escansão" (Milman, 2003, p. 32).

     A partir daí, podemos apontar algumas particularidades na relação do psicótico com a linguagem. No que se refere às relações temporais, observam-se, muitas vezes, falhas na sucessividade: a pontuação que regula o sentido na escrita tem uso particular e sua mudança afeta a ordem sintática (pode estar fora do código); pode atingir a cadeia sintagmática, interrompendo-a (frases interrompidas), há quebra na cadeia significante. Faltam pontos de basta que permitam o enodamento da cadeia significante e as redes de sentido ficam soltas. Há ruptura na coerência interna do discurso, às vezes ocasionada pela falta de conexões, por exemplo, pelo uso incorreto de preposições que marcam a transitividade da frase.

     Pode haver na psicose uma relação predominantemente imaginária com o sentido. O duplo sentido ou a polissemia não ocorrem, há uma relação unívoca com o sentido, sustentada pela contiguidade.

     A relação do psicótico com a linguagem aponta para a foraclusão como acidente no simbólico, daí decorrendo uma falha na inscrição significante acima referida: ela é observada na fala e escrita dos psicóticos, por meio de neologismos, frases interrompidas, maneirismos na disposição da escrita, reiteração de letras, palavras e símbolos. Na psicose, palavra e coisa se confundem; as palavras ganham substância, textura, tornam-se coisas que afetam, invadem o corpo.

     Tomar a palavra como coisa significa dizer que ela perdeu a função de símbolo, o sentido - esse limite onde se instala a significação fálica, que, com seus conceitos universais, constitui um consenso geral, separando corpo e linguagem, ruído e voz, palavra e coisa. Na psicose, essa fronteira não se estabelece, vozes e palavras invadem o corpo.

     Outro efeito produzido pela palavra que perdeu o sentido é o pensar compulsivo e arborizado, não há uma significação com consistência para barrar o pensar; a palavra perde o sentido e torna-se signo, um mundo repleto de signos que devem ser interpretados. Tendo como contrapartida, na fala, a verborragia, uma palavra que se associa incessantemente a outra produzindo uma fala ininterrupta, uma seqüência de digressões.

     O fenômeno psicótico é uma significação que surge no real, fora do registro do sentido e que não se parece com nada, pois não foi anteriormente simbolizada, deixando o psicótico numa condição de estranheza e perplexidade. Ela é, porém, uma significação essencial porquanto diz respeito ao sujeito. Tomemos o exemplo da função feminina em Schreber ("como seria bom ser uma mulher numa cópula"): ao mesmo tempo em que surge como um fenômeno psicótico, participando do início de seu surto e deixando-o numa condição de perplexidade, ao ser nomeada, num momento de ordenação delirante (ser a mulher de Deus), funciona como estabilizadora de seu delírio, na condição de metáfora delirante (Lacan, 1955-1956/1992).

     No caso do fenômeno psicótico, o sujeito não é capaz de fazer valer as leis de simbolização, o que seria uma saída simbólica ao acontecimento; diferentemente do neurótico, o psicótico leva ao pé da letra seu discurso interior. O que ocorre, então, é uma reação imaginária em cadeia - há, por exemplo, em Schreber, uma fragmentação da identidade em cadeia -, são os homens e almas categorizados e multiplicados. Essa dissolução imaginária, porém, pode ser um primeiro passo no sentido de um tratamento dado à perplexidade.

     A linha que liga S-A (esquema L) não é interrompida na psicose, daí, podemos admitir que o inconsciente do psicótico fica a céu aberto, ele é o próprio testemunho de seu inconsciente, ele é falado pela linguagem, pelo Outro (seu discurso inconsciente é contínuo, é revelado sem intervalo, sem suspensão). As vozes são, por um lado, o testemunho do psicótico de sua própria vivência, por outro lado, quando consideramos a alucinação verbal na modalidade de palavras e frases soltas, são o testemunho da quebra na cadeia simbólica e da atividade autônoma do significante, o significante no real, sem fazer cadeia, sem se remeter a outro (Santos, 1991).

     "Na psicose vemos se revelar, e da maneira mais articulada, essa frase, esse monólogo, esse discurso interior. (…) No discurso alucinatório, o discurso do inconsciente está literalmente presente" (Lacan, 1955-1956/1992, pp. 132-144).

     Há, também, em relação às vozes - que retornam de fora do registro simbólico -, a perplexidade; ao ser falado pelo Outro, o psicótico fica à deriva, obedece seus comandos, tomados como a verdade ou ainda oferece a elas um tratamento delirante.

     Voltemos, então, à pergunta: do que se trata na relação do psicótico com a linguagem? Até o momento, pudemos estabelecer dois eixos principais para dar conta da lógica desta relação de perplexidade: a não inscrição da bejahung, o acesso ao simbólico no que ele aponta para as leis de alternância e equívoco da cadeia significante; e o fato da metáfora paterna não operar no simbólico e, portanto, da significação fálica não advir. As principais conseqüências são, por um lado, a impossibilidade de se estabelecer sentidos e, por outro, o advento de um sujeito não barrado, no qual o discurso do inconsciente está literalmente presente, ou seja, o sujeito é falado pelo Outro, ou, nas palavras de Lacan, é habitado pela linguagem.

b) O tratamento delirante e os distúrbios de linguagem na psicose

     Frente à perplexidade provocada pela sua relação com a linguagem e ao fenômeno psicótico, o paranóico tenta, através do texto delirante, dar-lhe um contorno imaginário, sempre tentando burlar as leis simbólicas através da construção de um significante totalitário, dos fenômenos de linguagem que são típicos da paranóia e da certeza delirante. Esta última surge como um ponto de ancoragem para o sujeito, é o cerne da significação delirante, que, por não estar submetida à lei da castração, desponta como uma certeza, uma verdade-toda, que, sendo absoluta não admite qualquer dialética, qualquer relativização. Entretanto, enquanto nova significação, pode tomar o estatuto de metáfora delirante. O esquizofrênico, na impossibilidade de criar um texto, fica à deriva, preso aos ritornelos, mas faz poesia, como uma caixa de ressonância linguageira.

É uma linguagem de sabor particular e freqüentemente extraordinário, do delirante. É uma linguagem onde certas palavras ganham destaque especial, uma densidade que se manifesta algumas vezes na própria forma do significante, dando-lhe esse caráter indiscutivelmente neológico tão surpreendente na produção da paranóia. (Lacan, 1955-1956/1992, p. 42)


     Esses fenômenos de linguagem presentes no delírio, que podem ser caracterizados como interrupções na cadeia significante, são significantes que remetem a eles próprios; poderíamos até arriscar dizer que são significantes ao avesso, pois, se é próprio do significante ser completamente esvaziado de sentido e ter seu valor determinado pela posição que ocupa na cadeia simbólica em relação a outros significantes, na psicose significa a si próprio, como no caso dos neologismos.

     Lacan (1955-1956/1992) propõe dois tipos de fenômeno nos quais se prolifera o neologismo:

     - Intuição delirante: é um fenômeno que tem caráter inundante, a palavra do enigma é reveladora e original. Tomemos, aqui, o exemplo de Schreber quando fala de sua língua fundamental como reveladora de sua experiência.

     - Ritornelo: ao contrário da intuição delirante, é uma significação que não se remete a mais nada e se repete numa insistência estereotipada.

Essas duas formas, a mais plena e a mais vazia, param a significação, é uma espécie de chumbo na malha, na rede do discurso do sujeito. Característica estrutural a que, já na abordagem clínica, reconhecemos a assinatura do delírio. (Lacan, 1955-1956/1992, p. 44)


     Para Lacan, o delírio é legível, porém, transcrito em outro registro que não o simbólico, de modo que seria legível, mas sem saída. Na neurose, o recalcado retorna ao mesmo lugar em que foi recalcado: no meio dos símbolos, "fica-se sempre na ordem simbólica, com essa duplicidade que Freud traduziu pelo compromisso neurótico" (Lacan, 1955-1956/1992, p. 124). Nesse momento de seu ensino, considera que o "recalcado" na psicose retorna pela via imaginária e, para que o imaginário não se reduza a nada e o sujeito fique na perplexidade, é necessário que haja uma rede de natureza simbólica (em Schreber a língua fundamental).

O delírio, tentativa de cura, é um ensaio de rigor parcialmente exitoso. Exitoso por construir uma significação viável para o psicótico e por fundar uma filiação, uma forma original de filiação, onde o sujeito se encontra implicado num elo com o Pai (…). Exitosa é também a metáfora delirante enquanto operação de defesa que, funcionando como terceiro termo entre o psicótico e seu Outro, evita as vivências alucinatórias que precipitam o primeiro na posição de objeto da demanda indeterminada do segundo. Exitoso enfim ao devolver a fala do sujeito. (Santos, 1991, p. 44)


c) Tratamento possível

     Lacan (1955-1956/1992) propõe que, também em relação às psicoses, partamos do mal entendido fundamental, que não tentemos compreender a psicose.

     Ao considerar que é no registro da fala que se explicita toda a riqueza da fenomenologia da psicose em sua tentativa de burlar a lei simbólica, propõe que, assim como qualquer discurso, "um delírio deve ser julgado em primeiro lugar como um campo de significação que organizou um certo significante" (Lacan, 1955-1956/1992, p. 141) e que uma investigação da psicose tem como regra fundamental deixar o sujeito falar o maior tempo possível.

O psicótico é um mártir do inconsciente, dando ao termo mártir seu sentido, que é o de testemunhar. Trata-se de um testemunho aberto. O neurótico também é uma testemunha da existência do inconsciente, ele dá um testemunho encoberto, que é preciso decifrar. O psicótico, no sentido em que ele é, numa primeira aproximação, testemunha aberta, parece fixado, imobilizado numa posição que o coloca sem condições de restaurar autenticamente o sentido do que ele testemunha, e partilhá-lo no discurso dos outros. (Lacan, 1955-1956/1992, p. 153)


     Está aí um lugar possível ao analista, como secretário do alienado, fazer circular sua produção e procurar junto a ele um significante que possa reorientar sua posição subjetiva.

3. O Gozo psicótico ou o psicótico fora do discurso


     A partir dos anos 70, com o Seminário 17, Lacan (1970/1992) inscreve a psicanálise no campo do gozo, definido por ele como campo lacaniano; trata-se de um campo operatório e conceitual, que é aparelhado pela linguagem.

     Propõe os discursos como formas de tratamento ao gozo que produzem laço social, refere-se a um discurso sem palavras. Esses discursos operam em função da relação de um agente com o outro, na qual revela-se a verdade a partir da qual o agente autoriza-se a agir, estabelecendo o que é esperado que o outro produza. Os discursos são desdobramentos da relação do sujeito com o Outro. Lacan estabelece uma nova fórmula para simplificar essa relação:



     Nesta formula S1 é o significante que origina e fixa o estatuto do que vem a ser o discurso e que intervém numa bateria de significantes (S2). Essa estrutura significante



     é constituída por posições simbólicas comandadas por símbolos ($, S1, S2, a), portanto, pela linguagem e opera quando damos a toda estrutura 1/4 de giro, constituindo quatro diferentes estruturas ou discursos. Lacan os denominou discurso do mestre, discurso da histérica, discurso universitário e discurso analítico, que correspondem a quatro práticas distintas: governar, fazer desejar, educar e analisar, respectivamente.

     Partindo-se da definição de discurso como uma relação simbólica inconsciente que supõe a castração, podemos pensar o psicótico como estando fora do discurso. Uma vez que o psicótico lidou com a castração, de modo a negá-la, pela foraclusão, não há como pensar em Outro barrado, em desejo. O gozo psicótico, portanto, seria um gozo ilimitado, pois é a significação fálica que organiza o simbólico e permite o surgimento do desejo, que limita o gozo por estabelecer um objeto.

     A questão do gozo vem esclarecer a nosografia psicanalítica no que tange às psicoses, pois, se elas têm em comum a foraclusão do significante do Nome-do-Pai no lugar do Outro, é justamente o destino diferente dado ao gozo, o que vem diferenciar, por exemplo, a esquizofrenia da paranóia. O retorno do gozo no Outro do lado da paranóia e o retorno do gozo no corpo do lado da esquizofrenia.

Dizer gozo do Outro ou gozo do corpo indica que o significante faltou em seu trabalho de separar o gozo do corpo, falhou em sua função de negativá-lo, esvaziá-lo do corpo para depois recuperá-lo como "mais-de-gozar", espécie de mais-valia, um resto de gozo limitado às bordas e orifícios anatômicos onde a pulsão, contornando o vazio do objeto em objeto perdido, extraído e separado do corpo, objeto a, encontra aí sua satisfação. (Santos, 1991, pp. 55-56)


     Na psicose podemos deduzir esse gozo ilimitado; o gozo absoluto é uma região mítica vedada ao ser falante, condição do psicótico. O seu gozo podemos conjecturá-lo a partir dos tropeços da simbolização, por meio de fenômenos clínicos, como a angústia - e podemos, a partir daí, postular algo de real no gozo da psicose.

     O psicótico fica à mercê da angústia face ao enigma do desejo do Outro, já que lhe falta o significante que permite significação, ponto de basta, condição para constituição de um saber sobre o desejo do Outro. Trata-se de uma angústia invasiva, acompanhada do sentimento de não ser mais que um corpo, naquilo que o corpo tem de real. Essa angústia, muitas vezes, só pode ser diminuida ao preço do delírio.

     Na paranóia e na esquizofrenia paranóide o Outro goza do sujeito, não havendo um significante do Nome-do-Pai para lhe fazer barreira, para criar distância do psicótico desse gozo obsceno e indomado que lhe causa dor e culpa.

     O enigma e incógnita que constituem a alteridade do Outro estão ausentes na psicose. Para o psicótico, o Outro é sempre conhecido. O psicótico - paranóide -, como objeto de gozo do Outro, está em posição de preencher aquilo que falta ao Outro no real: resto, objeto parcial, dejeto… Estando nessa posição de objeto de gozo do Outro, muitas vezes, o psicótico faz oferenda de si ao Outro, mas não uma oferenda simbólica, significante, e sim uma oferenda real, às vezes de parte de seu corpo, às vezes de seu corpo inteiro, por meio de mutilações, auto-flagelamentos ou mesmo do suicídio.

     Diferentemente do neurótico, que, por meio da barra do recalque, está protegido da voz do Outro, o psicótico ouve a voz imperativa do Outro e a toma ao pé da letra. Trata-se de uma voz real, inapreensível pelo significante, vem na forma de cadeia quebrada, como as frases interrompidas de Schreber.

     Outra conseqüência da não inserção do psicótico à significação fálica é

o arremesso à morte, efeito desolador, estranho e amargo fruto da carência de posição jurídica na vida social, condição própria ao psicótico, esse sujeito despossuído de inscrição em qualquer discurso estabelecido - do mestre, da histérica, da universidade e do analista - que lhe possa valer de sustentação e referência. (Santos, 1991, p. 66)


     É com o desenvolvimento do estatuto do Outro na obra de Lacan - quando propõe a axiomática do gozo e a noção do Um - que se desenvolve a generalização da suplência a todas as estruturas clínicas.

     No Seminário 7 sobre a Ética, Lacan propõe o objeto a como resto do processo de simbolização, não sendo redutível ao significante, como comenta Skriabine (1993, p. 127):

o objeto a não é um elemento do Outro, é um vazio no Outro (…). O Outro marcado de uma falta central: a do gozo como significante, neste lugar, Lacan introduz S (), significante de uma falta no Outro, significante sem o qual os outros nada representariam, mas que ele mesmo permanece êxtimo ao Outro.


     O S () tem como última conseqüência pensarmos o Nome-do-Pai como tampão de A; a função do Pai não passa de um mito freudiano, é o que anuncia Lacan (1970/1992) no Seminário 17 - O Avesso da Psicanálise. Esse mito se refere à equivalência entre pai morto e gozo e à insistência de Freud de que o assassinato do pai, tal como relata em Totem e Tabu, realmente aconteceu, dando origem à interdição do gozo.

     Lacan propõe um para além do mito de Édipo, um operador estrutural que define como sendo o pai real. "O pai, o pai real, nada mais é que o agente da castração - e é isto que a afirmação do pai real como impossível está destinada a mascarar" (Lacan, 1970/1992, p. 117). Como operador estrutural, o pai seria, então, um significante e, em se tratando de um pai morto, seria o significante do gozo. (Laurent, 1992). Acrescenta Lacan (1970/1992, p. 122): "Não se é pai de significantes, é-se pai por causa de (…). A verdadeira mola propulsora é esta aqui - o gozo separa o significante-mestre, na medida em que se gostaria de atribuí-lo ao pai, do saber como verdade." A castração corresponderia, aqui, ao fato de o pai ser o que nada sabe da verdade.

     Esse para além do Édipo, proposto por Lacan, nos permite pensar numa pluralização do Nome-do-Pai como suplências à falha estrutural do Outro, como possíveis ficções para dar conta do fato de que o próprio significante do Outro seja foracluído de estrutura, e o Édipo, no caso, seria uma ficção entre outras. Trata-se de uma generalização da foraclusão como algo a menos de estrutura.

     Nesse sentido, Lacan (1975/1982) propõe, no Seminário 20 - Mais Ainda, o conceito de Alíngua enquanto um simbólico não referido ao Outro, mas ao Um, o que implica na palavra como veículo de gozo e não de comunicação, porquanto não está endereçada ao Outro. Essa referência ao Um traz implícita uma mudança na operação de estruturação do ser falante, pois propõe o gozo e Alíngua como anteriores ao Outro e a linguagem como estrutura (Skriabine, 1993).

4. A suplência na clínica borromeana

     Esses avanços teóricos se apóiam na própria experiência analítica que impõe que se reformule o conceito de estrutura numa referência para além do Outro. A clínica borromeana ou clínica de suplências consiste, justamente, em pensar a estrutura a partir dos registros da experiência humana e categorias da experiência analítica: o real, o simbólico e o imaginário (R,S,I).

     A introdução da topologia dos nós3 tem como uma de suas conseqüências a redefinição do estatuto dos três registros, eliminando a primazia do simbólico da noção de estrutura (Freire, 2001). Essa supremacia do simbólico trazia algumas dificuldades para se pensar alguns fenômenos clínicos referentes, por exemplo, ao final de análise, em que, nas associações, o jogo significante se aproxima do que Freud denominou "umbigo do sonho" em "A Interpretação dos Sonhos", estabelecendo-se um jogo associativo e interpretativo infinito.

     Lacan, então, "começa a deslocar a ênfase da simbolização para os efeitos do real, estes enquanto único meio de introduzir um vazio nos deslizamentos indefinidos praticados pelo analisante no intuito de fazer persistir sua neurose. A interpretação pensada como corte será um instrumento do analista a fim de, pela introdução do equívoco significante, fazer valer o sem sentido que franqueia a emergência do sujeito do inconsciente, permitindo a nomeação do desejo" (Freire, 2001, p. 176).

     Usando como recurso a Topologia, Lacan propõe um nó borromeano de três círculos com o quarto implícito, aquele que restitui o enlace borromeo, mas que permanece foracluído, sendo essa a função de S (). "É no dar nome, na nominação que reside a suplência, a saber essa que responde a S(), à falha no Outro." (Skriabine, 1993, p. 129).

     O nó borromeano, assim constituído pelos registros R,S,I, traz implícitas as seguintes propriedades: a ex-sistência do real, o furo simbólico e a consistência imaginária. A ex-sistência do real refere-se ao impossível, ao não simbolizável, ao fato de que a articulação dos registros não oferece ao sujeito um Outro consistente, há um furo radical no Outro, que será marcado por pontos de impossibilidade. O furo do simbólico fala do recalque originário, condição para o surgimento do sujeito e da cadeia significante. A consistência imaginária corresponde à idéia da existência de um corpo atrelado a um sujeito.

     Partindo-se do pressuposto de que a foraclusão é de estrutura, trabalha-se com a impossibilidade de fazer nó borromeano a três e isto é atestado na clínica, seja na irrupção da psicose, seja nas formações sintomáticas da neurose. A suplência é uma tentativa de manter unidos R,S,I, a partir de um quarto termo, que Lacan identifica como sendo o Nome-do-Pai, aquele que diferencia e, ao mesmo tempo, mantém unidos os três registros - "três formas de nomear, a partir de diferentes registros, aquilo que não se realizou adequadamente a partir da função paterna" (Freire, 2001, p. 179): a nominação do simbólico como sintoma, a nominação do imaginário como inibição e a nominação do real como angústia -, isso nas neuroses. No caso das psicoses tomemos alguns exemplos de suplência: como sinthoma como o construiu Joyce, como sutura, a exemplo da formulação paranóica, ou como metáfora delirante, esta última uma tentativa da psicose em localizar o gozo.

     Vamos considerar, então, como na psicose essas formas de suplências tornam-se possíveis. No caso do sintoma como nominação do simbólico, como suplência da função do Pai, ele viria separar o gozo do Outro, coordenar gozo e sentido, pois, na psicose, trata-se de um Outro que goza, o gozo está no lugar do Outro. A construção delirante como sintoma é o que vai permitir a domesticação do gozo, "separando-o da cadeia significante que ele invade para localizá-lo no delírio como symptôma, condensando-o como escritura, letra como tal inanalisável enquanto deixada para fora do inconsciente" (Skriabine, 1993, p. 131).

     A exemplo de Joyce, o sinthoma como suplência viria restituir a falha no enlaçamento de R,S,I no ponto mesmo em que ela se dá, ou seja, a partir de um deslizamento do imaginário.

     Lacan propõe o ego de Joyce como seu sinthoma, como aquilo que constitui a sua arte, o enigma de sua escrita, uma escrita que vem subverter a própria estrutura da língua. Entendido como sinthoma, seu ego vem fazer suplência, impedindo o deslizamento do imaginário, amarrando-o ao simbólico e ao real; o sinthoma, portanto, não significa algo, mas se define

através de uma relação não mais aos efeitos de significação, nem mesmo mais a uma significação fora da dialética, mas no registro de uma escritura, que é o modo pelo qual cada um goza do inconsciente a medida que o inconsciente o determina. (Laurent, 1993, p. 49)


     Trata-se, portanto, da letra no lugar do símbolo.

     Vale, aqui, uma breve diferenciação entre sintoma e sinthoma: o sintoma é uma formação do inconsciente, articulação significante, um significante sintomático representa o sujeito para outro significante; o sintoma está à serviço do gozo, silenciando o desejo e a produção criativa do sujeito. O sinthoma diz, justamente, do saber-fazer com seu sintoma, corresponde ao final de uma análise, quando o sujeito esgota suas demandas inconscientes ao Outro, não mais tentando tamponar o furo estrutural do Outro, mas podendo fazer-lhe borda, identificando-se a "uma letra de gozo (…) Esse bordeamento é necessariamente criativo, pois é resposta real de um sujeito só consigo mesmo, frente à questão que o acossa." (Freire, 2001, p. 180).

     Por fim, a suplência, enquanto nominação do real como enxerto (greffe) do simbólico, pode ser exemplificada a partir do comentário de Lacan sobre o caso Dick de Melanie Klein.

     O Nome-do-Pai, como nominação do real, aparece como angústia que vem suplementar a amarração do real ao simbólico e imaginário; a angústia como defesa contra o insuportável do real e correlativa ao advento do ser falante, enquanto sinal de perda do sujeito no intervalo significante.

     Dick não manifesta nenhuma angústia, é o que observa Melanie Klein. No caso dele, o que não ocorreu foi a queda do S1, o recalque originário; a cadeia de significante S2, portanto, lhe falta; para ele, real e simbólico são equivalentes, não entraram no processo de simbolização da cadeia significante, e isso vai ser possível a partir da intervenção de Melanie Klein, que, através da nominação do mito freudiano, o introduz no simbólico, permitindo uma nominação do real (Skriabine, 1993).

     Esses exemplos nos mostram o quanto Lacan avançou a partir de S ( barrado) e

com a topologia dos nós faz uma aproximação de neurose e psicose no que se refere à função da suplência enquanto correlativa da generalização da foraclusão como de estrutura, mantendo-se porém a radicalidade que as separa. Trata-se de uma nova clínica de suplência referida ao nó borromeano. (Skriabine, 1993, p. 133)


     E, acrescento, que toma a psicose como modelo de construção subjetiva.


Referências
Freire, M. N. (2001). A escritura psicótica. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Freud, S. (1973). Observaciones psicoanaliticas sobre un caso de paranoia autobiograficamente descrito. In S. Freud, Obras completas (Tomo II). Madrid, España: Biblioteca Nueva. (Trabalho original publicado em 1910-1911).

Kaufmann, P. (1996). Dicionário enciclopédico de psicanálise. O legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1982). O seminário. Livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1975)

Lacan, J. (1992). O seminário. Livro 3: As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1955-1956)

Lacan, J. (1992). O seminário. Livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1970)

Lacan, J. (1998). De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. In J. Lacan, Escritos (pp. 573-590). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1958)

Lacan, J. (1999). O seminário. Livro 5. As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1957-1958)

Laurent, E. (1992). Lacan y los discursos. Buenos Aires, Argentina: Manantial.

Milman, E. (2003). A instância da letra na leitura. Estilos da Clínica. Revista sobre a Infância com Problemas, 8(14), 30-49.

Santos, N. S. (1991). A psicose: Um estudo lacaniano. Rio de Janeiro: Campus.

Skriabine, P. (1993). La clinique du nœud borromeen. La Cause Freudienne: Revue de Psychanalyse, (23), 127-133.


1 Este artigo é parte da Dissertação de Mestrado intitulada A Escrita na Clínica das Psicoses, defendida no Instituto de Psicologia da USP, sob orientação da Prof. Dra. Miriam Deieux Rosa.
2 Psicanalista, Mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia - USP, Psicóloga do Serviço de Psicologia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Endereço eletrônico: paraibaoo@yahoo.com.br
3 O nó borromeo serviu de brasão à família dos Borromeos no séc XV e foi desenvolvido como recurso topológico pelo matemático Guilbaut. Lacan o utiliza para representar o enlaçamento de real, simbólico e imaginário. O nó pode ser representado por um barbante e apresenta as seguintes características: o rompimento de um dos aros implica na liberação de todos os outros e as cordas são equivalentes. Podese construir uma cadeia borromeana com mais de três nós, desde que se respeite as características acima descritas (Kaufmann, 1996).


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